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Livro de Clarice Lispector e vida de Sylvia Plath são adaptados em peças no Recife

Espetáculos do coletivo paulista Vulcão são dirigidos e interpretados por mulheres, sempre interagindo com grandes escritoras do século 20

Publicado em: 02/05/2019 08:15

Elisa Volpatto em Pulso - A partir da obra e vida de Sylvia Plath, Foto: Cezar Ciqueira/Divulgação
O romance Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de Clarice Lispector, teve recepção polêmica em 1969 por inúmeras instâncias, como a quebra de expectativa por parte dos críticos. Mas, principalmente, por abordar o processo de autodescoberta da professora primária Lóri, que “perde a vergonha” do próprio corpo e passa a aceitar seu próprio prazer. Com esse gancho, o livro se tornou uma montagem teatral nas mãos de Vanessa Bruno, atriz que elaborou uma dissertação de mestrado na USP que descreve “procedimentos para trazer a literatura de Lispector aos palcos”. Águas do mundo - A partir da obra de Clarice Lispector terá pré-estreia nacional no Recife nesta quinta-feira (2), no Teatro Marco Camarotti, no Sesc Santo Amaro.

Vanessa é uma das integrantes do coletivo teatral paulista Vulcão, que desembarca na capital pernambucana também nesta semana para apresentar o espetáculo Pulso - A partir da obra e vida de Sylvia Plath, com direção, roteiro e interpretação de Elisa Volpatto. Será no sábado e no domingo, às 19h. Também composto por Livia Vilela, Paulo Salvetti, Rita Grillo, o grupo ainda é responsável pela montagem Medo, centrada na vida de Marguerite Duras. Juntas, essas peças formam a trilogia Solos do vulcão, trabalhos dirigidos e interpretados por mulheres e que interagem com três grandes escritoras do século 20.

“É uma alegria fazer a pré-estreia de Águas do mundo no Recife, já que essa foi a cidade que acolheu toda a infância da Clarice”, diz Vanessa Bruno, em entrevista ao Viver. “E o livro em questão está muito ligado ao conto Banhos de mar, publicado no Jornal do Brasil, em que Lispector relembra os banhos que tomava no mar do Recife. Então, estamos fazendo uma espécie de retorno às origens da escritora. O mar que ele se refere é uma grande alegria, um presente.”

Em linhas gerais, o espetáculo inspirado no livro trata de amor-próprio, autoconhecimento e, partir disso, dos prazeres da vida. “É uma realidade muito íntima e metafísica”, define Vanessa, que elaborou o texto em três vozes, assim como proposto no livro: a voz da narradora, da comentadora e da própria personagem. Esse é um dos fatores que adiciona certo aspecto de “experimentalismo” à encenação, um catalisador da abordagem do Vulcão, coletivo que preza por aproximar diferentes linguagens, unindo teatro e literatura, vídeo e dança.

O PULSO FIRME
Elisa Volpatto em Pulso - A partir da obra e vida de Sylvia Plath. Foto: Victor Iemini/Divulgação
A estadunidense Sylvia Plath viveu entre 1932 e 1963, tendo produzido vários poemas na década de 1950. São escritos que só chegaram ao conhecimento público anos depois da sua morte, rendendo um Prêmio Pulitzer de Poesia póstumo em 1982. A falta de espaço para a divulgação de sua obra se deu pela condição que lhe era exigida na época, enclausurada no ambiente doméstico.

“Eu me interessei em colocar luz nessa história pelo contexto em que a personagem estava inserida, da mulher nos anos 1950”, diz Elisa Volpatto, formada em Artes Cênicas pela UFRGS e idealizadora do espetáculo Pulso. “Silvia se suicidou com a cabeça no forno, acreditamos que justamente por não poder mostrar seu trabalho e viver dignamente enquanto artista. Tudo isso que foi enclausurado colocamos em cena neste espetáculo de 50 minutos.”

O texto dramatúrgico foi construído a partir de ensaios de Plat e trechos de diários escritos durante sua carreira anônima, dando uma perspectiva íntima da vida da personagem. A personagem relembra momentos do passado e a paixão pelo marido (o escritor britânico Ted Hughes), ao mesmo tempo em que se revolta pela falta de reconhecimento de seu trabalho como poetisa. Tudo isso é encenado durante o último dia de sua vida.

Mais
O coletivo Vulcão também realizará, ao final de cada espetáculo, rodas de diálogos com convidados. Nesta quinta-feira, após Águas do mundo, será com a cineasta Taciana Oliveira. No sábado (4), as atrizes se reúnem com a mestre em literatura Camila de Matos e, no domingo (5), com a poetisa Renata Santana. O jornalista Adriano Portela vai intermediar todos os encontros.

Também será promovido o workshop Lispector-Plath em cena, que pretende proporcionar uma experiência com os procedimentos criativos utilizados na criação da trilogia solos do Vulcão (criação e pesquisa cênica). Por meio de estímulos para sensibilização corporal relacionados ao “conhecimento do corpo, abertura de repertório criativo e integração físico-imaginário-racional do ator”, o workshop traz a vivência de procedimentos para o trabalho teatral com a obra das escritoras Clarice Lispector e Sylvia Plath.

A atriz e diretora Vanessa Bruno e a preparadora corporal Livia Vilela compartilharão com os participantes procedimentos práticos desenvolvidos por elas durante suas respectivas pesquisas de mestrado (ECA-USP) e aplicados na construção das obras teatrais apresentadas no Recife nesta semana.

Serviço
Águas do mundo - A partir da obra de Clarice Lispector
Quando: hoje, a partir das 19h
Onde: Teatro Marco Camarotti (Rua Treze de Maio, 455, Santo Amaro)
Quanto: R$ 30 e R$ 15 (meia)

Pulso - A partir da vida e da obra de Sylvia Plath
Quando: sábado e domingo, às 19h
Onde: Teatro Marco Camarotti
Quanto: R$ 30 e R$ 15 (meia)
Informações: 3216-1713
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