Diario de Pernambuco
Diario de Pernambuco
Notícia de Viver

Opinião

Proposta arrebatadora transforma 'Yesterday' em clássico instantâneo

Publicado em: 28/08/2019 20:25

Foto: Divulgação (Foto: Divulgação)
Foto: Divulgação (Foto: Divulgação)
A ideia é simplesmente genial. Um belo dia, o mundo inteiro se esquece dos Beatles. De uma hora para outra, todos os resquícios da passagem do grupo desaparecem. O jovem britânico Jack Malik parece ser o único imune a essa bizarra amnésia coletiva.

"Yesterday" é um filme encantador e corajoso. Insere uma discussão sobre ética e moral numa história que todos acompanham com sorriso no rosto, admirando como o roteiro costura a música dos Beatles de forma divertida. E tem coragem de não explicar muito (ou quase nada) o estranho fenômeno que apresenta.

Curioso é que não é preciso gostar dos Beatles para se envolver. É difícil não comprar a proposta de fábula moderna. O diretor Danny Boyle (de "Trainspotting") e o roteirista Richard Curtis ("Quatro Casamentos e um Funeral") criaram uma história diante da qual o espectador não resiste a se sentir no lugar de Malik.

Cantor fadado ao fracasso, ele quase enlouquece ao tocar "Yesterday" ao violão numa mesa com amigos e todos adoram e querem saber como ele compôs algo tão incrível.

Malik fica confuso e, aos poucos, começa a entender a situação. Depois de uma sequência de cenas muito engraçadas em que tenta encontrar qualquer registro dos Beatles, percebe que a busca é inútil.

Assim, tem uma mina de ouro no cérebro. Puxa pela memória as letras e vai tocando cada um dos clássicos desaparecidos. Aí só resta resolver a questão: será capaz de mostrar como se fosse obra dele?

Em questão de semanas, larga o emprego num supermercado, passa a abrir a turnê de Ed Sheeran e começa a gravar o álbum mais esperado da indústria pop. Mas o engenhoso roteiro vai pondo obstáculos.

Malik não conta a verdade nem mesmo a Ellie, a melhor amiga que sempre persistiu em ser sua empresária no tempo das vacas magras e é completamente apaixonada pelo cantor. E ele parece ser o único a não enxergar esse amor. A ponto de trocar Ellie por uma poderosa empresária, o personagem cruel que quase todas as fábulas têm.

Numa longa lista de motivos para ver o filme, os atores têm destaque. Himesh Patel transmite a perplexidade de Malik diante do que está ocorrendo numa atuação primorosa. Como Ellie, Lily James ilumina a tela com seu amor e devoção.

Até o ídolo pop Ed Sheeran está muito bem. Se bem que seu trabalho é facilitado porque ele tem de interpretar... Ed Sheeran! Mas é possível falar bem de todo o elenco. Danny Boyle sempre demonstrou muito carinho por todos os personagens de seus filmes, mesmo aqueles que pouco aparecem na tela.

"Yesterday" é um desses filmes com uma proposta tão arrebatadora que nunca envelhecem. Como "Feitiço do Tempo", a comédia de 1993 do "dia da marmota", em que Bill Murray é condenado a viver repetidamente as últimas 24 horas, com os mesmos acontecimentos surgindo a cada manhã. São filmes que já nasceram clássicos.

"Yesterday" pode ser definido como uma história para mostrar como o mundo seria muito pior sem os Beatles. Mas também serve para mostrar que o cinema seria muito pior sem Danny Boyle.
Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Sobre Vidas: Nivia e o empoderamento de mulheres no Coque
DP Auto na Tóquio Motor Show - Tudo sobre a Nissan
Sérum, pele natural, sombras coloridas e blush cremoso
Lula: sou um homem melhor do que aquele que entrou na cadeia

Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

Galeria de Fotos
Grupo Diario de Pernambuco