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Literatura

Jornalista publica livro com a história por trás de clássicos da música

Olímpio Cruz Neto conta também casos pessoais sobre algumas de suas canções prediletas

Publicado em: 04/03/2018 09:01

Foto: Olímpio Cruz Neto/Divulgação

Qual é a playlist de sua vida? Quais obras você incluiria na lista de canções que marcaram sua existência e poderiam ser consideradas a trilha sonora da sua história? Essas perguntas são o ponto de partida de Playlist: Crônicas sentimentais de canções inesquecíveis, primeiro livro do jornalista Olímpio Cruz Neto, recém-lançado e disponível na plataforma digital Amazon. Playlist é, claro, o conjunto de algumas das canções preferidas de Olímpio, apresentadas em 27 textos.

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Mas vai muito além do mero exercício egocêntrico de produzir uma lista baseada no gosto do autor. “Apaixonado por música desde criança”, como ele mesmo se descreve, o escritor tem muita informação para dividir, e inclui nos textos, ao lado de suas memórias afetivas, curiosidades e detalhes das composições que tornam seu livro um achado para os apaixonados pelo cancioneiro inglês, americano e brasileiro, a praia por onde Olímpio transita.

Um exemplo para convencer o leitor: ao falar de Música urbana e Música urbana 2, as escolhidas para homenagear Renato Russo, Olímpio vai às origens do rock candango, citando o seminal disco Os primitivos do iê-iê-iê, do grupo Os Primitivos, lançado em 1967; lembra o primeiro show dos Paralamas do Sucesso em Brasília, em 1983, em um festival no Ginásio Nilson Nelson que contou ainda com Dado Villa-Lobos como roadie e a estreia de Cássia Eller, então vocalista da banda Malas & Bagagens; e, de quebra, conta uma visita que fez ao jovem Renato Russo acompanhado de Bi Ribeiro e João Barone.

Emoções
A cada texto, fica claro esse poder da música de invocar memórias e emoções. E a ideia do autor era deixar mesmo que as lembranças surgissem, para dividi-las, especialmente, com os filhos: o recém-nascido Antônio e a jovem Clara. “Eu queria compartilhar as lembranças e os prazeres dessas canções com meus filhos. Um jeito de contar um pouco a própria vida e de mostrar a eles um pouco de quem eu sou e como cresci. É quase uma terapia. Eu acho que todos temos uma espécie de trilha sonora da existência. Escrever é certamente uma maneira de ver e sentir novamente aqueles momentos”, diz Olímpio, que ainda exercita no livro o lado artista plástico, confeccionando ilustrações de todos os compositores homenageados.

As lembranças fazem com que o escritor vá de Charles Chaplin, com sua belíssima Smile, de 1936, à banda independente brasiliense The Johnny Nit Circus e a canção Killing Words, de 2012. O passeio inclui ainda David Bowie (Space Odity), Os Novos Baianos (Mistério do planeta), Gilberto Gil (Tatá engenho novo) e tantos outros.

E o lançamento em formato digital permite que o leitor reviva a força de cada uma das canções homenageadas enquanto lê sobre elas. Basta clicar nos links disponíveis ao longo das crônicas para ser direcionado a um vídeo no YouTube e apreciá-las.

Em meio a tantas obras-primas, há como apontar uma favorita, pelo menos neste momento? “A do Lennon, Watching the wheels, mexe comigo até hoje. Acho que é a minha favorita”, arrisca o autor. O também jornalista Fernando Rosa, porém, ressalta que mais do que eleger melhores ou piores canções, o que realmente importa em Playlist é sua homenagem a obras que têm a capacidade de emocionar gerações após gerações.

"Em tempos de hits fugazes, sem histórias, que não chegam a durar uma semana, um livro de crônicas que tem em 'canções inesquecíveis' sua âncora afetiva é também um libelo em defesa da música", escreve Rosa, editor do site Senhor F, na apresentação do livro. Defesa que Olímpio faz com conhecimento e paixão.
 
