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Serviços de streaming abrem espaço para documentários, gênero pouco valorizado no circuito tradicional

Publicado: 27/03/2016 às 13:34

My Beautiful Broken Brain. Imagem: Netflix/divulgação/

My Beautiful Broken Brain. Imagem: Netflix/divulgação/



Documentários de qualidade e apelo junto ao público têm se tornado uma constante na indústria cinematográfica. A sensação de aumento no número de produções do gênero se deve a fatores diversos, como a multiplicação das universidades de cinema, a queda nos preços de equipamentos profissionais e a consolidação de novas plataformas para exibição dos filmes. Entrave histórico para entusiastas das narrativas de não-ficção, o pouco espaço disponibilizado no circuito comercial dos multiplexes tem sido compensado, há algum tempo, por canais de tevê pagos e, mais recentemente, por plataformas online de streaming.

Líder de mercado, a Netflix tem cerca de 6,8 mil produções documentais no catálogo brasileiro, entre curtas, longas-metragens e séries. Muitas delas, inclusive, ganham o selo de “produção original” e, assim, têm alcance em todos os países onde a empresa atua (entre eles, os indicados ao Oscar What happened, Miss Simone?, Winter on fire, Amy, Cartel land, de 2015, Virunga, de 2014, e The square, de 2013). A oferta é consideravelmente menor no Looke, alternativa brasileira com cerca de 200 produções do gênero. Outros serviços semelhantes devem ser disponibilizados no Brasil como YouTube Red, HBO Now e Amazon Instant Video. Enquanto isso, há a opção de “comprar” os títulos individualmente na iTunes Store, da Apple, e na Play Store, do Google. Ambas as lojas oferecem centenas de documentários.

A variedade de temas dos documentários acompanha a proliferação de espaços para exibição abertos pelos canais de streaming. Há produções biográficas (Nelson Mandela, Frank Sinatra, Kurt & Courtney Cobain), com temáticas históricas, militares, esportivas, socioculturais, gastronômicas. Experiências bem-sucedidas de apresentação, como a série documental Making a murderer, da Netflix, cujos dez capítulos expuseram a trajetória de um homem preso injustamente por 18 anos, libertado por força de um exame de DNA e, em seguida, alvo de criticada acusação de matar uma mulher. A força do documentário transcendeu a tela e obrigou até mesmo o presidente dos EUA a se manifestar sobre o caso. No serviço, há pelo menos 25 séries ou filmes documentais brasileiros, entre eles Ônibus 174, Dominguinhos e Doméstica, do cineasta pernambucano Gabriel Mascaro.

Para o diretor Walter Carvalho (Raul: O início, o fim e o meio), o espaço aberto pelas plataformas de streaming é louvável, assim como as exibições na TV paga, em espaços como Canal Brasil, Arte 1, Curta, Futura, GloboNews e GNT. Na opinião dele, há preconceito por parte do mercado exibidor com os documentários, cujos espaços são rapidamente ocupados por grandes produções estrangeiras. “No circuito comercial, a bilheteria da maioria dos filmes é pífia. Alguns não têm nem 2 mil espectadores”.

Já o cineasta Joel Pizzini, atualmente engajado na gravação de documentário sobre o pernambucano Joaquim Cardozo, atribui a falta de público a outras razões. Para ele, os espectadores, em média, não enxergam o documentário como filme, mas algo próximo da reportagem, por ser descritivo. Assim, preferem assistir à televisão. “O cinema é um espaço de contemplação, do sonho, da imaginação. Está ligado à ideia de ilusionismo, da experiência estética. Então o espectador tem certa razão, porque boa parte dos filmes não exploram as potencialidades da linguagem, não levam em conta a espacialidade, a possibilidade de explorar a relação espaço e tempo do cinema”, defende Pizzini. O documentário ideal, na avaliação dele, deve oferecer uma construção narrativa apoiada não só no conteúdo, mas ir além.

NOVIDADES
Título entre os mais recentes incorporados à Netflix, My beautiful broken brain acompanha o primeiro ano de recuperação de Lotje Sodderland, vítima de um grave derrame cerebral aos 34 anos. O incidente afetou a memória, a fala e a capacidade de leitura da protagonista. Codiretora do filme, Lojde transmite a superação das dificuldades a partir do próprio ponto de vista, inclusive com representações de momentos de alucinação. O longa aproveita mecanismos utilizados por ela durante o processo de reabilitação, como o cotidiano registrado com a câmera do celular, e depoimentos de familiares. 

Fã do cineasta David Lynch, ela contou com o realizador na produção do longa. “Mesmo a forma mais simples de consciência merece ser vista, ouvida, contemplada e percebida”, narra o diretor norte-americano, na abertura. Outro documentário nessa mesma linha, Alive inside, dirigido por Dan Cohen, mostra como é possível usar a música para reavivar a memória de pacientes com síndrome de Alzheimer.
 
Além da Netflix
 
A internet é um espaço interessante para garimpar produções documentais. Projeto de destaque entre as opções da web é o Porta Curtas (portacurtas.org.br) com mais de 2,4 mil curtas-metragens gratuitamente à disposição dos internautas. Confira uma seleção de quatro filmes para assistir.

Ilha das flores (1989), de Jorge Furtado
Um ácido e divertido retrato da mecânica da sociedade de consumo. Acompanhando a trajetória de um simples tomate, desde a plantação até ser jogado fora, o curta escancara o processo de geração de riqueza e as desigualdades que surgem no meio do caminho

Coruja (2001), de Márcia Derraik, Simplício Neto
O filme mostra a relação de Bezerra da Silva com seus compositores, anônimos garimpados por ele "onde a coruja dorme", nos morros cariocas e na baixada fluminense. Daí surgem sambas feitos por trabalhadores, crônicas cáusticas mas bem-humoradas de gente simples que mora na favela e conta seu dia a dia nas músicas.

O mundo é uma cabeça (2004), de Bidu Queiroz e Cláudio Barroso
O curta mostra o Manguebeat, movimento que eclodiu no início dos anos 1990 em Pernambuco. A narrativa é conduzida pela trajetória do seu principal protagonista: Chico Science.

Vidas no lixo (2008), de Alexandre Stockler
O filme mostra crianças e adolescentes que vivem do lixo. Enquanto reviram sacos de lixo pelas ruas e recolhem materiais úteis para vender a empresas de reciclagem, crianças - que se alimentam deste mesmo lixo - falam sobre suas vidas, suas famílias, seus sonhos e desejos de estudar, mas logo sua avassaladora realidade se impõe com a gravidez inesperada de uma menina de 14 anos.
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