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Homenagem

Símbolo da boemia carioca, Antônio Maria morreu na calçada de um bar, há 50 anos

O cronista e compositor pernambucano tornou-se um dos principais símbolos da vida carioca das décadas de 1950 e 1960. Foi vítima de um infarto

Publicado: 13/10/2014 às 10:19

Mesas de bares foram inspiração para trabalho de Maria. Foto: Arquivo DP/

Mesas de bares foram inspiração para trabalho de Maria. Foto: Arquivo DP ()


Mesas de bares foram inspiração para trabalho de Maria. Foto: Arquivo DPO menino Maria veio ao mundo tendo como testemunhas caranguejos excitados e despediu-se na calçada de um bar em Ipanema, embriagado. A versão para o nascimento é uma lenda, forjada por ele mesmo entre tantos outros causos sobre figuras ilustres ou desconhecidas. A morte foi há 50 anos, no dia 15 de outubro de 1964, em meio ao burburinho de uma madrugada carioca qualquer, em decorrência de um infarto, destino inevitável diante da vida desregrada entre álcool, bares, mulheres e redações de veículos de comunicação. Vítima de uma "grande e suicida vocação para morrer", como lamentou o amigo Vinicius de Moraes.

A ida súbita e precoce encerrou, aos 43 anos, a carreira do cronista, compositor, jornalista e, acima de tudo, boêmio Antônio Maria. Com nome de mulher, mais de 130 quilos não tão bem distribuídos em 1,85 metros e uma sudorese que lhe fez fama, o pernambucano tornou-se um dos principais símbolos da vida carioca das décadas de 1950 e 1960, para onde se mudou após temporada em Fortaleza e Salvador (e uma anterior sem sucesso no Rio de Janeiro), mas nunca esqueceu o cheiro e o mar do Recife. À cidade, dedicou vários trechos e a belíssima Frevo nº 1, uma das cerca de 60 composições. Ninguém me ama, Valsa de uma cidade e Manhã de carnaval (do filme Orfeu do Carnaval) são as mais famosas.

[SAIBAMAIS] Bastidores da vida social, política, policial, festiva, artística e gastronômica da sociedade estavam nas edições diárias das colunas do Menino Grande, como também era conhecido: Mesa de pista, A noite é grande, Romance policial de Copacabana e o Jornal de Antônio Maria, publicado em posição de luxo em grandes jornais locais, como O Jornal, Última Hora e O Globo, entre 1948 e 1964.

A acidez dos textos, a polivalência de produções no rádio, na TV e nos jornais, o gosto pela madrugada e pelas mulheres - foi casado com a conterrânea Mariinha, com quem teve dois filhos, Antônio Maria Filho e Maria Rita, mas morou com algumas outras - e a morte trágica e apoteótica fizeram de Maria uma figura única. Praticamente esquecido hoje, especialmente entre os mais novos, era notável nas décadas de 1950 e 1960.

Com Edith Piaf, Vinicius de Morares e Millor Fernandes. Foto: Antônio Maria Filho/Arquivo pessoal Os amigos eram ícones. Os - incontáveis - desafetos, idem, como Carlos Lacerda e Samuel Weiner, de quem roubou Danuza Leão, em um relacionamento escandaloso quando trabalhava no Última hora, do homem traído. "O pintor Di Cavalcanti estava sempre lá. O velho Maria fazia questão de pedir à minha mãe que tocasse determinada música, com a qual Di Cavalcanti imitava a entrada das 'coristas' nos espetáculos da época. Todos morriam de rir", recorda Antônio Maria Filho, sobre os encontros em casa. A lista contava ainda com nomes como Rubem Braga, Dorival Caymmi, Millôr Fernandes, Nelson Rodrigues, Tom Jobim, Aracy de Almeida, Ary Barroso e até  Juscelino Kubitschek.

Entre os causos, conta um pacto com Vinicius de Moraes de nunca perder tempo com exercícios, parceria musical e rompimento com Fernando Lobo, inimizade com o bossanovista Ronaldo Bôscoli, apresentação do programa inaugural da TV Tupi Rio, um contrato com a Rádio Mayrink Veiga pelo salário mais alto até então e até impulso à entrada de um certo João Gilberto na banda Os Garotos da Lua. Protagonista de histórias esquecidas após uma boa ressaca ou perecíveis como as páginas dos jornais para os quais escreveu, o Menino Maria passa quase despercebido neste cinquentenário de morte.

Às escuras

O jornalista Joaquim Ferreira dos Santos é um dos guardiões da obra do Menino Grande. Além de Um homem chamado Maria, resgatou crônicas em Benditas sejam as moças e ainda trouxe a público O diário de Antônio Maria, um dos mais sinceros e entregues desabafos de um homem solitário e depressivo, escrito durante 27 dias e interrompido sem justificativa. "Era um homem absolutamente esquecido. Maria é um grande compositor, foi um crítico de música brasileira, gostava de futebol, era um cronista da noite do Rio. Tinha muitas referências da cidade, aquela galeria de mulheres na vida dele, as vedetes, Danuza", comenta Ferreira. Outras coletâneas são O Jornal de Antônio Maria (1968), do amigo Ivan Lessa, e Com vocês, Antônio Maria (1994), por Alexandra Bertola, todas esgotadas. As pérolas ácidas podem ser lidas no acervo da Biblioteca Nacional (em hemerotecadigital.bn.br).

Cinco trechos

"Às vezes, me sinto muito só. Sem ontem e sem amanhã. Não adianta que haja pessoas em volta de mim. Mesmo as mais queridas. Só se está só ou acompanhado, dentro de si mesmo. Estou muito só hoje. Duas ou três lembranças que me fizeram companhia, desde segunda-feira, eu já gastei"
Em Diário de Antônio Maria

"Que bobos! Eles pensam que os jornalistas escrevem com as mãos"
Após ser espancado por capangas para impedi-lo de escrever a coluna

"É perigoso ter muitas mulheres. Quem tem seis, por exemplo, tem cinco oportunidades de ser enganado"

"Mulher, quando gosta mesmo do homem, este pode estar vestido como o próprio Rubem Braga e ela acha bonito. Mas, quando gosta 'sem ser mesmo', quando gosta assim como June Aluson gosta de Dick Powell, por qualquer coisinha ela enguiça com a roupa do coitado"

"Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Baudelaire"

Tributo literário

Cronistas gaúchos prestam homenagem a Maria. Foto: Buqui/DivulgaçãoUma coletânea em homenagem ao pernambucano vem de Porto Alegre. Maria volta ao bar reúne 55 crônicas inéditas de 11 autores, fruto da Santa Sede, oficina literária ministrada por Rubem Penz em mesas de bares. Os textos são inspirados em frases do pernambucano, escolhidas como epígrafe. "Eu comentava sobre ele nas aulas e as pessoas perguntavam 'quem?'. Isso me chamou a atenção. Então pegamos os livros dele e foram passando de mão em mão", relembra Penz, sobre o processo de produção. A obra está disponível por R$ 9,90 no site da editora Buqui.


Ouça a música Manhã de carnaval:

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