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Em entrevista, Adriana Falcão fala sobre os ingredientes da escrita

Adriana trabalha na adaptação para o cinema de um de seus livros mais conhecidos, 'Luna Clara & Apolo Onze'

Publicado: 17/07/2016 às 15:42

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Adriana Falcão está à cabeceira da madrinha de 104 anos quando atende o telefone. A velhinha está morrendo e a escritora e roteirista tem a voz embargada, mas é capaz de lembrar que, mesmo na dor, o humor é importante. “Se não tem humor, não consigo”, diz. Logo depois, ela conta que, entre um choro e outro, deu risadas com uma prima ao lembrar histórias da madrinha enquanto aguardavam notícias do médico. Não só o humor é essencial para Adriana, mas a leveza também. É essa característica que ela explora em A gaiola, livro que virou musical em cartaz hoje no CCBB, sob direção de Duda Maia e com música de Eduardo Rios. No livro de 2013, a escritora fala sobre um momento dolorido, quando se separou do também roteirista João Falcão. O humor e a simplicidade ajudaram a superar o momento, assim como a neta, então recém-nascida. Agora, Adriana trabalha na adaptação para o cinema de um de seus livros mais conhecidos, Luna Clara & Apolo Onze. A filha, a cantora Clarice Falcão, ex-Porta dos Fundos, ajuda no roteiro e a direção será de Flávia Lacerda. Na tevê, Adriana faz parte da equipe de roteiristas da série Mister Brau, da Globo. Abaixo, ela fala sobre A gaiola e os ingredientes da escrita.


Como foi ver Eduardo Rios transformar seu livro em música?
Quando soube que ele ia fazer a adaptação  comigo, fiquei muito tranquila porque conheço esse menino desde pequeno e ele é um geniozinho desde pequeno. Escreve bem, tem uma sensibilidade enorme. E quando a gente começou a trabalhar, ele escrevia coisas que eu dizia “Deus! não podia ter sido mais acertado.” Foi muito gostoso, fico muito feliz de meu livro ter sido tratado com tanto carinho.

Muitos dos seus livros são transformados em musicais. Tem uma conversa da sua escrita com a música?
Tem sim, né? Teve A máquina, Mania de explicação. Eu enxergo isso. Quando as pessoas perguntam das minhas influências, da minha vida, óbvio que tem muita coisa literária, tem o Paulo Mendes Campos, que sempre cito, e tem o realismo mágico do García Marquez. Mas acho que uma coisa muito importante na minha formação foi a MPB, porque nos anos 1970, quando eu era criança, ficando jovem, peguei o auge de Chico, Caetano, Gil, Milton Nascimento. E acho que aprendi muito com a MPB, acho que está bem clara no meu trabalho a paixão pela música.

O livro é uma história de separação — e não é a primeira vez que você fala sobre isso...
Ele é exatamente a minha separação. Fui casada muitos anos com o João Falcão, foi um casamento muito lindo, temos duas filhas, uma parceria muito grande, e a gente se separou no fim de 2009. Dias depois que minha primeira neta nasceu e que não é neta dele, é do meu primeiro casamento. Foi uma separação muito difícil, é muito amor que tenho por ele, mas eu via muito dessa maneira, como eu descrevo no livro. Essa coisa de desapegar: você ama uma pessoa, como a menina ama o passarinho, e diz “vai, passarinho, ser feliz, vai viver”. É muito difícil fazer isso, mas, às vezes, tem que fazer. E foi assim que eu escrevi.

E por que pra criança? Um tema tão difícil...
Primeiro, acho que eu queria muita leveza e ver o lado bonito da separação. Acho que tinha isso. E tinha a coisa de a minha neta ter acabado de nascer. O livro, inclusive, é dedicado a ela. No primeiro ano da separação, eu tinha aquele bebê, era avó pela primeira vez, e vivi muito perto dela. Ela me ajudou tanto naquele momento. Eu e João tínhamos uma relação de 30 anos.

E qual o papel do humor nisso tudo?
Para mim, só consigo com humor. Se não tem humor, não consigo. Agora mesmo estava com minha prima ao lado da minha madrinha, a gente estava chorando, porque está muito perto de ela ir, e estava comentando que um dia minha madrinha me disse “sabia que quando a gente vai morrer Nossa Senhora espera a gente do outro lado para acompanhar?”. Contei para minha prima e ela disse: “Pois Nossa Senhora deve estar esperando sentada, porque ela não quer ir de jeito nenhum”. E a gente começou a rir e chorar.

E a simplicidade, é importante tanto na vida quanto na escrita?
Acho que sim. Gosto muito de tentar descomplicar as coisas. E até para minha neta entender. Para as crianças entenderem, para todo mundo entender. Eu sou de uma geração para a qual o casamento é uma vida, é uma coisa muito grande. Então, quanto mais leveza a gente tiver nessa hora para lidar com nossos filhos e netos, para não pesar, melhor.

Quantas palavras são necessárias para uma história? Tuas histórias nascem naturalmente das palavras e com elas se encadeiam…
Tenho uma paixão por palavras. E aí volto para a MPB. Chico Buarque, sei a obra dele trás pra frente, porque ele tem essa precisão da palavra, a palavra bonita, que diz com mais sensibilidade. E sinto isso. Às vezes, encontro uma palavra e digo “ah achei”! Dá uma alegria tão grande achar a palavra para dizer o que eu queria. Porque, às vezes, estou não só procurando o significado mas também uma métrica, um som, que é onde acho que tem a ver com a música. E quando encontro a palavra certa, fico muito feliz.

Doçura e carinho são comuns na sua escrita. Onde os encontra? Estão em falta no mundo?
Estão demais em falta. E exatamente na situação em que estou percebo isso. Uma hora minha madrinha abriu o olho e pediu “pega na minha mão”. E ela ali, com dificuldade de respirar enorme, sabendo que está indo embora…. E eu pude fazer esse carinho de pegar na mão dela. Um gesto tão simples e tão importante naquele momento.

Seus livros, apesar de serem para crianças, encantam também adultos. Por que, na sua opinião?
Acho que é porque sou muito aberta, muito sincera. Se é pra falar o que senti na minha separação, no meu casamento, eu vou e falo da maneira mais direta, mais simples, como todo mundo entende, sem esconder o sentimento, sem tentar enfeitar. Acho que tem um pouco isso, da sinceridade. Nesse livro, A gaiola, botei completamente meu coração na roda. E acho que isso chega perto porque as pessoas têm experiências parecidas.

E você já tinha feito isso em Queria ver você feliz….
Sim, é a história dos meus pais. Também botei completamente meu coração na roda, porque foi uma história tão intensa e que mexeu tanto comigo e minhas irmãs! E eu achava tão rico, achava que outras pessoas podiam se beneficiar daqueles sentimentos. E em A gaiola, é a mesma coisa. Agora chega de falar de mim. Já falei tudo, não tenho mais o que falar.
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