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Zeca Pagodinho usa novo CD como remédio para superar o luto

Através da música, cantor busca superar a perda do pai e do filho

Publicado: 30/04/2015 às 16:00

"Eu tenho medo de deixar essa vida boa, essa praia, esses biquínis, que eu fico olhando ali como quem não quer nada. Com um olho só, que esse é da Mônica", brinca. Foto: Guto Costa/Divulgação/

"Eu tenho medo de deixar essa vida boa, essa praia, esses biquínis, que eu fico olhando ali como quem não quer nada. Com um olho só, que esse é da Mônica", brinca. Foto: Guto Costa/Divulgação()

"Eu tenho medo de deixar essa vida boa, essa praia, esses biquínis, que eu fico olhando ali como quem não quer nada. Com um olho só, que esse é da Mônica", brinca. Foto: Guto Costa/Divulgação
Rio de Janeiro - Sentar é tarefa difícil para Zeca Pagodinho. Antes de engatar a conversa com jornalistas sobre o recente disco Ser humano (Universal, R$ 21,90 e US$ 7,99, no iTunes), ele conversa sobre a família, cumprimenta os funcionários da gravadora, reclama da dor na garganta e diz que não vai beber – promessa descumprida pouco depois, na hora do almoço. “Minha casa sempre tem cerveja. Se for lá agora, tem uma 20 caixas, mais 25 em Xerém”, conta, sobre o hábito famoso.

[SAIBAMAIS]Entre brincadeiras e ironias, ele para o assunto para atender algumas ligações, encomendar CDs para um amigo, comer uma fatia de bolo, apesar da glicemia em alta e dos remédios carregados em uma caixinha com revestimento de couro onde os comprimidos são separados por dia que ele mostra numa das várias levantadas durante o papo. Levanta descalço mesmo. Fala como dá, sem cerimônia. Não lembra alguns nomes, passagens. Nos shows, há uma cola para não se perder na letra e no roteiro. Desconversa às vezes, diz esquecer em outras.

A família, especialmente a filha, Maria Eduarda, de 11 anos, e os netos Noah, de 5, e Catarina, de apenas 10 meses, permeiam as frases. “Já está andando”, reforça o avô babão sobre a caçula – são quatro filhos e dois netos. Nem precisava. Horas depois, a sala de entrevistas parece uma reunião familiar. “Tudo maluquinho que nem eu”, confessa, sobre a hiperatividade latente.

É pela prole e por todos cujo sustento dependem do trabalho dele – “é tanto empregado que nem sei quem é família e quem está trabalhando”, brinca – que Zeca Pagodinho enfrentou nos estúdios duas grandes perdas. Pouco depois de se submeter a uma cirurgia na coluna da qual herdou duas placas e oito parafusos, o filho Elias, de 28 anos, morreu em decorrência de complicações no pulmão. O pai, Jessé, de 87 anos, faleceu de insuficiência cardíaca, em março. Do amigo Efson, morto no ano passado, pinçou Boca do banzé (com Paulinho Rezende). O remédio foi o samba.

Zeca Pagodinho não costuma gravar canções feitas para ele. Intérprete da boemia, de amores ideais e desilusões, da simplicidade e da periferia, ele abriu exceção no 23º disco da carreira, o primeiro de inéditas após hiato de cinco anos. O último foi Vida da minha vida. Ser humano foi gravado em dois meses, para aproveitar o Dia das Mães, um dos períodos mais quentes do mercado, e remete irremediavelmente às imagens do carioca a bordo de um quadriciclo para ajudar as vítimas das enchentes que assolaram o Rio de Janeiro em janeiro de 2013. Espécie de padrinho do bairro do Xerém, em Duque de Caxias, onde mantém o Instituto Zeca Pagodinho, de educação musical para 120 crianças, ele distribui presentes no Natal, chocolates na Páscoa. Ajuda e carinho durante o ano inteiro.

Família reunida em feijoada para comemorar o Dia de São Jorge (23 de abril). Foto: Facebook/Reprodução

O Clube do Zeca

Ser humano abre espaço para o romantismo em várias faixas, como a Amor pela metade, escolhida para a abertura, A Monalisa, Etc. e tal e Nas asas da paixão. Mas são as canções sobre bondade, amizade e ligação com a periferia que se destacam no disco. A faixa-título, Ser humano, de Claudemir, Marquinho Índio e Mário Cleide – estreantes na rapaziada, como Zeca chama o grupo de sambistas recorrentes na discografia dele –, descreve a simplicidade do ex-office-boy e anotador de jogo do bicho.

