CINEMA Consagrado em Cannes, Antonio Banderas vive momento de plenitude O ator espanhol está no longa-metragem 'Dor e glória'

Por: Ricardo Daehn - Correio Braziliense

Publicado em: 16/06/2019 14:11 Atualizado em: 16/06/2019 14:16

Foto: AFP/LOIC VENANCE.
Foto: AFP/LOIC VENANCE.
Com a bagagem de oito filmes em parceria e a autoridade de quem conhece o ator Antonio Banderas, desde 1980, o cineasta Pedro Almodóvar sacramentou que, no mais novo filme dele Dor e glória, viu o renascimento do amigo como ator, além de perceber a insaturação de uma “nova era” para Banderas, a exemplo da época em que estrelou Ata-me (1989). Não são poucos os indícios para a assertiva: até um dia desses, o astro não segredava a preferência por Ata-me, dada “a doçura rara” apresentada pelo protagonista que ele defendeu (uma espécie de delinquente do bem), e, sim — em quase 40 anos de carreira —, Bandeiras finalmente conquistou a honraria de levar o prêmio de melhor ator, por Dor e glória, no prestigioso Festival de Cannes.

Em Dor e glória, Banderas encarna um cineasta sensível e combalido, agregando uma nova realidade para o eterno latin lover hollywodiano. O personagem Salvador Mallo é claramente decalcado justo na persona de Almodóvar. “Quando alguém é diretor de cinema e escreve sobre um diretor de cinema, é impossível não pensar em si mesmo e na própria experiência como referência”, assumiu, até mesmo o diretor que abriu as portas do cinema mundial para José Antonio Domínguez Banderas, hoje, com 58 anos.

Verdade seja dita: a estrela pop Madonna deu lá também um empurrãozinho, ao flertar, publicamente, com Banderas, no documentário Na cama com Madonna (1991). Foi parte do passaporte para que Banderas chegasse às cifras, por exemplo, de O corpo (2000), pelo qual obteve cachê de US$ 12 milhões. Da recente vitória em Cannes, Bandeiras declarou, no exterior: “Ainda que seja um filme muito pessoal de Almodóvar, ele mostra que, na viagem da vida, todos nós carregamos uma mochila repleta de dores e glórias”.

Sete quilos mais magro para o papel do diretor Salvador Mallo, Banderas admitiu ter visto a “foice da morte” passar perto, por um ataque cardíaco, sofrido há dois anos. À agência de notícias Reuters, contou que o episódio “foi um conselho fantástico para a vida”. Na torrente de declarações, explicou que largou o fumo, está com o “cérebro mais ativo” e que tem feito mais exercícios físicos “do que nunca”. Banderas, ao ver a carreira em retrospecto, conta que, a cada filme da lista que carrega, recorda um pedaço de vida, mas que é incapaz de julgar seus desempenhos.

O detalhe da demora em receber prêmio de interpretação em Cannes, por incrível que pareça, foi celebrado: “Quando chegam cedo, prêmios tendem a nos encaminhar para erros; eu não cometi erros”. “Revigorado e novo”, Banderas afirma ter entrado nas filmagens de Dor e glória, com a libertação proposta por Almodóvar para que descartasse maneirismos. Há oito anos, com o longa A pele que habito, ator e diretor retomaram contribuições artísticas estancadas por 20 anos. Banderas já disse que encontrou um Almodóvar “profundo nos conteúdos” e “exigente na economia”. Para Dor e glória, o diretor pediu o oposto do “físico” e da “bravura” pelos quais Banderas é reconhecido. Aliás, uma cena do longa em que um cineasta aconselha um ator para choro discreto, no qual sofra mais pela contenção das lágrimas, parece dialogar com a brilhante composição de Banderas na telona.

Matador

A cara “muito romântica” do ator, detectada na vida real por Almodóvar num encontro oitentista em café, pode seguir a mesma; mas, claro, décadas passaram, e com Julieta Serrano no papel da mãe de Salvador Mallo, o espectador mais nostálgico da nova fita não fugirá do espanto de reencontrar a dupla de astros de Mulheres à beira de um ataque de nervos (1988), Matador (1986) e Ata-me (1989). Numa perspectiva mais objetiva, é o personagem Mallo que acentua diferenças; quando responde, no filme, ao polido “Como estás?”, e ele dispara — “Velho”.

“Velhos tempos”, por sinal, têm numerosas citações no decorrer de Dor e glória. E na trajetória do personagem Salvador despontam tópicos como o peso da religião e o uso corrente de “cavalo” (um modo menos óbvio de chamar a heroína). Enquanto isso, na tela desaparece o mito que tem grife própria de perfume, trabalhou com gênios como Alan Parker e Woody Allen, deu voz ao Gato de Botas, em animações, e interpretou até mesmo Pablo Picasso (numa série).

Do ilustre cidadão de Málaga, e atual namorado da investidora financeira Nicole Kimpel, em Dor e glória, restam os traços positivos de um homem assumidamente mais permissivo, e mais tolerante (desde que conheceu Almodóvar). Veio, daí, a porteira escancarada para os tipos inesquecíveis que vão do criminoso carente de Ata-me ao terrorista islâmico gay de Labirinto de paixões, sem esquecer do aspirante a toureiro que não pode ver sangue e o reprimido e adoentado cacho de um cineasta, em A lei do desejo. Dor e glória abriga mais um marco.


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