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Homenagem Como Chico Science se tornou um cidadão do mundo Perseguidor das novidades culturais e admirador das manifestações populares, Chico Science misturou referências locais e internacionais na rica alquimia do mangue

Por: Larissa Lins - Diario de Pernambuco

Por: Luiza Maia - Diario de Pernambuco

Publicado em: 17/03/2016 08:25 Atualizado em: 16/03/2016 23:29

Manguezais eram cenário explorados pela Nação Zumbi em videoclipes. Foto: Fred Jordão/DP
Manguezais eram cenário explorados pela Nação Zumbi em videoclipes. Foto: Fred Jordão/DP

Retrato cortante da desigualdade social e das mazelas recifenses, a música Da lama ao caos foi composta sob inspiração de uma viagem de ônibus, entre a casa de Chico Science e o local do ensaio da Nação Zumbi. "Fala do nosso sistema caótico de viver, dos nossos problemas do dia a dia, dos nossos amores, da nossa linguagem cultural, da nossa batida, do nosso ritmo, da nossa brasilidade. A gente fala desses temas, fome e tecnologia, pobreza, diversão e outras coisas", explicou o cantor e compositor pernambucano sobre a letra, uma das preferidas.

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O conceito de caos foi absorvido de uma revista do artista visual e designer H.d. Mabuse, consultada na casa compartilhada por eles e Fred ZeroQuatro, da Mundo Livre S/A. "Chico tinha uma capacidade de absorção e recombinação de informações absurda, além do talento de falar com o povo mesmo na música", opina Mabuse. Ele diz ter se aproximado da produção local e das rodas de break através do amigo. "Chico teve o papel de levar a classe média para ver Mestre Salu, maracatu, cavalo-marinho. A gente saía em comitiva para ver os festivais", conta Aninha de Fátima, "manguegirl" e uma das responsáveis pela Ocupação Chico Science (2010), em São Paulo, a maior mostra já dedicada ao malungo.

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A visão atenta e a sensibilidade - social, estética, sentimental - do ícone do manguebeat catapultaram a concatenação de experiências e estéticas aparentemente desconexas. Francisco de Assis França era movido pela busca incessante por novidades, paralelamente à defesa da importância de reconhecer o lugar de origem e o passado. Moleque de periferia, do mangue e de bailes e rodas de hip hop, incorporou aos versos, entremeados com referências à ainda incipiente internet, as paisagens urbanas vividas ou observadas por ele, desde a casa, em Rio Doce, até os destinos para os quais viajou no Brasil e no exterior - à frente da Nação Zumbi, Chico tocou nos Estados Unidos e em sete países europeus. O grupo já estruturava a terceira turnê internacional - o Japão incluído - quando ele morreu, em fevereiro de 1997, aos 30 anos.

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Primeiro show ao vivo foi no festival SummerStage, nos EUA, onde Chico também fez participação na apresentação de Gilberto Gil. Foto Arquivo RTV/Divulgação
Primeiro show ao vivo foi no festival SummerStage, nos EUA, onde Chico também fez participação na apresentação de Gilberto Gil. Foto Arquivo RTV/Divulgação
O interesse em apreender novidades se tornou patente nas primeiras viagens internacionais. Acostumado a comprar revistas sobre música no aeroporto - único local onde podia encontrá-las - e a garimpar discos nas lojas recifenses com meses ou anos de atraso em relação ao lançamento mundial, Chico pôde, pela primeira vez, ter acesso às novidades em "tempo real". "Ele pirou. Porque Chico era de classe média baixa. Na adolescência, ele não tinha perspectiva de fazer intercâmbio ou coisa do tipo. Adorava passear no Soho, nas lojas de disco, comprar roupa. Em Berlim, pediu uma grana extra para comprar disco. Queria estar sempre ligado nas novidades do mundo", recorda Paulo André, empresário do grupo.

Science ouvia Public Enemy, Urban Dance Squad, James Brown, Jorge Ben, Beastie Boys (por causa de um clipe deles, sonhava em esquiar na neve, desejo realizado no último Natal, em 1996, na França). As inspirações estéticas batidas com leituras e observações eram impressas em letras, visual, melodia e performance. Nada passava incólume ao olhar do mangueboy. Do líder Zumbi dos Palmares, tirou o nome da banda. Dos escritos de Josué de Castro, incorporou as análises sobre os homens-caranguejo. Da criminalidade do Recife, absorveu personagens como Biu do Olho Verde e Galeguinho do Coque. Das lendas urbanas, narrou a curiosa história da Perna Cabeluda.

