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Ricardo Lísias questiona relação entre público e arte em romance
Em A Vista Particular, escritor paulista ambienta no Rio narrativa sobre artista plástico e traficante para falar de realidade e sua representação
Publicado: 13/12/2016 às 21:58
A sociedade brasileira é tema de A Vista Particular. Foto: Fernanda Fiamoncini/Divulgação/

O Brasil contemporâneo, com as crises e desajustes que sacudiram o país nos últimos meses, virou fonte do que há de melhor na produção literária recente. A sociedade brasileira é tema de vários livros, entre eles o romance de Ricardo Lísias. A vista particular (Alfaguara), lançado no mês passado, mostra como a ficção brasileira pode reagir rapidamente e com muita qualidade ao cenário social e político do país.
Para José Luiz Passos, escritor e professor de história da literatura brasileira na Universidade da Califórnia, essa reação é um fenômeno recente, especialmente quando se trata de romances que versam sobre política e história contemporânea. “Nos Estados Unidos, isso existe. Na Inglaterra também, o romance histórico é muito importante. Nós não temos. Tenho a impressão de que isso é fruto de uma certa obsessão da literatura brasileira pelo tema da identidade cultural, legado do nosso modernismo. A maior parte das nossas narrativas são sobre indivíduos privados que se contrapõem a uma cultura mais geral, a ideia de uma heroína problemática que navega numa cultura adversa, mas não temos, de fato, uma reflexão sobre o que é a representação política e a crise da democracia”, acredita.
Ricardo Lísias já havia escrito muito sobre São Paulo quando decidiu mudar o foco para o Rio de Janeiro. A vista particular tem a capital fluminense como cenário e, como protagonista, um artista plástico empenhado em construir uma instalação na qual a favela e seus habitantes são o próprio suporte da obra. José de Arariboia tem essa ideia genuína, complexa e genial de se aproximar do chefe do tráfico de uma típica favela carioca para, juntos, criarem uma obra nunca vista, fruto de pura espontaneidade e sensibilidade.
Arariboia, que ao final do livro é apenas Arara, não planejou a fama, não calculou cada passo da dança-performance que, depois de filmada pelo traficante e viralizada no YouTube, o projeta para o topo da pirâmide do mercado de arte. Daí para conceber a instalação, que é a própria favela, vai um gesto simples. Obviamente, Araribóia consegue uma projeção midiática e uma repercussão capaz de catapultá-lo para as exposições mais importantes do planeta.
Não se sabe muito bem quais as intenções de Arariboóia, nem que tipo de caráter carrega o artista, mas isso não importa tanto assim. Há algum tempo, Lísias queria explorar as proximidades e distâncias entre a literatura e as artes plásticas. Como o Rio de Janeiro vivia um momento de grande atenção graças à organização das Olimpíadas, Lísias achou que era a hora de escrever sob a perspectiva dessa cidade.
É mais sobre as artes plásticas e menos sobre a literatura que autor reflete em A vista particular. A dificuldade de a sociedade lidar com os símbolos da arte contemporânea é central no romance. Quando a instalação de Arariboia é transportada para um espaço comumente entendido como “da arte”, as fronteiras entre realidade e representação se tornam incompreensíveis para os habitantes do Rio de Janeiro, para os integrantes da obra e para o próprio meio artístico. “Ao contrário de muita gente, admiro bastante muita coisa da arte contemporânea. Dessa forma, não entendo como a arte contemporânea receba tanta resistência por parte do público”, diz.
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