Viver
Curiosidades
Dez verdades sobre lendas do pop que você jurava conhecer
Duas pesquisas analisam mitos sobre o imaginário de filmes, séries de TV, livros e quadrinhos
Publicado: 10/07/2016 às 19:05
Drácula não é o primeiro vampiro da ficção e faltou pouco para Indiana Jones ter bigode. Jarbas/DP/

Uma boa história sempre desperta interesse, seja ela verdadeira ou não. E, no caso da ficção, a curiosidade do público vai além do que está nas narrativas e enredos: causos de bastidores, interpretações mirabolantes e lendas urbanas ajudam a construir mitos sobre filmes, séries de TV, desenhos animados e outros produtos da cultura pop. Duas recentes publicações se propõem a descontruir algumas dessas lendas e também debater questões importantes do mundo nerd: Luke Skywalker não sabe ler e outras verdades geeks (Pandorga, 240 páginas, R$ 34,90), de Ryan Britt, e 52 Mitos da cultura pop (Paralela, 144 páginas, R$ 34,90), de Pablo Miyazawa. Separamos aqui estórias das mais curiosas abordadas nos dois livros.
Drácula não foi o primeiro vampiro
Drácula (1897), de Bram Stoker, é o marco inicial dos vampiros na literatura, certo? Errado. Décadas antes, em 1819, o médico e escritor John William Polidori publicou o conto The vampyre, que tem conceitos básicos desses seres: a imortalidade e a necessidade de beber sangue. Na publicação original, o texto foi falsamente atribuído ao romântico inglês Lord Byron, que, na verdade, era amigo e paciente de Polidori. Conta-se que a obra foi escrita no verão de 1816, quando os dois estavam hospedados com o poeta Percy Shelley e a esposa, Mary Shelley, a autora de Frankenstein. Reunidos, os autores se propuseram a escrever contos fantásticos para se distrair enquanto ficavam em casa durante o período de chuvas.
Lewis Carroll passou longe das drogas
Animais falantes, cartas de baralho antropomórficas, cenários surreais e outros ingredientes fazem de Alice no país das maravilhas (1865) uma obra psicodélica. E muitos acreditam que o autor, Carroll, escreveu a história sob entorpecentes. O jornalista Pablo Miyazawa aponta que não existem registros sinalizando experiências de Carroll com drogas. “É até possível alegar que, se ele usasse drogas, os livros de Alice não seriam tão bem escritos, organizados e recheados de referências à ‘vida real’”, avalia, acrescentando que o autor era “um careta incorrigível, religioso, casto e seguidor de regras”, que, no máximo, deve ter experimentado algum opiáceo para tratar da enxaqueca.
Indiana Jones quase foi bigodudo
Dá para imaginar outra pessoa que não Harrison Ford encarnando Indiana Jones? Pois a escolha inicial para o papel era Tom Selleck, que ficaria famoso na TV pela série oitentista Magnum. P.I. Selleck quis aceitar o papel para o filme, mas já havia se comprometido a protagonizar o seriado, que seria filmado no Havaí e não havia como conciliar os dois trabalhos. O detalhe é que as gravações do programa de TV foram adiadas por muitos meses, por conta de uma greve de roteiristas, tempo que permitiria a participação de Selleck em Os caçadores da arca perdida (1981), o primeiro filme da série. Mas o papel já estava nas mãos de Ford, para a tristeza do investigador tropical.
Senhor dos anéis foi uma aposta comercial
Quase todo mundo sabe que, ao contrário do que aconteceu nos cinemas, o livro O hobbit (1937) surgiu bem antes de O senhor dos anéis (1954). O que muita gente desconhece é que a sequência do primeiro livro de J. R. R. Tolkien só saiu porque o editor Stanley Unwin insistiu, apostando no sucesso de uma continuação. Em correspondência de 1937, Tolkien chegou a dizer que não conseguia pensar em nada mais a ser dito a respeito dos hobbits. Claramente, o autor mudou de ideia e expandiu o universo apresentado no primeiro romance da saga: a obra saiu com mais de 1,2 mil páginas, divididas em três volumes. “Se Tolkien não tivesse mudado de ideia para transformar seu O hobbit em O senhor dos anéis, a fantasia como nós a conhecemos não existiria”, diz Britt.

