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Um dos mais importantes autores do estado, Raimundo Carrero chega aos 70 com homenagens e projetos

O escritor participa de uma série de atividades e recebe a Medalha do Mérito Guararapes em solenidade no Palácio do Campo das Princesas

Publicado: 20/12/2017 às 11:22

Prêmios nacionais reforçam a importância da literatura de Carrero para o Brasil. Foto: Ricardo Fernandes/DP/

Prêmios nacionais reforçam a importância da literatura de Carrero para o Brasil. Foto: Ricardo Fernandes/DP/

Prêmios nacionais reforçam a importância da literatura de Carrero para o Brasil. Foto: Ricardo Fernandes/DP

Raimundo Carrero chega hoje aos 70 anos de idade a um patamar almejado por qualquer escritor: reconhecido em vida, cercado de amigos e com obras aguardadas por leitores fiéis. Já festejado em Salgueiro, sua cidade natal, ele participa de uma série de atividades nesta quarta-feira, quando recebe a Medalha do Mérito Guararapes em solenidade no Palácio do Campo das Princesas, sede do governo do estado. Durante o evento, também serão anunciados detalhes de sua produção para o próximo ano, com participação da Fundarpe e da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe). "Espero publicar um livro de contos e uma novela intitulada Morrer pelo brasil, ambientada na ditadura militar", comenta o escritor.

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O ambiente sertanejo, de onde Carrero diz ter tirado força, coragem e a visão áspera de mundo, foi o local onde as homenagens começaram, nos dias 8 e 9 deste mês. "Eu não ia em Salgueiro desde 2007. É uma cidade pequena, mas muito acolhedora, onde atuei com muita alegria, porque tocava na banda de música da cidade e em um conjunto de festa. Assisti a uma adaptação do meu romance Sinfonia para vagabundos e fui a um encontro com meus colegas de ginásio para um almoço no Colégio Carlos Pena Filho. Teve carreata, buzinaço, fogos, uma maravilha. O povo de Salgueiro precisa saber que toda a minha obra é dedicada a ele".

Para além da festa, no entanto, Carrero também encara a passagem do tempo - especialmente uma data redonda, como esta - para fazer um balanço de sua vida e obra. Mesmo após ter passado por dois AVCs, um em 2010 e outro neste ano, o escritor não diminuiu sua força criadora. Ao contrário, levou as experiências desse estado convalescente para a sua obra ficcional em Agora o senhor vai mudar de corpo (2015). "Estou sendo levado a fazer, naturalmente, uma reflexão. Sou um escritor que ainda se considera a caminho. Ainda preciso aprofundar muito meu trabalho. Uma obra literária é algo muito sério e importante. É preciso trabalhar com rigor todos os dias. Espero escrever ainda com bastante consistência entre os 1970 e os 1980".

Carrero divide a sua rotina entre as atividades do seu centro cultural, aberto no ano passado, a escrita e a reflexão. Terminou, recentemente, uma apostila para os alunos da sua oficina de criação literária sobre o narrador onisciente. Atualmente, relê dois totens da literatura ocidental: Anna Karenina e Guerra e paz, de Leon Tolstoi. "Para mim, é dos grandes escritores do século 19", sentencia.

A verve agregadora de Carrero, cujo centro cultural mantido no Espinheiro passou a centralizar sua oficina e encontros sobre sua obra, é outra vertente que vai ganhar atenção no próximo ano. “Teremos uma programação extensa com seminário sobre o romance brasileiro e depois daremos prosseguimento a adaptações de peças a partir de minha obra. A perspectiva é que haja a exibição do meu romance Tangolomango, que é um musical do carnaval pernambucano”. Em paralelo a isso, também está previsto o lançamento de um single com a música Tia Guilhermina, composta por Rogério Andrade e cantada por Nena Queiroga para a personagem apresentada pela primeira vez em Maçã agreste, lançado em 1989 e desenvolvida posteriormente. "O álbum já está gravado e prensado com mil cópias. Quero lançar na próxima semana, antes de o ano acabar", completa o escritor.

