Música Naná Vasconcelos deixou disco, shows gravados e documentário em produção No leito de morte, percussionista pernambucano recebeu os amigos e parceiros musicais Egberto Gismonti e Gil Jardim a fim de concluir músicas

Por: Luiza Maia - Diario de Pernambuco

Publicado em: 22/03/2016 20:03 Atualizado em: 23/03/2016 09:46

Naná nos bastidores da gravação com o grupo paulista Barbatuques: imagens da gravação e entrevistas em vídeo estão disponíveis no YouTube. Foto: Estúdio 185/Divulgação
Naná nos bastidores da gravação com o grupo paulista Barbatuques: imagens da gravação e entrevistas em vídeo estão disponíveis no YouTube. Foto: Estúdio 185/Divulgação

A despedida de Naná Vasconcelos foi embalada pela música. Um processo emocionante e intenso de criação, baseado em gestos e na cumplicidade artística estabelecida ao longo de anos com o maestro Gil Jardim e o compositor Egberto Gismonti, com o qual dividiria uma turnê pela Ásia a partir de abril, e testemunhado pelos amigos e familiares mais próximos, no quarto do hospital onde viveu os últimos dias até falecer, no dia 9 de março, aos 71 anos.

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Aos amigos e parceiros musicais, coube a responsabilidade de concluir as duas últimas composições do mais renomado percussionista pernambucano. O projeto deve ser gravado com orquestra, em consonância com o desejo de Naná, e deve ser composto por Amém, amem (com Gil Jardim), O budista afrobudista (com Egberto), uma trilha inédita composta em parceria com Jardim para o filme Tentação de São Sebastião (com cerca de 8 minutos e escrita para um pequeno grupo, com kalimba, piano, marimba, contrabaixo, quatro cellos, duas flautas e percussão) e a música Respire fundo e diga 33 (composta para um espetáculo do grupo Dança Vida, de Ribeirão Preto (SP), e já gravada).

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"Ele já não podia falar, mas gesticulava. Tinha horas em que ele não se aguentava, puxava a máscara [de respiração] e falava. No momento de dor, ele mostrava uma grandeza, uma leveza que os médicos se espantavam. Ele estava com esperança, estava compondo. A cabeça dele não parava", conta Patrícia, viúva e empresária, sobre os últimos dias de vida. Dois dias antes de falecer, ele foi transferido da UTI para o quarto, para que pudesse ficar próximo a familiares e amigos.

Maestro pernambucano é carinhosamente cumprimentado por Carlinhos Brown no show derradeiro, em Salvador. Foto: Shirley Stolze/Divulgação
Maestro pernambucano é carinhosamente cumprimentado por Carlinhos Brown no show derradeiro, em Salvador. Foto: Shirley Stolze/Divulgação
Além de música,a despedida foi conduzida por diálogos engraçados e piadas, traço marcante da personalidade do artista. Inquieto, ele exigiu pressa do maestro Gil Jardim para a composição de Amém, amem, título inspirado em um dos dizeres auspiciosos dele. As ideias da música de caráter sacro, com orquestra de cordas e tambores, estavam registradas em um gravador e foram mostradas a Gil Jardim no hospital.

"No domingo, ele ainda estava superesperto, com uma vontade de trabalhar. Ele queria que eu anotasse as ideias. Na segunda, passamos quase três horas trabalhando. Fui escrevendo e anotando, fazendo a partitura. Depois, eu mostrava o que tinha escrito e ele corrigia", lembra, bastante emocionado, na primeira entrevista concedida desde a partida do amigo. "Meu compadre querido me passou uma lição de casa. 'Passa três vezes o tema inteiro. Depois, você cria um interlúdio. Na segunda, faça variações harmônicas. Na terceira, rítmicas'. Ele é assim, vai sugerindo coisas", explica. Gil Jardim planejava dois projetos com Naná para 2016: uma trilha sonora para um espetáculo de dança em homenagem a Pierre Verger e uma retomada do show da Orquestra de Câmara da USP, regida por ele, e o cantor e compositor recifense Lenine, com participação do amigo, em outubro.

