Fotografia Autor pernambucano lança livro com narrativas sobre mulheres trans e travestis recifenses Obra terá lançamento neste sábado, na Festa Literária das Periferias, na Cidade de Deus, Rio de Janeiro

Por: Breno Pessoa

Publicado em: 12/11/2016 09:00 Atualizado em: 11/11/2016 17:50

Mariana, uma das figuras retratadas em imagem e texto. Foto: Chico Ludermir/Divulgação
Mariana, uma das figuras retratadas em imagem e texto. Foto: Chico Ludermir/Divulgação

O escritor e fotógrafo pernambucano Chico Ludermir não acredita em literatura imparcial e leva para o texto e as imagens as bandeiras que defende. Assumidamente engajado, como se descreve no início de A história incompleta de Brenda e de outras mulheres (Confraria do Vento, 192 páginas, R$ 60), o autor escolheu o livro para compartilhar narrativas protagonizadas por 11 mulheres trans e travestis recifenses. A obra será lançada nacionalmente neste sábado, na Festa Literária das Periferias (Flupp), na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. No Recife, o livro será lançado no dia 1º de dezembro, às 19h, no Museu do Estado de Pernambuco.

Resultado de três anos de trabalho, o volume traz textos feitos a partir de relatos contados pelas próprias mulheres, acompanhados de ensaios produzidos por Ludermir. A travesti Maria Clara Araújo, pesquisadora de questões de gênero e sexualidade na educação, assina o prefácio. A cartunista Laerte colabora com cartum feito para o livro.

Antes da publicação, as fotos e os textos foram adaptados para uma exposição realizada pela Fundação Joaquim Nabuco, em 2015. A obra é o resultado final de pesquisa idealizada pelo Núcleo de Saúde Coletiva da Universidade de Pernambuco (Nisc-UPE) e financiada pelo Ministério da Cultura.
Livro terá lançamento também no Recife, dia 1º de dezembro. Foto: Confraria do Vento/Divulgação
Livro terá lançamento também no Recife, dia 1º de dezembro. Foto: Confraria do Vento/Divulgação

“De forma geral, em tudo que produzo, tenho desejo de transformação social. Não é a primeira vez que me envolvo em grupos considerados marginalizados”, explica Chico Ludermir, ressaltando o caráter político da obra ao retratar mulheres que costumam ser alvo de preconceito e violência. Misto entre jornalismo e literatura, as histórias trazem elementos ficcionais. Variados, os ensaios e textos abordam 11 diferentes perfis, que, em comum, têm a experiência de transformação do corpo e da exclusão social.

“Esse trabalho me proporcionou uma mudança de visão de mundo com pessoas que, de outra maneira, talvez eu, infelizmente, não teria contato”, afirma. O autor espera que os textos e imagem despertem não apenas empatia, mas uma sensação de proximidade com as mulheres retratadas. “Assim como eu me afetei por essas histórias, acredito que as pessoas também vão se relacionar”, diz.

[Entrevista - Chico Ludermir

Por que acrescentar elementos ficcionais aos relatos das mulheres entrevistadas?
Acho que o processo de relatar sua própria história e a construção da memória traz uma certa ficcionalização. Quando você vai relembrando algo e encadeando fatos, há um ato criativo, criador, também quando se escuta e/ou se propõe a recontar uma história. Alguns elementos são impossíveis de serem relatados com precisão e elas também estão, de alguma maneira, recriando. Construí o texto a partir de uma sensação e do desejo de representação possível.

Você considera essencial deixar a neutralidade de lado?
Acho que a neutralidade é imobilizadora. De fato, tudo que a gente faz está engajado com o que acreditamos. Não dá pra se despir disso. Acho que, na literatura e nas artes, a neutralidade vira o que é normativo. Sou contrário e descrente dessa neutralidade. Não corroboro, acho que a gente tem que acabar com isso e assumir nosso lugar político no mundo. Todos os produtos têm um papel político.

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