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TRANSFEMINICÍDIO

Travestis e trans precisam de políticas públicas em Pernambuco

Publicado em: 09/07/2021 15:28 | Atualizado em: 09/07/2021 22:06

 (Yane Mendes/ Divulgação)
Yane Mendes/ Divulgação

No Brasil, a expectativa de vida de uma pessoa travesti é de 35 anos. O país é o que mais mata pessoas trans, de acordo com a pesquisa Trans Murder Monitoring (monitoramento de assassinato de pessoas trans). Sophia Rivera, 23, estudante de serviço social pela UFPE e fundadora da Frente Trans de Pernambuco, compartilhou que essa realidade de violência começa desde cedo. “Eu cheguei a ser expulsa de casa somente por ter sido vista na rua conversando com um amigo que era gay”, cravou a estudante.

Hoje Sophia tem um trabalho de carteira assinada e uma rotina estabilizada, mas nem sempre foi assim. Aos 13 anos, foi expulsa de casa e, ao pedir abrigo a outro parente, encontrou mais rejeição e violência. "Eu não entendia sobre a minha dita sexualidade ou identidade de gênero, estava vivendo enquanto criança e me encontrando”, afirmou.  “Eu cresci vendo isso, quando me entendi quanto sujeita comecei a enfrentar [a realidade] e fui muito silenciada e podada, tinha que agir de determinadas formas e sofrendo com uma culpa que não era minha”, compartilhou. Ainda que a travesti Sophia Rivera tenha conseguido retornar para a sua casa poucos dias após a expulsão, as coisas mudaram para ela quando encontrou suporte nos braços de sua avó, que lhe deu espaço e incentivos para estudar e se encontrar como pessoa. “Isso foi um divisor de águas”, assinalou.


 (Divulgação)
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“Eu tive muitas travas até botar para fora quem eu de fato era, passei por processos de muita violência e impedimento”, ponderou Sophia. A realidade apresentada por Rivera é compartilhada por mais pessoas, e tudo se agrava com a crise trazida pelo Covid-19. Uma moça que não quis se identificar afirmou que estava regressando em seu processo de transição para poder morar com a família na pandemia. “Era isso ou ir para as esquinas. Escolhi sobreviver, mesmo que fora de mim. Muitas de nós não têm a mesma opção”, ressaltou.

Para a codeputada Robeyoncé Lima (PSOL), mudar essa realidade é uma pauta urgente e precisa do apoio das forças políticas. “É necessário estreitar os diálogos com os movimentos sociais e os parlamentares”, afirmou. “Pernambuco é o sétimo estado mais violento contra a população travesti e trans, é uma série de violações dos direitos que não se restringe somente ao homicídio”, disparou a deputada. Robeyoncé destacou a necessidade de reparo em “toda uma estrutura social” que culmina no homicídio desenfreado de pessoas trans. “A gente pede segurança, a questão do nome social e a criação de um abrigo para pessoas LGBTQIA+, que são expulsas de casa por conta do preconceito dentro da família. A gente precisa de acesso à saúde, à educação e à empregabilidade, são demandas para além do direito à vida”, cravou. “O mínimo é uma moradia, três refeições do dia e ter acesso ao que está posto na própria constituição”, complementou Sophia Rivera.

De acordo com a parlamentar, além da criação de políticas públicas, é necessária a manutenção desses serviços. “As emendas parlamentares que a gente encaminha muitas vezes não são o suficiente para a manutenção do serviço”, afirmou. “A via da assistência social e as políticas de proteção são pontos fortíssimos para a gente, precisamos lutar o tempo inteiro para não perder esses aparatos”, concordou Sophia. Segundo Nêmesis Lima de Farias Melo, 20, estudantes de ciências sociais, artesã e também representante da Frente Trans de Pernambuco,  a garantia de vida digna para pessoas travestis e trans é urgente, mas para chegar lá várias atitudes precisam ser tomadas. “É preciso que haja um mapeamento geográfico e discussão com líderes parlamentares. A gente precisa de representantes que conheçam a pauta e procurem pessoas trans para dialogar sobre medidas efetivas de saúde, segurança, educação e capacitação”, assinalou a artesã.

 

 (Divulgação)
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“A forma principal que o estado pode intervir é através da educação. Precisamos levar a discussão para dentro das comunidades, onde as pessoas estão dispostas a ouvir e aprender, a comunidade é o seio da solução”, disparou Nêmesis. De acordo com a estudante, a causa de toda essa violência está diretamente ligada à falta de diálogo e educação das pessoas. “A gente precisa investir em políticas e em diálogos árduos, pessoas trans e travestis precisam ser reconhecidas com urgência”, concluiu


 

A violência contra pessoas travestis e trans nesse primeiro semestre de 2021 tem alarmado a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), que registrou 89 mortes (80 assassinatos e nove suicídios) neste período de tempo, enquanto em 2020 ao todo foram 175. Em Pernambuco, de junho para cá, quatro casos de transfeminicídio chamaram a atenção de Pernambuco. No dia 19 de junho, Kalyndra da Hora, 26, foi assassinada pelo companheiro. No dia 24 de junho, Roberta foi queimada viva por um adolescente no Cais de Santa Rita, precisando passar por diversos procedimentos cirúrgicos e hospitalares, vindo à óbito nesta sexta-feira (9). No dia 5 de julho, Crismilly Pérola, a Piupiu, foi assassinada na Várzea. No dia 7 deste mês, em Santa Cruz do Capibaribe, a travesti Fabiana foi morta a facadas. Nesta segunda, 12 de julho, haverá um ato na Praça da Várzea, às 13h, para protestar pelas as mortes, em homenagem à moradora da Várzea Piupiu.

 

Ato no dia 28 de junho (Divulgação)
Ato no dia 28 de junho (Divulgação)
 

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