O sobrinho Juninho Thybau faz participação especial em Tempo de menino (Juninho Thybau e Kiki Marcelos): “Naquele tempo era difícil o sofrimento/ Mas o pobre tem talento pra dificuldade”. Juninho é neto do sambista Thybau, em cuja casa, no Irajá, a família se reunia para festas, como as que Zeca promove. Samba na cozinha se destaca pela levada e pelo espírito de casa cheia, tão presente no cotidiano de Zeca. “E quem conhece meu barraco tá ligaro na democracia/ As portas abertas, tem sempre um motivo pra comemorar”, versa a música de Serginho Meriti, Serginho Madureira e Claudinho Guimarães.

O repertório é criado à base de comida – um leitão, pernil, porco – e bastante cerveja, claro. “A rapaziada fica cantando. Eu fico ali rodando, converso com um, converso com outro. Quando passa uma coisa boa, passo um sinal pro Rildo Hora (o diretor musical dele, de Caruaru). Só non olhar ele já sabe. Em duas ou três reuniões, a gente mata. Eu tenho sempre um repertório pronto. Se eu quiser fazer um disco agora, a gente mata”, diz. A demora para um disco de inéditas, garante, se deve às comemorações dos 30 anos de carreira, com o DVD Vida que segue, e ao sambabook.

Apenas uma música leva assinatura de Zeca, Foi embora, com Arlindo Cruz e Sombrinha. “Porque tem muita gente. Gravar comigo hoje é o mesmo que acertar na loteria. É um dinheirinho que entra pro caboclo. Hoje, todo mundo quer fazer disco autoral. O compositor ficou órfão. Eu sou um dos únicos que ainda segura para eles”, compara.

Nelson Rufino (Mangas e panos), Trio Calafrio, formado por Marcos Diniz, Barbeirinho do Jacarezinho e Luiz Grande (Mané, rala peito), Almir Guineto e Adalto Magalha (A santa garganta) e Fred Camacho, Marcelinho Moreira e Dudu Nobre (Etc. e tal) são alguns que estão lá. Nas asas da paixão é de outro amigo saudoso, Luiz Carlos da Silva, morto em 2008, com Marcos do Valle.

* A repórter viajou a convite da Universal Music

Pedro Bismark faz participação como Nerso da Capitinga na faixa %u201CMané, rala peito%u201D. Foto: Facebook/Reprodução
Entrevista // Zeca Pagodinho


“O Brasil não é assim como está não. Eu estava ouvindo rádio de novo hoje de manhã, mas vou parar, não dá. Prefiro ver Peppa Pig com minha neta”

Tempo de menino remete à infância, fala da pobreza. O que mudou daquele menino de 50 anos atrás para hoje?
A pobreza foi embora, mas eu continuo com as minhas manias. Comer a fruta do pé. Ontem, cheguei em casa, olhei na fruteira e tinha jambo, cajá, tangerina. Ué, veio alguém de Xerém aqui? Luizinho tinha ido. A maioria dos pés de fruta que têm na minha casa eu plantei.

E você planta?
Aí eu tenho empregado. Porque senão eu tenho que mandar eles embora, ué. Vou pagar para quê? Para ele ficar me olhando plantar?

O que mudou na pobreza daquele tempo para a de hoje?
A pobreza do meu tempo tinha escola, médico, aula de arte, aula de música. A pobreza de hoje não tem nada, nem água. Está ruim.

Como você equilibra arranjos que valorizam os instrumentos de corda, o requinte, com outros mais soltos, de batuque?
Quando eu vim para a Universal, que era a Polygram, o diretor era Max Pierre, o mesmo que acompanha todos os trabalhos que faço até hoje em dia. Ele queria dar uma qualidade ao samba, o Rildo também. Eu lembro quando quis colocar uma harpa, que é caro. Neste ano, teve oboé. O samba tem que ficar só naquele cantinho, batucando na lata? É tão rico de melodia, harmonia. Só não tira o meu batuque, não tira a minha cozinha, mas bota uma cozinha bonita. Esse negócio do samba só ficar de calça de tergal, tem que usar o Armani também.

