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CInema Crítica: Bacurau é o Nordeste que resiste à barbárie fascista

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 24/08/2019 09:01 Atualizado em: 27/08/2019 22:12

Lunga, interpretado por Silvério Pereira, é um dos personagens mais fascinantes do longa. Foto: Cinemastocópio/Divulgação
Lunga, interpretado por Silvério Pereira, é um dos personagens mais fascinantes do longa. Foto: Cinemastocópio/Divulgação

Uma das características mais potentes da arte é sua capacidade de ser o espírito de uma época, o sinal de um tempo, um registro histórico. O longa-metragem Bacurau, dos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, carrega essa peculiaridade. Um misto sofisticado de faroeste, suspense e ficção científica, o filme tem um timing perfeito para o momento social e político que aflige o Brasil. Não por acaso, desbancou nomes como Almodóvar, Tarantino e Dolan no Prêmio do Júri de Cannes deste ano. Também venceu categorias no Festival de Cinema de Munique, Festival de Cinema de Lima e é um dos selecionados da Secretaria do Audiovisual para tentar indicação no Oscar de 2020.

O curioso é que a proposta inicial da obra foi feita em 2009. Ao passar dos anos, os cineastas assistiram a ficção reclinar sob a realidade de forma assombrosa. Esse “zeitgeist”, no entanto, já é algo comum para Kleber Mendonça Filho. Seu primeiro longa-metragem ficcional, Som ao redor (2013), era espelho da classe média brasileira (em ascensão naquela época). Nele, a Zona Sul do Recife era palco de um suspense experimental em edifícios urbanos que carregavam as heranças colonialistas e rurais de Pernambuco.

Aquarius
(2016), também na Zona Sul, ganhou um novo sentido após o protesto no tapete vermelho de Cannes, quando a equipe denunciou um “golpe de estado” contra a ex-presidente Dilma Rousseff. No filme, a protagonista Clara (Sônia Braga) se recusava a sair de um prédio antigo a pedidos de uma grande empreiteira. Em algum momento, era como Roussef se negasse a sair do Palácio do Planalto. Eis que chegamos em Bacurau, em que Kleber e Juliano saem do urbano e partem para um interior visceral, ambientado em um Brasil “daqui a alguns anos” e que está oficialmente dividido entre Norte e Sul. As filmagens foram realizadas no Sertão do Seridó, divisa do Rio Grande do Norte com a Paraíba.
 
Velório de Carmelita, com Barbara Cohen. Foto: Victor Jucá/Divulgação
Velório de Carmelita, com Barbara Cohen. Foto: Victor Jucá/Divulgação

Bacurau é um vilarejo do município fictício de Serra Verde, no Oeste de Pernambuco. Inicialmente, o fio condutor da trama é Teresa (Barbara Cohen), que retorna para o velório a avó Carmelita (Lia de Itamaracá), uma matriarca local. A primeira parte do filme, com várias tiragens cômicas típicas de produções audiovisuais no interior nordestino, é dedicada a apresentar personagens singulares que compõem a cidadezinha. Conhecemos a médica Domingas (Sônia Braga), o professor Plínio (Wilson Rabelo), o “matador” Pacote (Thomás Aquino), o foragido Lunga (Silvério Pereira), o político demagogo Tony Duda (Thardelly Lima). É uma comunidade que tem fim em sí mesma.

O suspense entra em cena quando um disco voador corta do céu, - a música de abertura é Não identificado, na voz de Gal Costa - aproximando o filme de um sci-fi retrô no melhor estilo do norte-americano John Carpenter - uma das notáveis inspirações longa, que tem até uma faixa de Carpenter na trilha sonora. Essa série de episódios inusitados segue com o sumiço do vilarejo no mapa, um caminhão pipa que aparece baleado, uma dupla de motoqueiros desconhecidos, assassinatos inexplicáveis. Bacurau está sendo, efetivamente, atacada por uma força externa e misteriosa.

Domingas (Sônia Braga) e Michael (Udo Kier). Foto: Vitrine Filmes/Reprodução
Domingas (Sônia Braga) e Michael (Udo Kier). Foto: Vitrine Filmes/Reprodução
Um núcleo de atores estrangeiro é comandado pelo alemão Udo Kier, conhecido por interpretar vilões memoráveis no cinema mundial e que adiciona um inegável tom “hollywoodiano” à obra. Enquanto vai se aproximando do gênero faroeste, Bacurau vai criando intrigantes comunicações com a realidade: a glamorização das armas, a relativização da violência descabida, a comemoração ao acertar um “alvo” humano. Nada diferente de uma declaração blasé diante da chacina em Altamira (PA), da espetacularização futebolística da morte de um sequestrador no Rio de Janeiro (RJ). Nessa distopia, é como se a necropolítica já vigente estivesse ainda mais legitimada.

Com final apoteótico, "tarantinesco" e de prender o fôlego, Bacurau é um conto épico sobre o Sertão, uma espécie de Canudos futurística que expõe como carne viva na janela as nossas desigualdades regionais e sociais. No mundo real, o Nordeste se tornou um contraponto ao Brasil por não ter escolhido a extrema-direita nas eleições de 2018. Mas, como já disse Kleber Mendonça Filho em inúmeras coletivas, esse não um filme sobre o governo de Jair Bolsonaro, e sim sobre problemas crônicos do Brasil, um país que parece estar sob um eterno regime colonial.

Foto: Cinemastocópio/Divulgação
Foto: Cinemastocópio/Divulgação
A miséria, a falta de oportunidades e a xenofobia são algumas das realidades que criaram uma resistência formidável no povo nordestino. Essa determinação não parte necessariamente de uma articulação, mas de um instinto, como uma revanche de um Brasil escanteado. A rigidez que o povoado adota para enfrentar a ameaça não vem de fora, pois faz parte da nossa cultura e da nossa história - uma das cenas finais, ambientada em um museu, evidencia bem isso. A mensagem que fica para quem assiste Bacurau em 2019 é que, mesmo com tantas desvantagens, o Nordeste é sim capaz de vencer a barbárie fascista e dissimulada dos novos autoritarismos.

Assista ao trailer:




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