Teatro Inspiradas em histórias reais, peças sobre feminicídio são apresentadas no Recife

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 04/09/2019 09:45 Atualizado em:

Peça Triz, interpretada por Nínive Caldas e Laís Vieira. Foto: Rogerio Alves/Divulgação
Peça Triz, interpretada por Nínive Caldas e Laís Vieira. Foto: Rogerio Alves/Divulgação
As frentes por mudanças sociais devem ocupar os espaços culturais e as linguagens artísticas. Para denunciar com maior sensibilidade e realismo a violência contra a mulher, o diretor teatral Eric Valença e as atrizes pernambucanas Gheuza Senna, Nínive Caldas, Laís Vieira e Tati Azevedo foram a centros de acolhimento de vítimas e delegacias da mulher para entender melhor esse universo complexo e problemático, mas que parece estar entranhado nas tradições da sociedade. 

O resultado é a Trilogia do Feminicídio, formado por peças que serão apresentadas na mesma noite no Teatro Hermilo Borba Filho (Cais do Apolo, 142, Bairro do Recife), mas sempre em ordens diferentes. As primeiras sessões serão hoje e amanhã, sempre a partir das 19h, se repetindo na quarta e quinta da próxima semana. Os ingressos custam R$ 10 para cada espetáculo, acompanhado por um item de higiene pessoal. Toda a arrecadação será revertida para mulheres encarceradas e crianças nascidas no sistema penitenciário de Pernambuco. O
projeto contou com incentivo do Funcultura. 

Aparecida, interpretada por Gheuza Senna. Foto: Rogerio Alves/Divulgação
Aparecida, interpretada por Gheuza Senna. Foto: Rogerio Alves/Divulgação
O foco dos espetáculos é o feminicídio, mas os enredos passeiam por diversos outros dramas que circundam esse tema, como violências psicológicas, intimidações e agressões físicas. Tudo foi baseado em relatos reais que a equipe teve acesso durante a pes- quisa. A peça Aparecida, interpretada por Gheuza Senna, tem trama desenvolv ida a partir de vivências de mulheres negras. A personagem surge através de pesquisas no Centro de Referência Clarice Lispector, na Delegacia da Mulher através de boletins de ocorrências e no IML - neste último local, a equipe constatou que 70% dos corpos femininos que chegam nos institutos são de negras. 

O espetáculo Triz, interpretado por Nínive Caldas e Laís Vieira, aborda o ciclo vicioso e o abuso introduzido de forma às vezes imperceptível, com a violência psicológica. A pesquisa dos papéis foi aprofundada durante conversas com psicólogas, assistentes sociais e advogadas no Centro de Referência Clarice Lispector e a Secretaria Executiva de Ressocialização (Seres). Em Coisas que acontecem no quintal, Tati Azevedo interpreta uma mulher trans, a pastora Adélia e Mainha, uma parteira e rezadeira. A iluminação é de Luciana Raposo. 

Coisas que acontecem no quintal, com Tati Azevedo. Foto: Rogerio Alves/Divulgação
Coisas que acontecem no quintal, com Tati Azevedo. Foto: Rogerio Alves/Divulgação
"As três peças surgiram juntas, mas partiram de uma mesma pesquisa durante a elaboração da peça Pezinho de galinha (2014). Na época, precisávamos fazer o storyboard da personagem Nanda, uma garota de programa que tinha um cotidiano bem tirano", conta o diretor Eric Valença, em entrevista ao Viver. "Lemos boletins de ocorrência, participamos de rodas de conversas e fizemos contatos com mulheres muito grandiosas que estão nessa empreitada da consolidação da Lei Maria da Penha", continua. 

"Por exemplo, a deputada Gleide Ângelo, que tem uma fala que chega em todas as mulheres, a delegada Bruna Falcão, que nos esclareceu muita coisa, dando uma sensibilidade muito interessante, e a poetisa Cida Pedrosa, atual Secretária da Mulher". "São três espetáculos diferentes na abordagem, na importância de cada um deles, no entendimento do que está acontecendo. Sinto que as atrizes estão muito tocadas pelo espetáculo", completa o diretor.

SUBMISSÃO
A atriz Nínive Caldas, que atualmente apresenta o Fest iva l de Inver no de Ga ranhuns e recentemente substituiu Graça Araújo na apresentação do Cine PE, ressalta a complexidade dos casos de violência, o que repercutiu na idealização da peça Triz. “A personagem vive uma submissão desde a juventude pelo pai. Depois que se casa, é dominada pelo marido. Ela não toma muitas decisões enquanto mulher. Depois de ter filhos, segue naquele universo. Vi muito isso no Centro de Referência Clarice Lispector. Aprendemos que não se pode julgar outra mulher, pois não sabemos da situação que passaram para estar ali. Cada caso é um caso, e é isso que a trilogia tenta transmitir.”

Confira a programação

Quarta-feira (4)
19h00 Coisas que Acontecem no Quintal
20h00 Aparecida
21h00 Triz

Quinta-feira (5)
19h00 Triz
20h00 Coisas que Acontecem no Quintal
21h Aparecida

Quarta-feira (11)
19h00 Aparecida
20h00 Coisas que Acontecem no Quintal
21h Triz

Quinta-feira (12)
19h00 Triz
20h00 Coisas que Acontecem no Quintal
21h Aparecida


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