A tarefa de Egberto é mais árdua, pois ainda não foram localizadas as gravações que Naná teria feito de O budista afrobudista, inspirada no título de uma matéria escrita por um jornal argentino. "Quando eu cheguei, ele já não podia se expressar com facilidade, a voz falhava totalmente. Certamente, em algum momento, Naná registrou essas ideias. Eu daria tudo para ter acesso ao que ele deixou. Ele tinha me falado da ideia, por telefone. 'Você tem que escrever isso aí'. Infelizmente, o destino fez com que as coisas se confundissem um pouco", confessa o carioca.

Ele chegou ao hospital no dia 8 de março e partiu no dia seguinte, bem cedo. Soube do falecimento quando desembarcou. Apesar da saudade, lembra com carinho das muitas brincadeiras protagonizadas ao lado do pernambucano, a última já no leito de morte. "A gente estava conversando e chegaram as enfermeiras para trocar o Naná. Aí disse 'tô saindo' e vi uma reação dele. Ele não falava com clareza, mas se expressava, e ficou claro que ele não queria que eu saísse. Minha reação natural foi 'Eu não vou ficar de jeito nenhum. Você já é muito feio vestido, imagina pelado'", conta. Quando voltou, ele já estava sob efeito dos remédios para dormir.

Força, simplicidade e leveza guiaram a vida do percussionista pernambucano, inclusive no último ano, após a doença. Substituía a agressividade do câncer e a invasão do tratamento por brincadeiras. Uma vez, quando foi tomar vacina em um posto de saúde, começou a gritar, como se sentisse dor, atraiu todas as atenções e caiu na gargalhada. Noutra, era conduzido pelos corredores hospitalares na cadeira de rodas e imitava o barulho de buzinas para pedir licença.

Desde a descoberta do câncer no pulmão, em agosto do ano passado, não deixou de compor. Na primeira internação, pediu um caderno e chegou a anunciar uma biografia, mas o projeto não chegou a ser consumado. "Não acho que tem tanta coisa escrita. Naná era mais de fazer do que escrever. Pode ser que eu me surpreenda, porque, como ele era muito monossilábico, gostava de fazer silêncio sobre as coisas dele. Até brinquei, pois, depois da doença, ele começou a contar muitas histórias engraçadas", recorda Patrícia. Ela vai se mudar para os Estados Unidos, onde o percussionista morou 27 anos, para acompanhar a filha Luz Morena, de 16 anos, durante a faculdade de moda. Atualmente em Nova York, para concluir trâmites burocráticos, ela promete esforço para o lançamento do disco inédito e já recebeu até propostas para um museu, nos Estados Unidos.

DEPOIMENTOS

 (Foto: Marcos Santos/Divulgação)
"Naná tinha um estilo muito forte, uma maneira de pensar melodia que é inconfundível. Eu fiquei com uma tarefa do Naná, com certeza. Fico fascinado por realizar mais um trabalho com ele. Vai ser muito difícil colocar percussão nessas obras sem que seja com o compadre tocando, esse parceirão maravilhoso, mas tenho certeza que faremos em homenagem a ele. Rapidamente, a gente se decodifica. A gente sempre teve uma liga, de poucas palavras na hora que toca. Era um entendimento, uma percepção muito aguçada, muito afinada. Sempre jogamos fácil"
Gil Jardim, maestro e compositor

 (Foto: Cristina Granato/Divulgação)
"A minha relação com o Naná começa há muitos anos, através de um disco chamado Dança das cabeças (1977), muito premiado. Nós fizemos 365 shows nos quatro cantos do mundo. Tínhamos decidido fazer uma turnê na Ásia. Resolvi fazer a turnê “Egberto Gismonti solo: Uma homenagem a Naná Vasconcelos, onde vou contar as histórias da gente, tocar músicas da gente. A dor não diminui, mas fica um pouco mais suave. A minha relação sempre foi de muita brincadeira. Falar do Naná ou do que o Naná deixa como legado é mole, é fácil, é singularidade. Eu tive um privilégio"
Egberto Gismonti, multi-instrumentista e compositor
OS PROJETOS INÉDITOS
Prazer artístico em parceria

Paulo Lepetit e Zeca Baleiro são parceiros em Café no bule, último projeto de Naná. Foto: Matthieu Rougé/Divulgação
Paulo Lepetit e Zeca Baleiro são parceiros em Café no bule, último projeto de Naná. Foto: Matthieu Rougé/Divulgação

Tirando satisfação foi o primeiro título pensado para o projeto musical de Naná Vasconcelos, Zeca Baleiro e Paulo Lepetit. Quando lançado, no ano passado, o álbum foi batizado de Café no bule (Sesc, R$ 20), mas o prazer do processo de composição foi reforçado em entrevistas reiteradamente pelo trio. A estreia nos palcos do projeto, com sonoridade permeada por referências de vários ritmos, como jazz, afoxé, samba e maracatu, marcada para o dia 29 de agosto, em São Paulo, enfrentou o desfalque do percussionista. Na semana anterior, ele fora internado e descobrira o câncer.