Entrevista com Olímpio Cruz Neto
 
Como você chegou a esse conjunto de canções? Por que essas?
Os textos sobre essas canções foram publicados, entre 2008 e 2014, no blog que eu tinha. Eram crônicas em cima de fatos e episódios correntes, como a morte de Michael Jackson, o aniversário de John Lennon ou de George Harrison. Não havia uma seleção prévia. O que une essas canções é a ligação emotiva ou afetiva que tenho com elas. No processo de seleção dos textos, acabei reescrevendo trechos, incluí informações e alterei algumas partes, porque precisei tirar as referências às datas específicas — o anúncio do show do Paul Weller no Brasil, a participação do Suede em um evento em São Paulo... As canções estão entre as minhas favoritas, mas ainda tenho material para um segundo volume. Quem sabe consigo editar mais para frente?  
 
Na crônica sobre Música urbana e Música urbana 2, você conta uma passagem capaz de deixar muitos fãs do rock nacional invejosos: uma visita ao quarto do jovem Renato Russo com dois terços dos Paralamas. Como é que você foi parar lá, e ainda por cima acompanhado de figuras tão fundamentais da música brasileira?
Eu estudava no Colégio Objetivo em 1983. E, lá, tinha muitos amigos da chamada Turma da Colina. Um deles era Pedro Ribeiro, irmão do Bi, dos Paralamas. Éramos muito próximos e, por conta disso, acabei conhecendo muitos dos talentosos caras que estavam à frente das principais bandas de Brasília naquele momento: Legião, Plebe, Capital e Escola de Escândalos. Vi muitos shows. Um deles foi a primeira apresentação dos Paralamas em Brasília, num festival que rolou no Ginásio de Esportes, o Rock Way 2. Nesse dia, como tinha o carro do meu pai disponível, fui com Pedro ao hotel e, de lá, convidado a acompanhar os dois terços dos Paralamas, junto com o Fê, do Capital. Meu pai tinha uma Belina. O Fê tinha uma Caravan laranja. Daí que fui parar na casa do Renato, na 303 Sul. Eu fiquei impressionado com ele. Sabia quem era, mas não o conhecia. De perto, fiquei fascinado porque era um cara articulado e muito inteligente. Fiquei fã imediatamente e nunca mais o trabalho dele saiu do meu radar. Eu tenho em casa pelo menos umas 20 fitas k7, que digitalizei, com muitas canções dessas e outras bandas daqui de Brasília dos anos 80. Inclusive ensaios e as famosas demos que abriram as portas para as gravadoras. Isso deve ganhar a forma de um livro nos próximos meses. 
 
No ano passado, você divulgou um capítulo de seu livro sobre o impeachment de Dilma. Como está esse projeto?
Eu tenho outros quatro livros no prelo, que espero publicar até o fim do ano. Um é sobre o impeachment, que se chama Diário da resistência — Os 128 dias do impeachment de Dilma Rousseff. Eu fui secretário de imprensa dela entre 2014 e 2015 e, em 2016, fui trabalhar diretamente com ela como seu assessor de imprensa, justamente no período de afastamento. O livro trata dos bastidores e acompanha por dentro o processo do impeachment, de 12 de abril, data da aprovação do afastamento pelo Senado, a 6 de setembro, quando ela embarcou para Porto Alegre, depois de ser tirada em definitivo da Presidência da República. É um livro sobre a história política recente do país sob a perspectiva de quem viu de perto esse período. Tenho outros dois que não têm qualquer vínculo direto com política. Um se chama Riffs e refrãos – Cinquenta anos do rock brasiliense. Conta um pouco da história do rock na cidade dos anos 60 até o começo do século 21. É um livro de ensaios. O outro é um livro de crônicas, com textos que têm como pano de fundo essa paixão por música, cinema e televisão, e se chama Da janela, no chão do cerrado. O último é um livro de ilustrações que se chama Ícones, com gravuras que fiz de cantores, artistas, diretores de cinema, atores e atrizes. É meio que uma homenagem a expoentes das artes dos séculos 20 e 21. Espero publicar todos até o fim do ano.

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