Diario de Pernambuco
Diario de Pernambuco
Notícia de Viver
Literatura Mia Couto: 'O Brasil voltou a virar as costas para a África'. Confira a entrevista Autor moçambicano mais traduzido da história vem ao Recife para discutir sobre sua relação com Guimarães Rosa

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 15/04/2019 08:01 Atualizado em: 15/04/2019 13:24

Foto: Mia Couto/Divulgação
Foto: Mia Couto/Divulgação
Mia Couto, o autor moçambicano mais traduzido da história, tem percorrido capitais de todo o Brasil para discutir sobre sua relação com João Guimarães Rosa, representante do modernismo e um dos maiores escritores brasileiros do século 20. Mas por que um intelectual da África para falar sobre um mineiro de apelo regionalista, que tinha o Sertão brasileiro como cenário favorito? Justamente para comprovar sua onipresença e atemporalidade. O Moçambique ainda estava imerso em uma longeva guerra civil pela independência quando Couto conheceu a obra de Rosa. O jovem conseguiu um exemplar - em xerox - de A terceira margem do rio (1962), que demarcou um “antes e depois” na sua perspectiva sobre o fazer literário.

A agenda de palestras de Mia Couto no Brasil é uma ação da Companhia das Letras para divulgar a nova edição de Grande Sertão: Veredas (552 páginas, R$ 84,90), a obra mais canônica de João. O evento de lançamento no Recife será amanhã, às 19h, no auditório G1 e G2 da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com mediação do jornalista Schneider Carpeggiani, editor do selo Suplemento Pernambuco. Os ingressos gratuitos foram disponibilizados na última sexta-feira e, devido à notoriedade do convidado, todos os 470 lugares já foram ocupados. Por isso, uma vídeo transmissão do evento será realizada.

O relançamento de Grande Sertão: Veredas conta com cronologia ilustrada, indicações de leituras e célebres ensaios publicados sobre o romance, escritos por nomes como Clarice Lispector, Roberto Schwarz, Walnice Nogueira Galvão e Silviano Santiago. O clássico acompanha o jagunço Riobaldo, sua relação ambígua com o personagem Diadorim e todo um contexto que nos leva a enxergar o Sertão como um local universal, que nos traz à tona um mergulho profundo na alma humana. "O Sertão é dentro da gente”, já diz a célebre frase da obra.

Capa da nova edição de Grande Sertão: Veredas. Foto: Companhia das Letras/Divulgação
Capa da nova edição de Grande Sertão: Veredas. Foto: Companhia das Letras/Divulgação

"Li Grande Sertão quando já tinha lido os outros livros do Guimarães e realmente custou-me entrar no livro. Aquilo me surgia como outra coisa. E Rosa sabia disso, ele próprio dizia que escreveu esse romance numa espécie de transe. Foi preciso insistir, mas valeu a pena”, revela Couto, em entrevista ao Viver.

Após o lançamento, ele continuará na capital pernambucana para participar do encontro literário Dois Dedos de Prosa, realizado na quarta-feira, às 9h, também na Unicap. A reunião pretende discutir sobre o “ser da linguagem”, em desdobramentos literários e ético-estéticos. Também busca promover um canal entre o autor e a recepção de suas obras, com reflexões para teoria literária e outras ciências da linguagem. Couto é um nome notório para discussões nesse sentido por ter contribuído significativamente para recriar a língua portuguesa, incorporando vocabulários e estruturas de Moçambique.

Sua narrativa se aproxima do realismo mágico, um movimento popular nas literaturas de língua latinas, com uma escrita que remete a Guimarães Rosa, mas também a Jorge Amado. É conhecido por um texto poético e profundo, onde cada frase tem muito a dizer. Nada está lá por acaso. Esse modelo marca sua extensa obra literária que inclui romances, crônicas, poesias e contos, com números publicados em mais de 22 países. Seu lançamento mais recente é O terrorista elegante e outras histórias (Editora Tusquets, 176 páginas), escrito junto com o angolano José Eduardo Agualusa. A publicação traz três peças e uma entrevista de Couto para Agualusa.