Essa característica do samba Armani atraiu outro público? Quem é teu público?
Vai todo mundo. Vai gente de todas as classes. Sempre foi, velho, criança, menino. Não tinha essa divulgação toda, esse chiquês das cordas, ficava mais na batucada. A verba era menor. Quando viemos para a Polygram, foi diferente. Max era diretor e disse bota qualidade no Zeca. O bacana já me ouve há bastante tempo.

Mas isso é uma vantagem da qual só você desfruta ou o samba já alcançou esse status?
Eu procuro falar no nome de todo mundo já para isso. Por isso fiz o Quintal do Pagodinho. Os compositores do Quintal agora já são artistas, já fazem shows. Já não precisam mais de mim para comprar uma geladeira.

Você tem muito isso de ajudar as pessoas. O Brasil precisa de solidariedade?

Muita. O Brasil não é assim como está não. Eu estava ouvindo rádio de novo hoje de manhã, mas vou parar, não dá. Prefiro ver Peppa Pig com minha neta. Estão matando mulher agora, esses homens estão meio esquisitos. Antigamente, a mulher era uma coisa, a gente não falava nem palavrão quando passava. Agora não respeitam mais as senhoras. A gente que é artista tem esse papel de levar, através da música, essa mensagem boa.

Quando o disco foi gravado?

O disco foi gravado neste ano (entre fevereiro e março). É pouco, porque eu gosto de ficar mais no estúdio. A intenção era pegar o Dia das Mães, isso com morte de pai, de filho, de amigo – compositor deste disco que está aí, de Boca de banzé (Efson, parceiro na canção de Paulinho Rezende). Foi muito embolado, no mês do meu aniversário.

O que esses eventos influenciaram?
Eu preciso ir trabalhar, eu preciso ir para o estúdio, eu preciso da música. Aconteceu. Eu não tenho como dominar isso e tenho que continuar a viver. Morre um pai e um filho, mas tem um neto e uma neta. A cabeça não pode ficar parada. Aí um dia vai Arlindo, outro dia vai Nelson Rufino, no outro vai todo mundo. Aí eu faço uma comida, uma feijoada, vai a Velha Guarda. Assim você vai continuando.

Você gosta de ficar sozinho?

Não. Para isso, tem três empregadas em casa em dia normal. Quatro, às vezes cinco. É tanta gente que eu nem sei mais que é parente e quem trabalha em casa.

Você tem medo de morrer?
Eu tenho medo de deixar essa vida boa, essa praia, esses biquínis, que eu fico olhando ali como quem não quer nada. Com um olho só, que esse é da Mônica.

Você falou do respeito às mulheres. Em uma das músicas, Mané, rala peito, se fala do dono da mulher. O que você acha disso?

É o que mais tem por aí. No morro, na favela, mulher bonita tem dono. Quando passa uma mulher muito bonita, se diz “não mexe não, é tartaruga em cima do muro. Alguém botou ali”. Não subiu sozinha. Deixa quieto.

E é para ter dono?

Sei lá, se ela se permitiu isso. A minha tem dono, claro. É bagunça?

Mas ela é sua dona também, né?

É. É... Eu sou um artista, sou um homem do povo, do mundo.

Você acompanhou as repercussões nas redes sociais das enchentes no Rio?
Nada, nada. Sei nem ligar. Pedi a Maria Eduarda para tirar aquilo lá (o aplicativo de mensagens WhatsApp). Toda hora era algo. “Niver da Saoinara. Cacacá. Adorei”. Sabe quem é Saionara? A mãe de uma amiguinha da escola? Maria Eduarda, que porra é isso? Vou receber mensagens das suas amigas? Meu celular é este aqui (aponta para o aparelho simples). Ela diz “pai, você é Zeca Pagodinho, precisa de um celular melhor”. Está ótimo, é só para ligar.

(Alguém chega, ele brinca que não queria café, mas cachaça e lembramos a promessa de não beber no dia)

É que eu já estou ficando triste, com saudades da minha neta, que ficou em casa. Ontem eu cheguei, estava o cacete, Noa e o cachorro. Aí a Mônica falou “olha, Zeca, ele não quer dormir não”. “Agora é que não vai dormir mesmo, que eu cheguei”. Ficamos na sala. Aí depois conseguiram ganhar no papo e levaram lá para dentro. Mas ele fica me esperando. Ninguém pode reclamar. Todo mundo teve de tudo, tem de tudo.