"Ele é rápido, então você tinha que deixar tudo pronto. 'Agora vou fazer, mudar para lá'. Em poucos minutos, já estava tudo armado", narra Lepetit. Todas as 13 faixas – várias delas com letras assinadas por Naná, algo não tão comum na discografia dele – foram compostas durante encontros no estúdio mantido por Lepetit e Zeca, em São Paulo, e através de ligações, mensagens e e-mails, ao longo de um ano.



Café no Bule - Batuque na panela from estúdio zut on Vimeo

Todas as reuniões musicais foram gravadas. O material audiovisual seria completado pela gravação das apresentações ao vivo, abruptamente canceladas pela doença e pelo posterior falecimento do pernambucano. "Foi a coisa mais prazerosa que a gente já fez. A gente está muito frustrado de não ter conseguido levar para o palco, mas perdeu o sentido. A coisa era o encontro dos três. Nem chegamos a conversar sobre isso, mas, naturalmente, acho que cada um vai partir para outra coisa", lamente Lepetit.

Não há músicas inéditas. A proposta era criar dez faixas, mas eles acabaram por inserir três vinhetas, ideia de Naná explicada como "um gole d’água ou vinho entre uma garfada e outra" – aliás, o processo de criação delas deve ser redescoberto nos vídeos. O material bruto, com mais de 15 horas, de acordo com o diretor Matthieu Rougé, será visto pelo grupo nos próximos dias, mas uma provinha, composta por cinco vídeos sobre músicas, já está no ar.

Tributo deixado em vídeo


O show deveria ter a participação de Naná, mas virou bela homenagem musical ao mestre. O grupo paulista Barbatuques dividiria pela primeira vez os palcos com o pernambucano nos dias 12 e 13 de março, em São Paulo, três dias após a morte dele, para a apresentar o disco Ayú, com participação dele em duas faixas: Tá na roda, de Naná e Vinicius Cantuária, e Quererê, do Barbatuques, com uma pegada de maracatu ao final da execução. Hermeto Pascoal também foi convidado.

As gravações, na capital paulista, renderam dois vídeos, ambos disponíveis no YouTube: um sobre o processo de criação, do convite às gravações, e outro fruto de uma entrevista sobre a carreira de Naná, o Barbatuques, música e influências africanas, europeias e da produção cultural mundial, exibido pela primeira vez no show em São Paulo e liberado na internet hoje.


"Ele é, acima de tudo, um ser humano especial, generoso. Hoje, isso é de glorificar. Musicalmente, não tem o que falar. É referência mundial de um jeito de tocar percussão. Não é qualquer pessoa que toca com a diversidade de artistas que ele tocou, ganha a quantidade de prêmios que ele ganhou. Só tenho a agradecer", destaca André Hosoi, um dos integrantes.

Os membros do Barbatuques conheceram Naná nos bastidores do programa televisivo Altas horas, apresentado por Serginho Groisman. Eles tocaram juntos Tá na roda, selecionada para o repertório de Ayú, dez anos depois, com uma percussão vocal feita pelo pernambucano.

Naná é uma das referências musicais do Barbatuques, especialmente pela arte de extrair sons do corpo. "Ele foi um dos primeiros a usar o corpo como instrumento no Brasil de forma intencional. Incorporou isso como assinatura. A voz, o peito faziam parte da música tanto quanto o berimbau", exalta Hosoi, que ouviu pela primeira vez Naná em parceria com o norte-americano Pat Metheny.

Música para Vasconcelos

O músico faria show com Barbatuques em março: músico participa do disco "Ayú". Foto: Estúdio 185/Divulgação
O músico faria show com Barbatuques em março: músico participa do disco "Ayú". Foto: Estúdio 185/Divulgação

Dois dos maiores instrumentistas do país, Yamandú Costa e Naná Vasconcelos tocaram juntos várias vezes. O último encontro sobre os palcos foi em 27 de janeiro, quando encerraram a programação da 34ª Oficina de Música, em Curitiba (PR), pouco após a segunda internação do percussionista pernambucano para o tratamento do câncer. A apresentação foi gravada pela produção.

