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Mulheres se masturbam em clipe da recifense Flaira Ferro em defesa do orgasmo

Música provoca reflexão sobre o prazer feminino

Publicado em: 13/03/2018 19:55 | Atualizado em: 13/03/2018 22:08

Clipe contou com um elenco de oito mulheres, com idades entre 27 e 57 anos. Fotos: YouTube/Reprodução


"Não tem coisa mais bonita / Nem coisa mais poderosa / Do que uma mulher que brilha / Do que uma mulher que goza". É com esses versos que a cantora Flaira Ferro inicia a música Coisa mais bonita, cujo clipe foi lançado nesta terça-feira (13), depois de uma pré-estreia realizada em 8 de março, em ato no Dia das Mulheres, na Praça do Derby, no Recife. Com o vídeo, a artista pretende levantar discussões sobre o autoconhecimento da mulher e o poder da emancipação sexual. "A ideia foi questionar a importância da autoestima da mulher, que está relacionada ao quanto ela conhece o próprio corpo, ao quanto ela aprende a se dar prazer e tem a capacidade de gozar, não só sexualmente, mas o gozo como pulsão criativa para a vida", explica a recifense, que é intérprete e compositora da canção. 

O trabalho, dirigido por Dea Ferraz, dos filmes Câmara de espelhos (2016) e Modo de produção (2017), contou com um elenco de oito mulheres, com idades entre 27 e 57 anos, de perfis variados, com experiências e lugares de existência diversos. A equipe de produção, captação e montagem também foi formada, em sua maioria, por profissionais do gênero feminino. "O clipe mostra imagem do rosto de mulheres reais no ato do toque e do gozo. Todas que participam do clipe não atuaram, nada foi simulado. Não faria sentido, dentro do que estamos propondo, fingir o prazer. Queríamos ter um resultado coerente entre a teoria e a prática", diz Flaira. Além da cantora, participam Perla de Santana, Gabi da Pele Preta, Luiza Cavalcanti, Aline Feitosa, Iris Campos, Lu Mattos e Marlova Dornelles. Antes da gravação, todo o elenco passou por um trabalho de preparação corporal e concentração com a terapeuta e atriz Lívia Falcão e a dançarina e escritora Silvinha Góes. Segundo Flaira, "na hora da filmagem, era cada uma sozinha com a câmera".

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Dados alarmantes de uma pesquisa realizada pelo programa de sexualidade da USP (Prosex) também despertaram em Flaira a necessidade de divulgar Coisa mais bonita. De acordo com o estudo, cerca de 50% das mulheres brasileiras nunca chegaram ao orgasmo. Na Inglaterra, esse número sobe para 80%. "É uma questão emergencial. Esse assunto está muito presente na minha vida e eu senti que essa música tem uma força, tem um papel e que é importante que ela seja lançada antes do disco", disse. O novo trabalho está em processo de criação e não tem data de lançamento, mas ela garante que será entre este ano e o próximo. Assim como no single, o segundo álbum de Flaira terá a produção musical de Pupillo Oliveira, baterista da Nação Zumbi. Coisa mais bonita estará disponível nas plataformas de streaming de áudio na próxima semana e um making of da gravação do clipe também será divulgado.

Entrevista // Flaira Ferro, cantora, compositora e dançarina

O que te motivou a compor Coisa mais bonita? Como foi o processo de concepção da música? 
Eu comecei a escrever essa canção há um ano em um processo de escuta muito atento e lento. Percebi que, dentro da cultura patriarcal em que a gente vive, a mulher aprende a direcionar os próprios desejos para satisfazer o outro. Durante a criação da música, eu conversei com outras mulheres e vi a dificuldade que a mulher tem para falar da sexualidade feminina, o tabu que existe em tratar questões ligadas ao prazer sexual. A partir daí, entendi que olhar para a sexualidade é como olhar para qualquer outro aspecto da nossa saúde física e mental. A minha ideia não é vulgarizar a sexualidade da mulher, é simplesmente um convite para refletir sobre o prazer feminino.

Qual o seu posicionamento diante da política de nudez e censura das redes sociais?
Infelizmente, vivemos em um mundo no qual todo o posicionamento da mulher sobre a sua sexualidade torna-se uma ameaça para a cultura machista, opressora e conservadora. Muitas das censuras e políticas de nudez nas redes sociais é uma grande hipocrisia, porque quando o corpo da mulher está despido para satisfazer o desejo dos homens não é reprimido ou bloqueado. Existe uma série de revistas, filmes e novelas que estão incitando a hipersexualização da mulher, mas como ela está no papel de servir a um interesse que não é o dela, muitas vezes, essa nudez é aceita. É uma questão para ser pensada e repensada.

Como você avalia o espaço da mulher na música? Ainda há muito a se conquistar?
Não só na música, como em muitas outras esferas sociais, ainda há muito a se conquistar. A gente encontra um grande número de homens predominando na arte, na filosofia, na política, na comunicação e na música não é diferente. É um ambiente majoritariamente masculino, tanto no que tange aos palcos como a quem está nos bastidores. Por outro lado, eu acredito que exista uma ascendência na ocupação da mulher na música. Eu percebo que, cada vez mais, existem festivais voltados para o público feminino, para mulheres que são produtoras, compositoras e protagonistas da própria criação. Hoje, eu consigo encontrar muito mais mulheres compositoras que estavam em casa, com medo de aparecer por serem subjugadas e por serem tidas como inferiores. Mas, ainda assim, está distante de ser algo equilibrado entre homens e mulheres. 

Assista ao clipe de Coisa mais bonita:



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