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Obra de Eduardo Galeano passa por Pernambuco com trabalhos de J. Borges e Fábio Trummer
Escritor uruguaio, conhecido por obras como "As veias abertas da América Latina", faleceu nesta segunda-feira
Publicado: 13/04/2015 às 12:00
Galeano não resistiu a complicações de um câncer. Crédito: Arquivo Pessoal/Reprodução()

O mundo da literatura perdeu, nesta segunda-feira (13), um de seus maiores representantes. Com uma obra singular, o uruguaio Eduardo Galeano entendeu como poucos as dificuldades políticas e o sentimento de viver em uma América Latina abalada por ditaduras. O que muitos não sabem, no entanto, é que a obra do escritor também tem laços com Pernambuco, de parcerias com o artista J. Borges até influência em disco da banda Trummer Super Sub América.
Nos primeiros anos da década de 1990, J. Borges foi surpreendido pelo contato de Eduardo Galeano, lhe propondo parceria. O escritor uruguaio acabara de conhecer as xilogravuras do pernambucano, em exposição no Rio de Janeiro, e pretendia usá-las para ilustrar nova obra - com título provisório de Americontos, mas que viria a se chamar As palavras andantes, lançado em 1993. Tal objetivo o levou pela primeira e única vez ao município de Bezerros, no interior de Pernambuco, onde ele e J. Borges assinaram contrato. Durante os três anos seguintes, o pernambucano desenhou uma soma de 185 gravuras, nas quais Galeano jamais fez alterações. “Nos correspondíamos e telefonávamos sempre. Quando a coisa apertava, eu usava os orelhões para lhe pedir ajuda. E ele me enviava dinheiro imediatamente”, conta J. Borges, que reforça a gentileza com que Galeano sempre o tratou. Para Meca Moreno, pesquisador especializado em literatura de cordel, essa parceria somou genialidades. “Galeano aproveitou com maestria a semiótica de J. Borges. As figuras falam pelo texto e sobre o texto”, explica.

Em vídeo publicado em seu site oficial, Borges comenta a convivência com o escritor: "Ele é provavelmente o escritor que eu tive mais prazer em trabalhar. O livro chegou a ser publicado em espanhol, inglês e português. Ainda hoje as pessoas me procuram em busca de exemplares do livro. Eduardo é um cara muito legal, fiel, sensivel à arte, humano, uma beleza."
Ao resgatar na memória a figura de Eduardo Galeano, J. Borges se recorda de um jantar, oferecido pelo escritor Cláudio Aguiar, cearense radicado em Pernambuco, ao qual compareceu com o amigo uruguaio, nos anos 2000. Lá, entre figuras da literatura e artes plásticas locais, J. Borges diz ter vivido uma das noites mais animadas e bonitas da vida. "A lua estava alta e clara no céu. Jantamos todos no jardim. É uma lembrança que sempre gosto de visitar", conta o cordelista. Os dois se encontraram pela última vez em Pernambuco, na Fliporto de 2009.
Já o olindense Fábio Trummer, líder da banda Eddie, usou os ideiais políticos de Galeano como inspiração no primeiro álbum do projeto Trummer Super Sub América, lançado em 2014. A banda, formada em parceria com membros do Vivendo do Ócio, tem como grande inspiração a obra As veias abertas da América Latina.

"Galeano sempre foi um dos pensadores que eu mais admiro. Ele era um dos intelectuais que enxergavam a ideia de como somos uma colônia, e sempre denunciava isso de maneira muito poetica. Ele falava muito da condição da América do Sul, que até hoje é explorada por grandes empresas que só visam o lucro."

"Galeano sempre foi um dos pensadores que eu mais admiro. Ele era um dos intelectuais que enxergavam a ideia de como somos uma colônia, e sempre denunciava isso de maneira muito poetica. Ele falava muito da condição da América do Sul, que até hoje é explorada por grandes empresas que só visam o lucro."
[SAIBAMAIS] >> DEPOIMENTOS
“As veias abertas da América Latina trata de um recorte específico no tempo. Ao vilanizar o imperialismo, primeiro da Europa e depois dos Estados Unidos, exime de culpa os governos e elites da América Latina pelas nossas desgraças. Mas é um poderoso relato de como víamos o mundo naquela época.” (Anco Márcio, professor da pós-graduação do departamento de Letras da UFPE)
“Uma obra como As veias abertas da América Latina continua atual, ainda mais numa época de levantes e insatisfação popular na América Latina. Ler Galeano é fundamental para compreender as consequências do imperialismo e entender o que sentia quem vivenciou a ditadura militar.” (Rafael Monteiro, historiador e mestre em teoria da literatura)
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