"Tocar com ele era uma maravilha, uma coisa incrível. A energia dele era única, especial. Ele tinha uma calma no palco, uma serenidade e um comando de cena incrível. Naná improvisava muito, tinha o tema e saía tocando. Tinha um ritmo de palco muito único, sem fazer muita piada. Era um cara extremamente focado na mensagem que queria passar", recorda o amigo.

Outro registro permanece inédito. Em 2008, eles cumpriram temporada no Teatro Fecap, em São Paulo, e gravaram um CD ao vivo. "É um material super valioso, tem muitas coisas legais, inéditas. Não tenho ideia se vai ser lançado e também não quero forçar nada", comenta Yamandú sobre o material, de cerca de uma hora e meia. Uma das músicas, Pandeirada, foi feita por Yamandú para Naná e é executada pela dupla. Uma inédita do pernambucano, Maracatu dos Andes, também está no repertório, além de É doce morrer no mar, de Dorival Caymmi, e Boi bumbá, de Valdemar Henrique, entre outras.

O violonista gaúcho e o percussionista pernambucano tocaram juntos pela primeira vez no Rio das Ostras Jazz & Blues Festival, no litoral carioca, de acordo com Yamandú Costa, embora ele não consiga lembrar o ano. "Foi ao ar livre, com muita gente, um palco enorme. Nos encontramos dois dias antes, no hotel, para armar o repertório. Foi bem natural. Ele era muito espontâneo, muito claro, se encaixava em qualquer situação", recorda Yamandú. Além de Pandeirada, ele compôs De onde vem o som para Naná, um tema com referências latino-americanas. Eles não têm parcerias de composição.

O último show da vida

Ao lado do violoncelista Lui Coimbra, na despedida: Naná se apresentou sentado. Foto: Erivan Morais/Divulgação
Ao lado do violoncelista Lui Coimbra, na despedida: Naná se apresentou sentado. Foto: Erivan Morais/Divulgação

Sentado, Naná Vasconcelos fez a última apresentação em vida, no dia 27 de fevereiro, ao lado do cantor e violoncelista carioca Lui Coimbra, durante o NALATA - Festival Internacional de Percussão, em Salvador, capitaneado por Carlinhos Brown. "Eu preciso reverenciar, no dia de hoje, um dos maiores mestres de todos os tempos da história da rítmica no mundo. Ele é considerado o maior percussionista do mundo na área do jazz, na área da música pop porque, sem ele, o que seria da música eletrônica, o que seria do balanço? Ele fez o maracatu eterno. Ele faz o berimbau eterno. E ele é um eterno mestre de beleza", elogiou o anfitrião, ao apresentá-lo à plateia, antes de curvar-se e beijar a mão do convidado.

O show de despedida já foi exibido na TV Brasil e será reprisado pela TVE, responsável pelo registro, com transmissão simultânea através do site da emissora baiana (www.irdeb.ba.gov.br/tveonline), nesta quarta-feira, às 19h. Além da apresentação, na qual faz o público cantar, o material inclui entrevista feita com ele nos bastidores.

A noite foi dividida em momentos solo de cada um dos artistas e duetos. O repertório é composto por músicas dos dois e de outros artistas, de instrumentais até nomes como Zeca Baleiro (Babylon) e O Rappa (Minha alma). "Eu uso percussão como se fosse uma orquestra. Procuro contar histórias do meu país por aí. O Amazonas é uma reserva de vida e sabedoria. Vamos para a selva?", convida Naná no início, em meio a belo cenário formado por tambores e luz azul.

Logo após a apresentação, o percussionista pernambucano sentiu-se mal. De volta ao Recife, dormiu pela última vez em casa e foi internado, no dia 29 de fevereiro, pela terceira e última vez. "Ele estava sentindo muitas dores. A Carlinhos Brown, no camarim, eu vi pela primeira vez ele dizer que estava doente. 'Não vou tocar o berimbau como gostaria'. E Carlinhos: 'Você está lindo. Você faz o que quiser. O palco é seu. Você me ensinou'", recorda Patrícia.



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