A procura pela oficina, que completa 30 anos em 1988, ilustra o quanto a obra de Carrero se tornou importante para a literatura brasileira. Desde seu primeiro livro, A história de Bernarda Soledade, a tigre do Sertão (1975), que demonstra seu apreço ao armorial e por Ariano Suassuna (1927-2014), até o seu reconhecimento nacional, o escritor driblou armadilhas associadas ao regionalismo fácil. Optou por tratar de temas voltados ao abismo interior do ser humano, como sexo e loucura, a partir de personagens reconhecíveis, compostos de forma profunda e verossímil e recorrentes na sua literatura. Durante anos, intercalou o ofício da escrita com o emprego como jornalista no Diario de Pernambuco, onde trabalhou entre 1969 e 1991.

O escritor Sidney Rocha, amigo de Carrero e autor do livro O destino das metáforas, vencedor do Prêmio Jabuti, resume o valor artístico dos escritos do aniversariante, a quem conheceu na década de 1990. "Um crítico literário responderia melhor à questão, mas o que se nota é que a obra de Raimundo Carrero é marcada por longa travessia. Ela atravessa aquele sertão ontológico, simbólico, no começo de sua trajetória, sob influência do sol armorial, de Ariano, se filia a preocupações coletivas, políticas, um pouco à influência de Hermilo, avança nos domínios da linguagem ou das estruturas radicais como em Ao redor do escorpião… uma tarântula, talvez mais à Osman Lins, e sem dever a nenhum dos três, se instala nisso que se costuma chamar de contemporaneidade, mas sem deixar de fazer vibrar o mesmo micróbio de sua literatura desde o começo: o animal feito da beleza e da crueldade que vive em todos os seus livros".

Depoimentos 
"Conheci Carrero nos anos 1990. De lá para cá, nossa amizade tem se mantido em torno desse escorpião, a literatura, única coisa com força para fazer um escritor se acordar dos seus sonhos intranquilos, pela manhã: acreditar que possa ainda escrever algo. Termos um escritor com obra de tal coerência é testemunho da viva literatura brasileira, mas uma constatação de quanto devemos lê-lo sempre, em busca de tantos sinais deixados no ventre das baleias, ou sob as pedras, as sombras, o sol".

Sidney Rocha, escritor
"Carrero é muito importante na minha vida. Eu tinha como parceiro Assis Lima, que trabalhava no Diario quando ele era editor do jornal. Eu o conheci a partir daí e ficamos amigos. Temos uma relação fraterna e de convivência literária. O fato de ele existir na minha vida como escritor me estimulou muito. Sempre o consulto, o ouço, me aconselho e, na minha opinião, ele construiu uma obra sólida, significativa e que garante um lugar na literatura brasileira". 

Ronaldo Correia de Brito, escritor
"Meu primeiro contato com Carrero foi há aproximadamente 10 anos, em um evento da Nós Pós, um sarau de leituras abertas. Ele não tinha a preocupação de se colocar em um pedestal. Carrero fez uma leitura do meu primeiro romance e isso foi crucial. Como escritor, há essa preocupação dele em estar lendo os jovens, antenado na produção, ler os clássicos e, ao mesmo tempo, ser generoso. A linguagem é o campo de batalha de Carrero e ele a vem vencendo de lavada".

Wellington de Melo, escritor

Consagradas

As sombrias ruínas da alma (1999)
Prêmio Jabuti de 2000
A série de histórias curtas contempla o trágico em textos perturbadores como O artesão I, sobre um homem que prendeu os próprios filhos pequenos em dois caixões e os jogou no rio. Situações aparentemente cotidianas, como o amor e o casamento, são construídas com tensão e ambiguidade.

Somos pedras que se consomem (1995) 
Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e Machado de Assis, da Biblioteca Nacional (romance)
Décimo livro publicado do escritor, traz a violência e o suicídio como temas e, além disso, traz a sexualidade em vertentes variadas e libertinas, seja pela ótica do sadismo, do lesbianismo ou da masturbação. Siegfired, Leonardo e Biba são alguns dos personagens que circulam no submundo do Recife, entre hospitais e quartos baratos.

Minha alma é irmã de Deus (2009)
Vencedora do Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional (romance) e Prêmio São Paulo de Literatura
O escritor conquistou os prêmios com a história de Camila, uma garota solitária que conhece o músico Leonardo, pastor da seita Os soldados da Pátria por Cristo, e se apaixona por ele. Os dois partem para uma pregação errante, mas Camila é abandonada e vê a vida desmoronar a ponto de conhecer a miséria. É o último livro da tetralogia Quarteto áspero.

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