cantora Elza Soares: 'O Brasil, que é um país tão acolhedor, hoje está encolhido'

Por: Adriana Izel - Correio Web

Publicado em: 22/09/2019 12:04 Atualizado em:

Foto: Marcos Hermes/Divulgação
Foto: Marcos Hermes/Divulgação
O ano era 1953. Elza Soares aparecia pela primeira vez para uma apresentação ao vivo no concurso de música do programa de Ary Barroso, da Rádio Tupi. Ela foi abordada pelo apresentador com o questionamento irônico: “De que planeta você veio?”. A resposta logo se tornou emblemática para a trajetória da carioca: “Vim do mesmo planeta que o senhor. Do Planeta fome”.

Mais de 60 anos depois, a artista busca referência no fato para explicar o Brasil, que é cantado no mais recente álbum, Planeta fome, lançado no último dia 13. “É porque a gente está com muita fome”, diz Elza ao Correio ao explicar o motivo da escolha do título. “Estou com fome de saúde, de respeito, de cultura. Estamos vivendo um momento de saudade. O Brasil, que é um país tão acolhedor, hoje está encolhido. Eu não entendo isso. Então, estamos vivendo um momento de muita fome”, diz.

A partir dessa fome, a cantora buscou o repertório de 12 faixas, que é formado por canções inéditas e algumas regravações. “O repertório é todo meu. Escolhi a dedo. As músicas são todas atualizadas com o hoje. Elas são feitas para o hoje. Até aquelas que foram feitas ontem, elas podem ser cantadas hoje. Minha preocupação era essa. Encontrar músicas que relatassem o hoje, não me importava muito quando elas tinham sido feitas”. Assim chegou até clássicos como Comportamento geral — a primeira do CD a ganhar um clipe lançado na última quinta-feira em que Elza está num cenário apocalíptico ao melhor estilo do filme Mad Max — e Pequena memória pra um tempo sem memória, ambas de Gonzaguinha, e Tradição, de Sergio Britto e Paulo Miklos, dos Titãs, que ganharam nova roupagem e a marcante voz de Elza Soares.

Entre as inéditas, todas canções que são a cara da artista, com um discurso forte, social e político e, ao mesmo tempo, otimista. Para mostrar isso, Elza começa o álbum com Libertação, escrita por Russo Passapusso, do BaianaSystem, e com participação de Virginia Rodrigues, em que manda logo o recado: “Eu não vou sucumbir/ Eu não vou sucumbir/ Avisa na hora que tremer o chão/ Amiga é agora segura a minha mão”. Depois logo emenda a curtinha, de apenas 46 segundos, Menino, um recado as crianças: “Sei que é muito triste não ter casa, não ter pão/ Não te leva a nada destruir seu irmão/ Você representa o futuro da nação.”

A terceira faixa é Brasis, música que, segundo Elza, define exatamente o Brasil atual e o tom do disco. “O Brasil que eu vejo é esse do Brasis que estou cantando. É o Brasil ao contrário. Parece que são dois Brasis num Brasil só”, analisa. Na canção escrita por Seu Jorge, Gabriel Moura e Jovi Joviniano, a artista mostra o Brasil de contradições, que ao mesmo tempo que é próspero, também não o é. As terras tupiniquins são ainda tema de Blá blá blá (Gabriel Contino, DJ Meme e Andre Gomes), com BNegão e Pedro Loureiro, e que faz referências a discursos atuais como o “terraplanismo”, e País do sonho (Chapinha da Vela e Carlinho Palhano), que mostra a busca da cantora por um país com saúde, educação e sem corrupção.

Em ambas, Elza toca na ferida, mas se mostra otimista, algo que ela diz ser essencial no momento vivido, e faz questão de reforçar em Planeta fome. “Lógico, temos que ser otimistas. Falei outro dia que o Brasil está vivendo um momento de gripe. Está gripado, e a medicação é o povo. Temos que dar esse remedinho logo para não deixar virar uma pneumonia. É só uma gripe. Eu preciso cantar num país onde a saúde não esteja doente”, afirma, citando trecho de País de sonho.

Discurso
Em Planeta fome, a artista volta a se referenciar, aqui de forma atualizada. Elza Soares renova o discurso de A carne, no disco Do cóccix até o pescoço de 2002, em Não tá mais de graça, composta por Rafael Mike, que também divide os vocais com a cantora. “Há 17 anos cantei que a carne negra era a mais barata. Hoje não é mais. Hoje o que não valia nada, agora vale uma tonelada”, diz.

Em Virei o jogo (Pedro Luis), a artista faz o que fez muito bem em Deus é mulher (2018), canta uma espécie de biografia feminista. “Nunca arreguei/ Quando tropecei sempre me ergui/ Já quebrei a cara/ Enfrentei as feras, nunca me rendi”. Já em Não recomendado, de Caio Prado, Elza fala do preconceito e do aumento do conservadorismo: “A placa de censura no meu rosto diz, não recomendado a sociedade”.

No meio de tantos discursos há um momento para leveza, que ocorre no meio do disco em Lírio rosa. Escrita por Pedro Loureiro e Luciano Mello, a faixa é romântica e está em Planeta fome exatamente para um momento de quebra. “Ela te dá uma descansada. É aquela coisa bem branda, uma coisa linda, maravilhosa”, classifica.

Diferentemente de A mulher do fim do mundo (2015) e Deus é mulher (2018), que tiveram produção de Guilherme Kastrup, Planeta fome, 34º disco da carreira, contou com produção de Rafael Ramos, que já havia trabalhado com Pitty, Titãs, Ultraje a Rigor e Capital Inicial. Isso faz com que o material tenha algumas diferenças. Além da mensagem, aqui mais política e social, há uma sonoridade mais percussiva, também influência da presença do BaianaSystem, batidas eletrônicas e guitarras sujas. “A gente deu sorte. Dei muita sorte. Calhou e aconteceu que deu tudo certo. Trabalhar com o Rafael Ramos foi muito bom. Ele é maravilhoso”, defende.

Outra novidade é a arte da cartunista Laerte na capa de Planeta fome. A ilustração é surrealista e traz a imagem de um planeta populoso, poluído e com referências às origens da cantora, nascida e criada no subúrbio do Rio de Janeiro.

Assim como em Deus é mulher, Elza Soares sairá logo em turnê do disco. O primeiro show será no Rock in Rio, onde será homenageada em 29 de setembro no Palco Sunset na apresentação intitulada Elza Soares convida com As Bahias e a Cozinha Mineira, Kell Smith e Jéssica Ellen. Depois, a cantora deve rodar o Brasil.


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