Você falou que nenhum disco tem menos de cinco hits. Quais os de Ser humano?

Ser humano, A Monalisa, Mangas e panos, Só na manha, Boca de banzé. Mas é injusto eu não falar das outras. É que tem música para ouvir e música para tocar.

Quando tempo você vai passar em turnê?

Agora até sair o outro. Se deixar, esse pessoal não me deixa nem ir para casa. Eu já trabalhei muito nesta vida. Tem que curtir também. Gosto de ficar com meus netos, de viajar.

Quais os limites que impõe?
Só fim de semana e olha como sou ruim: tem que sobrar dois para ir para Xerém. Uma vez fui trabalhar com um empresário aí fui logo avisando. Dia dos Pais não trabalho, Dia das Mães, aniversário dos meus filhos. Ele ficou me olhando e disse “me avise quais os dias que você pode fazer que fica mais fácil”. Agora é que passei a fazer réveillon. Mas vai todo mundo comigo. Faço quanto por mês. Eu já estruturei minha vida, né? Minha despesa é muito grande. Às vezes, acontece de deixar avançar mais um pouquinho em um mês. Daqui a pouco vem a escola da Catarina. A escola do Noa é mais cara que a faculdade da Elisa. A Duda, pô...

Você tem outros negócios além da música?
Não. Eu não sei vender nada. Dou tudo para todo mundo. Só a Brahma.

Com o patrocínio da Brahma, eles te dão cerveja?
Ah, minha casa sempre tem cerveja. Se for lá agora, tem uma 20 caixas, mais 25 em Xerém. Mais umas seis no apartamento. No apartamento eu bebo pouco, porque não tem parceiro. Aí eu desço e bebo no quiosque na praia, na Barracâ do Nenê, que agora virou Centro Cultural Zeca Pagodinho. Falar nisso, preciso de pôster. Ah, Jane (Barboza, assessora de imprensa), compra CD pro Nenê. A barraca do cara tem pôster, só toca Zeca Pagodinho.

E você vai toda semana?
Não dá. Se bem que agora eu adotei uma coisa de não receber CD, nem na portaria. Não dá, você chega da viagem, cansado, vou com a minha filha tomar um chope e o cara senta do teu lado “escuta isso aqui”. Geralmente é uma merda, coisa boa não vem assim. “Eu fiz um sambinha”. Às vezes eu falo “nem canta, ou tu faz um sambão...”. “Atravessa a rua ali, Universal Music, Avenida das Américas. Entrega lá”. Não recebo música da rua. Depois dá um problema danado. O cara diz que você usou uma frase que era dele. Aconteceu com Água da minha sede, e a música nem era minha. A briga era autoral, mas para chamar a atenção, tem que chamar o Zeca Pagodinho. Aí depois de duas vezes em São Paulo a juíza perguntou 'mas por que, se é direito autoral, chamaram o senhor Jessé aqui, se ela não consta como autor?'. Ô! Mas aí eu já tinha gastado 30 conto e ficou por isso mesmo.


Ser humano faixa a faixa:
Amor pela metade (Dunga e Gabrielzinho do Irajá)
Ser humano (Claudemir, Marquinho Índio e Mário Cleide)
Mangas e panos (Nelson Rufino)
A Monalisa, com participação de Pepeu Gomes, na guitarra (Zé Roberto e Adilson Bispo)
Etc. e tal (Fred Camacho, Marcelinho Moreira e Dudu Nobre)
Perdão, palavra bendita (Monarco e Mauro Diniz)
Mané, rala peito, com participação de Pedro Bismark como Nerso da Capitinga (Marco Diniz, Barbeirinho do Jacarezinho e Luiz Grande)
Só na manha (Brasil, Gilson Bernini e Xande de Pilares)
Foi embora (Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Sombrinha)
Nas asas da paixão (Marcos Valle, Luiz Carlos da Silva)
Tempo de menino, com participação de Juninho Thybau (Kiki Marcellos e Juninho Thybau)

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