Sherlock Holmes é um ancestral de Spock
Não são apenas a aparente insensibilidade e a capacidade dedutiva que aproximam o oficial de ciências Spock, de Star trek, e Sherlock Holmes (criado por Arthur Conan Doyle, em 1887). Um dos mais famosos filmes da franquia, a Ira de Khan (1982), foi escrito e dirigido por Nicholas Meyer, que é autor de três livros protagonizados pelo detetive. Meyer também faz uma citação a Holmes em uma fala de Spock em Star trek VI: A terra desconhecida (1991): “Um ancestral meu sustentava que, quando se elimina o impossível, o que resta, embora improvável, deve ser a verdade”.
O episódio final de Caverna do Dragão
Muito antes de Lost, Caverna do Dragão despertou no público especulações sobre qual era o real destino dos personagens do desenho. Por conta do encerramento sem um episódio final, surgiram diversas lendas sobre o programa - boatos davam conta da existência de um capítulo conclusivo jamais exibido. Uma das teorias mais propagadas era de que o mundo fantástico para onde Hank e os amigos foram transportados era, na verdade, o inferno, e o demônio assumia a forma do vilão Vingador e do Mestre dos Magos. Nem o unicórnio Uni passava incólume: ele seria um ajudante do diabo e existia para impedir as crianças de voltarem para casa. “Não há verdade nisso”, garantiu o produtor e criador de Caverna, Gary Gygax, em entrevista a Pablo Miyazawa. Um episódio final chegou a ser escrito para a terceira temporada, mas a série foi cancelada abruptamente. Na história derradeira, o Vingador é derrotado e assume a forma verdadeira, um cavaleiro, e revela ser filho do Mestre dos Magos. Os garotos ganham a opção de retornar aos lares, mas a decisão deles não é revelada.
Mafalda surgiu na publicidade
Crítica, entre outras coisas, da sociedade de consumo, a personagem Mafalda surgiu dentro de uma série de tirinhas feitas em 1963 para promover a Mansfield, marca de máquinas de lavar. A ideia da agência era oferecer os quadrinhos gratuitamente ao jornal argentino Clarín, que desconhecia a propaganda embutida no enredo. Ao descobrir as intenções publicitárias do material, o periódico desistiu antes da publicação. A personagem ficou guardada até o ano seguinte, quando o autor, Joaquín Salvador Lavado, o Quino, recebeu convite para publicar na revista Primeira Plana. O quadrinista resgatou a ideia original e reformulou o conceito das histórias, que foram veiculadas em diferentes publicações até 1973.

The dark side com O mágico de Oz?
O mito a respeito da relação entre The dark side of the moon, do Pink Floyd, e o filme O mágico de Oz é tão forte que o filme já ganhou sessões especiais com disco sendo tocado. O guitarrista David Gilmour chegou a declarar que quem notou sincronia entre o álbum e o filme era “alguém com muito tempo livre”. Miyazawa explica que “as coincidências representariam o que a psicologia chama de ‘apofenia’, a tendência de o ser humano perceber conexões e padrões que não necessariamente existem”. Além do mais, havia limitações técnicas para assistir ao filme durante a gravação das músicas: o videocassete não era um equipamento de fácil acesso no início da década de 1970.
E.T. foi sepultado nos games
No início dos anos 1980, a indústria de videogames crescia em popularidade por conta do Atari e dos jogos lançados (vários de qualidade duvidosa). A adaptação do filme E.T. (1982) para os games foi uma das vítimas desse momento complicado e acabou encalhando nas lojas. Em 1983, alguns jornais chegaram a noticiar que a Atari havia despejado toneladas de fitas de E.T. em um aterro sanitário no Novo México. A lenda urbana foi comprovada décadas depois. Em 2014, exploradores foram ao suposto cemitério de cartuchos e encontraram cerca de 700 mil peças, incluindo vários jogos, consoles e materiais relacionados. As buscas foram registradas e viraram o documentário independente Atari: game over.
Luke é analfabeto funcional
Britt conclui que Luke Skywalker e os conterrâneos são praticamente analfabetos funcionais. “Em nenhum momento qualquer pessoa, droid ou criatura pega um livro, jornal, revista, diário ou livreto de poesia Wookie”, diz o autor. “Ao invés disso, se algo é lido brevemente por alguém em Star wars, é uma frase lida em uma tela - e, mesmo assim, quase que certamente sendo ‘traduzida’ por R2-D2”, completa. Outra famosa saga espacial, Star trek, vai pelo caminho contrário, trazendo referências literárias em alguns episódios e citações a Shakespeare e Milton, por exemplo.
Últimas
Mais Lidas