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entrevista Alceu Valença celebra a arte em show no Teatro Guararapes

Por: Juliana Aguiar - Diario de Pernambuco

Publicado em: 27/09/2019 09:32 Atualizado em: 27/09/2019 14:46

Foto: Antônio Melcop/Divulgação
Foto: Antônio Melcop/Divulgação

“Hello, how are you? Não sei falar português muito bem.” Uma voz agitada alternava entre cumprimentos em inglês e português, interpretando um estrangeiro não adaptado com o idioma brasileiro. A pessoa do outro lado da linha é Alceu Valença, levado por uma inquietude divertida, já conhecida de suas alegorias e fantasias musicais. 


Talvez contagiado após regressar de uma turnê nos Estados Unidos, a sua segunda no país depois de intervalo de 20 anos, ou somente confirmando sua persona brincalhona. No mesmo ritmo, o pernambucano começou a descrever o novo projeto, Amigos da arte, que será apresentado neste sábado (28), às 21h, no Teatro Guararapes (Centro de Convenções). Os ingressos custam entre R$ 60 e R$ 160.

Uma ode à arte, o repertório do show pouco tem a ver com o disco homônimo gravado no início dos anos 2000 e lançado em 2014. A curadoria foi construída atravessando os mais de 40 anos de carreira do cantor, escolhendo músicas com citações e referências a artistas plásticos, escritores e poetas pernambucanos, brasileiros e europeus. Ariano Suassuna, Fernando Pessoa, Mário Quintana, Guimarães Rosa e Van Gogh são alguns dos nomes homenageados pelo artista.

No palco, Alceu será acompanhado por Paulo Rafael (guitarra), Tovinho (teclados), André Julião (sanfona), Nando Barreto (baixo) e Cassio Cunha (bateria). "O espetáculo caminha por diversos momentos da minha carreira, com músicas gravadas na Holanda, em Portugal, em Porto Alegre, no Rio de Janeiro e algumas dedicadas a Pernambuco, como é o caso de Estação da luz. Eu gosto de trazer o verde dos mares, as cores da terra. Esse show mostra que muitas de minhas músicas contém uma relação com os romancistas, poetas e pintores”, conta Alceu.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Entre as 24 músicas escolhidas, organizadas em seis módulos de quatro canções de melodias semelhantes, destaque para Agalopado (do disco Espelho cristalino, 1977), que reúne referências a Guimarães Rosa em “viro rosa, vereda de espinhos”, Carlos Drummond com “viro pedra no meio do caminho” e o espanhol Miguel de Cervantes nos versos “Dom Quixote liberto de Cervantes”. Que grilo dá (Mágico, 1984) une o João Grilo de Ariano Suassuna a Macunaíma, de Mário de Andrade, no trecho “riso e desastre do meu Brasil popular”.

O show ainda contempla No tempo que me querias, Ciranda da rosa vermelha, Marim dos Caetés, Coração bobo e Papagaio do futuro. Também estarão presentes Girassol (Sol e chuva, 1997), inspirado na pintura de Van Gogh, Belle de jour (Sete desejos, 1992), aproximando o cinema do espanhol Luis Buñuel do céu da praia de Boa Viagem, e a mais recente Eu vou fazer você voar, que será lançada em outubro. A clássica Anunciação encerra o repertório.

Em julho deste ano, o pernambucano publicou no Instagram um vídeo em que aparece surpreendendo um artista de rua no Rio de Janeiro e canta junto com ele. “A internet foi muito bacana para a minha carreira, de repente as minhas músicas antigas passaram a ser revividas e receberam muitos acessos”, destaca, revelando que, recentemente, David Byrne, um dos precursores da new wave e fundador da banda Talking Heads, despertou interesse pelo seu show.

As faixas Cavalo de pau, Pelas ruas que andei, Tropicana e Como dois animais, do disco mais vendido em sua carreira, Cavalo de pau (1982), serão tocadas no show. Desse período, o pernambucano conta que guarda também lembranças de músicas submetidas aos censores do regime militar. “Algumas de minhas músicas foram proibidas na época, eu brinco dizendo que era mais inteligente que a censura. Queriam proibir Talismã, porque remetia à majijuana (maconha, em espanhol), então eu sugeri que podia ser Diana. E passou”, conta Alceu.

Foto: Dewis Caldas/Divulgação
Foto: Dewis Caldas/Divulgação

Situação semelhante aconteceu na música São Jorge dos ilhéus, trilha sonora de Gabriela, cravo e canela (1983). “Eu falava dos coronéis, das fazendas de cacau, queriam que eu suprimisse a patente na letra, mas eu não quis. O que fiz? Comecei a dar uns gritos na hora que fala dos coronéis e, junto com a melodia, cobriu a letra original”, diverte-se.

Aos 73 anos, Alceu conta que recorre ao bloco de notas de seu iPhone para guardar algumas músicas e já tem mais de dez. “Vou cantar uma música para você, pode ser de Olinda?”, questiona, recebendo o aceno para continuar. Do telefone, escuto alguns versos à capela de uma música não lançada.

No carnaval, me lembro dela / Rosa amarela e eu metido a beija-flor / Na pitombeira, vi Olinda guerreira cantar músicas de amor”, entoou. Mesmo ligado aos equipamentos tecnológicos, durante a conversa ele para como se procurasse algum arquivo físico de registro de memórias e surge com novas cantorias, totalizando quatro canções nunca gravadas que pude ouvir durante a ligação.

MUNDO BITA
O sucesso de Anunciação tem invadido também o universo infantil e se tornou uma das músicas da animação Mundo Bita, do pernambucano Chaps Melo. A canção ganhou um videoclipe e Alceu é um dos personagens. “As crianças estão doidas com a música. Há alguns dias, encontrei um menino de 7 anos, no Leblon (RJ), e a mãe mostrou um vídeo dele cantando a música.

Eu sempre recebo vídeos desse tipo, acho que virei o 'Xuxo’”, brinca. Não é a primeira vez que Alceu Valença se dedica ao público infantil. A estreia foi na década de 1980, quando interpretou A Foca para o especial Arca de Noé, da TV Globo.

Alceu fala sobre a música Solidão. Confira:


SERVIÇO
Alceu Valença em Amigo da Arte
Quando: neste sábabo (28), às 21h
Onde: Teatro Guararapes (Centro de Convenções)
Ingressos: Plateia - R$ 160 e R$ 80 (meia) / Balcão - R$ 120 e R$ 60 (meia)

 



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