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As letras eram registradas em caderninhos, quase sem rabiscos, hoje pertencentes à família. As melodias, criadas em estúdio, eram conduzidas a partir de sons emitidos com a boca e batucadas, diante do pouco conhecimento instrumental dele. "Cadê as notas que estavam aqui?/ Não preciso delas!/ Basta deixar tudo soando bem aos ouvidos", argumenta, em Monólogo ao pé do ouvido. Nos últimos anos, começou a estudar violão e compôs a romântica Risoflora.


"Eu gosto de subir nos telhados/ Porque eu consigo ver o mundo", defendem os versos de Scream poetry, escrita por ele e gravada pelos Paralamas do Sucesso no álbum Hey na na (1998). Como a parabólica fincada no mangue, metáfora máxima do movimento, ele incorporava às letras fatos do cotidiano, misturadas a referências literárias, musicais e históricas saídas das viagens e leituras ao redor do mundo.

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Chila, relê, domilindró
Todo bairro pernambucano - especialmente na periferia - tem um "desequilibrado", característica não raramente associada à embriaguez. Na rua Girassol, em Rio Doce, onde Chico morou com a família dos 4 anos até se mudar, em 1991, para o apartamento da Rua da Aurora compartilhado com Fred ZeroQuatro e H.d. Mabuse, havia um. "Era uma pessoa que passava na rua e gritava 'chila' do nada. Ninguém sabe o que significa aquilo", recorda a irmã, Gorreti. "Chila, relê, domilindró" foi incorporado aos versos de Cidadão do mundo.

Lenda urbana da Perna Cabeluda também foi incorporada às performances. Foto: Memorial Chico Science/Divulgação
Lenda urbana da Perna Cabeluda também foi incorporada às performances. Foto: Memorial Chico Science/Divulgação
Um homem roubado
Chico Science tinha um primo residente em Sapobempa, em São Paulo. Com cerca de 20 anos, foi visitar o parente e queria comprar um tênis. Seria o primeiro calçado de grife. "O nordestino que queria qualquer coisa ia à Galeria Pajé, onde se comprava sem nota fiscal. Quando ele chegou perto, um homem perguntou o que ele procurava e prometeu buscar. Levou o dinheiro e ele ficou lá esperando, por horas", recorda a irmã, Goretti. A história virou piada e foi inserida em Da lama ao caos: "Um homem roubado nunca se engana".

Rios, pontes e overdrives
Quando a Nação foi contratada pela Sony para a gravação de Da lama ao caos, o repertório não era suficiente para preencher as faixas. Uma das composições feitas "em cima da hora" foi Rios, pontes e overdrives, cujo título é o mesmo de um texto de Fred ZeroQuatro. O verso "Impressionantes esculturas de lama" foi tirado de um show da Mundo Livre S/A na boate Misty, no qual, por brincadeira, a banda saía e voltava ao palco com nomes diferentes. Coautor, Fred registrou a música duas vezes, por engano, e por isso não recebe direitos autorais dela até hoje.

Percussão vocal
A introdução de Manguetown, com a percussão vocal feita por Toca Ogan, foi inspirada em uma coletânea de ragga, escutada nas viagens de ônibus em turnê. "O jamaicano falava isso e eu ficava viajando. O mistério é que vai ser sempre diferente. Não tem significado. É um efeito sonoro", explica o percussionista. Ele foi um dos fundadores da Lamento Negro e costumava dançar no palco com Chico durante as apresentações da Nação Zumbi. "Ele bebia tanto da nossa cultura quanto de outros países. Tive o prazer de aprender com ele", diz.

Josué de Castro
A admiração por Josué de Castro foi imortalizada nas canções Da lama ao caos ("Josué, nunca vi tamanha desgraça/ Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça") e Cidadão do mundo, na qual ele grita o nome do médico, cientista social, político e professor. "Tem que saber pra onde corre o rio, tem que seguir o leito, estar informado. Tem que saber quem é Josué de Castro", defendeu, em depoimento para o documentário Cidadão do mundo (1994), de Silvio Tendler. "Chico ia ao Centro Josué de Castro, passar umas tardes e fuçar o material que tinha lá", recorda Mabuse.

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