Entrevista - Mia Couto, escritor

Como o João Guimarães Rosa lhe influenciou?
Influenciou muito, mais do que qualquer outro autor do mundo. Porque ele me mostrou um caminho, me ajudou a resolver esse divórcio entre as vozes do meu mundo e a escrita. Foi o que ele fez: a sua linguagem poética colocou em diálogo as falas do sertanejo e a escrita urbana e erudita. Moçambique é um país que vive em absoluto na oralidade. Rosa me deu a licença poética que eu necessitava. Todos os contos são pequenas obras-primas. Talvez Sagarana tenha sido o menos surpreendente. Mas eu comecei pelas Primeiras estórias. E esse encontro me marcou definitivamente.

Em Grande Sertão, o personagem Diadorim representa as diversas ambiguidades e paradoxos. Ele é personificação do bem e do mal, do feminino e do masculino, da certeza e da dúvida. Concorda que seja uma característica que dialoga com a nossa “modernidade líquida”, em que a noção de verdade está sendo corrompida pelo mundo digital?
A grande literatura alimenta-se sempre dessas ambiguidades, dos mal entendidos e dos espaços cinzentos que ficam entre as grandes certezas. O livro é realmente muito atual. Mas tenho uma certa resistência na classificação dos tempos, como se fossem sucessões de mundos novos. A construção da mentira pelos poderes políticos não é uma novidade. Ela agora tem meios de difusão nunca antes vistos, justamente pelas redes sociais. De alguma forma, a história que aprendemos nas escolas já foi objeto de uma reconstrução, a partir dos interesses dominantes. Felizmente, hoje estamos mais atentos a essa manipulação.

Tem acompanhado a literatura contemporânea do Brasil? Como a enxerga?
Muito pouco, confesso. Esses livros não chegam a Moçambique, infelizmente. Do que conheço, quero ressaltar Julian Fuks. Há ali uma escrita densa e sólida, com um enorme domínio de um autor que ainda é bem jovem. Posso falar mais do Moçambique, onde há muita gente surgindo e alguns dos novos nomes são muito promissores. Estou muito feliz, pois houve tempo estagnado. A tendência dominante continua a ser a poesia. Mas também aqui há vozes absolutamente originais, mantendo uma inteligente aliança entre a originalidade e a crítica social.

Historicamente, consegue encontrar similaridades entre a literatura brasileira e a moçambicana (além da língua portuguesa)?
Não creio serem comparáveis. Mas existe uma descoberta de caminhos próprios que nos é comum. E aconteceu sobretudo na fase do modernismo brasileiro e que consiste na busca de um “idioma” que traduzisse a individualidade do Brasil face à língua do outro, que era obviamente Portugal. Essa mesma luta a tivemos em Moçambique. E o Brasil foi uma enorme fonte de inspiração.

O Brasil é a maior comunidade lusófona do mundo. Isso tem provocado alguma “hegemonia cultural” do país, sobretudo em relação à África?
Não creio. O que há a dizer - e talvez a lamentar - é um distanciamento do Brasil em relação à África. Nos últimos 15 anos, houve uma clara melhoria nesse alheamento. Hoje os brasileiros conhecem melhor as Áfricas no plural, pelo menos. Já não idealizam tanto o continente africano. Mas creio que, a nível das políticas externas, o Brasil de hoje tenha voltado a estar de costas viradas para África.

“Estar de costas” em que sentido?
O Brasil é uma nação enorme, uma nação continental e justamente por isso virou as costas até mesmo à América Latina. Ficou alheio à própria geografia da qual faz parte. Não posso fazer nenhum juízo, não sou brasileiro. A aproximação com a África terá que ser fruto de uma clara intenção governamental, pois, em relação aos brasileiros médios, eu acredito que essa vontade de proximidade esteja resolvida.

O contexto político do Brasil tem causado certo estranhamento no cenário internacional. Qual o seu olhar externo, como moçambicano?
É difícil analisar um contexto político do Brasil externamente, porque o que nos chega são notícias estranhas e desgarradas. Fico muito preocupado com a maior parte dessas notícias, confesso. Alguns desses pronunciamentos são difíceis de classificar. Chego a imaginar que esses pronunciamentos são feitos para criar uma espécie de distração, como aconteceu na recente política norte-americana, em que Donald Trump fazia declarações bombásticas (não tanto, confesso, como as que escuto vindas agora das autoridades brasileiras). Enquanto nos entretemos com essa nova forma de poder, consequências severas para as políticas sociais e ambientais são colocadas em marcha.


Como funciona a Medicina Preventiva?
Primeira Pessoa com Raiane Margot
Exposição resgata histórias de jornais centenários
Um teste com o novo Renault Logan
Galeria de Fotos
Grupo Diario de Pernambuco