Semáforos

Quando o sinal fecha: trânsito do Recife se torna dor de cabeça sem semáforos sincronizados

Capital pernambucana tem um dos trânsitos mais intensos do país, de acordo com a Waze, e semáforos não sincronizados atrapalham fluidez

Publicado em: 01/06/2024 06:00 | Atualizado em: 31/05/2024 20:48

A implantação adequada dos semáforos possibilita diversos benefícios no trânsito, mas o número exagerado pode ocasionar cenários como acidentes e atrasos em excesso (Foto: Priscilla Melo/DP)
A implantação adequada dos semáforos possibilita diversos benefícios no trânsito, mas o número exagerado pode ocasionar cenários como acidentes e atrasos em excesso (Foto: Priscilla Melo/DP)
Uma rua cheia de luzes vermelhas, trânsito intenso e carros parados em todas as faixas tiram o sossego de qualquer motorista no Recife. Quando ele acredita que o trânsito vai fluir com mais rapidez, o semáforo fica com a luz vermelha e trava tudo novamente. Esses equipamentos possuem grande responsabilidade de manter a segurança, equilíbrio e andamento do trânsito, mas muitas vezes acabam sendo motivo de dor de cabeça para quem está atrasado.

A implantação adequada dos semáforos possibilita diversos benefícios no trânsito, mas o número exagerado desses aparelhos pode ocasionar cenários como acidentes, atrasos em excesso, incentivo ao desrespeito da sinalização e desconfiança em relação à eficiência dos semáforos, além de mais gastos para os cofres públicos.

Diante do aumento da frota de veículos na capital pernambucana, questões como a sinalização também devem ser colocadas em pauta na hora de discutir a fluidez no trânsito. De acordo com um levantamento da CTTU, entre os anos 2013 e 2023 houve um aumento de 26% na frota de veículos registrada na Região Metropolitana do Recife (RMR). Em relação às motocicletas, o aumento foi de 53%, enquanto a frota de ônibus cresceu apenas 1,2%.

Atualmente, o Recife conta com 717 semáforos, sendo 200 com controladores com capacidade para operar em tempo real (em caso de uma eventual pane, a correção pode ser feita de forma remota, sem a necessidade de deslocamento de equipes de reparo), de acordo com a Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU). 

“De fato, Recife é uma das capitais do Brasil que apresenta um grande desafio nessa temática da mobilidade. A presença de muitos semáforos próximos uns aos outros tem a finalidade de controlar a velocidade, de disciplinar o trânsito, mas um dos principais motivos para a necessidade da presença de semáforo é quando um grande fluxo de veículos pretende passar ao mesmo tempo naquela determinada via e no seu entorno, nas vias transversais. Então, o objetivo seria dar tempo ao tempo para que todo mundo consiga trafegar naquela mesma via, trazendo algum disciplinamento em todos os sentidos”, explica a doutora em engenharia civil e membro do CREA, Fernanda Batista.

Para a instalação de semáforos nas vias, é necessário seguir alguns critérios que estão disponíveis no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), entre eles a legalidade, suficiência, clareza, padronização, precisão e confiabilidade, visibilidade e legibilidade, e manutenção e conservação.

Segundo o Conselho Nacional de Trânsito (Contran), antes de inserir semáforos é preciso realizar um estudo na área e fazer vistorias no local em diferentes horários e dias da semana, coleta de dados relativos à segurança e fluidez, escolher a sinalização complementar a ser utilizada e elaborar um projeto.

Ainda é necessário acompanhar a operação inicial da sinalização semafórica, coletar novos dados relativos à segurança e fluidez e fazer avaliação rotineira da programação semafórica.

O Contran destaca que, em vias com velocidades regulamentadas superiores a 70 km/h, a interrupção do tráfego por meio de sinalização semafórica compromete a segurança dos veículos e dos próprios pedestres. Nesses locais, caso haja grande quantidade de pedestres para fazer travessia, é necessário aderir à travessia em desnível, como passarelas.

Semáforos Sincronizados
Apesar de parecer uma solução simples e rápida, a sincronização dos semáforos pode se tornar algo complexo por conta de algumas variáveis (Foto: Priscilla Melo/DP)
Apesar de parecer uma solução simples e rápida, a sincronização dos semáforos pode se tornar algo complexo por conta de algumas variáveis (Foto: Priscilla Melo/DP)

Uma das alternativas para evitar engarrafamentos e acidentes de trânsito é a sincronização dos semáforos. Um dos objetivos dos motoristas é conseguir alcançar a “onda verde”, que ocorre quando os semáforos estão programados da mesma forma e permitem a passagem dos veículos por vários cruzamentos semaforizados ao longo da via, evitando as desconfortáveis sequências de semáforos, um abre e o seguinte fecha (vice-versa).

Quanto menores as distâncias entre os cruzamentos semaforizados, mais necessária será a sincronização. Além disso, quando um semáforo se encontra a distância inferior a 400 metros em relação a outro, a sincronização é obrigatória, e em distâncias entre 400 e 600 metros ela ainda pode ser recomendável.

“A gente observa que cada vez mais é necessária uma sincronização desses semáforos. Não adianta a gente ficar entre 50 a 40 segundos parado em um semáforo e, quando ele abre, logo à frente tem outro que fica mais 50 segundos. Com isso, a gente perde essa capacidade de fluidez que o sistema de mobilidade deve ter. Então, o objetivo é disciplinar o trânsito, mas se não houver uma sintonia entre esses semáforos, a gente termina tendo o processo da mobilidade atrapalhada”, destaca a engenheira civil Fernanda Batista.

Apesar de parecer uma solução simples e rápida, a sincronização dos semáforos pode se tornar algo complexo por conta de algumas variáveis, como a necessidade de um profissional que programe corretamente os equipamentos, dados exatos sobre as programações, relógios internos dos aparelhos marcando as mesmas horas, comunicação ativa entre os controladores via GPS e uma central semafórica que funcione sem defeitos.

Outro ponto a ser considerado é verificar se a estrada está saturada. Caso o número de veículos não esteja em excesso, é possível programar os semáforos para facilitar o fluxo de tráfego. Mas, se estiver muito congestionada, mesmo com cálculos precisos, será difícil passar por vários semáforos de uma vez por causa do excesso de veículos. Em muitos casos, a forma como as ruas são projetadas prejudica o trânsito, como, por exemplo, uma avenida que tem três faixas e, após um cruzamento, reduz para duas.

Ainda vale destacar que o trânsito é um sistema mais complexo do que parece e nem sempre o motorista pega a “onda verde” por conta da má sincronização dos semáforos. Obras, veículos quebrados, buracos na via, tapa-buracos mal feitos, acidentes e outros problemas interferem na fluidez viária.

A CTTU informou que casos como esses levam à atuação complementar de agentes de trânsito, além de sinalização específica para orientar os condutores quanto aos transtornos e rotas alternativas.

“Os semáforos não são a única solução para a melhoria da mobilidade das cidades. É uma das formas de contribuir para essa melhoria da fluidez. Outros instrumentos e obras complementares, como inversão de sentidos e implantação de binários, também podem contribuir para a melhoria da fluidez. Em uma cidade como o Recife, um misto de soluções deve ser adotado, não somente a implantação de semáforos em cada esquina”, complementa Fernanda Batista.
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