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GORDOFOBIA

Câmara do Recife discute políticas de combate à gordofobia em audiência

Publicado em: 09/06/2021 16:41 | Atualizado em: 09/06/2021 20:19

 (Foto: Reprodução)
Foto: Reprodução
Na tarde desta quarta-feira (9), a Câmara Municipal do Recife realizou uma audiência pública virtual para discutir os impactos à gordofobia e a formulação de políticas públicas para combatê-la na capital pernambucana. Segundo a última Pesquisa Nacional de Saúde, divulgada pelo IBGE em outubro do ano passado, mais de 61% dos brasileiros estão acima do peso.

A audiência foi conduzida pela vereadora Cida Pedrosa (PCdoB), autora de três Projetos de Lei Ordinária (PLO) sobre o tema. Um deles, o PL0 37/2012 propõe que o município do Recife ofereça carteiras escolares adequadas para quem está acima do peso. O PL0 36/2001 estabelece medidas para serviços de saúde para assegurar assistência adequada e acessível, livre de práticas gordofóbicas; e o PLO 35/2021, que institui o Dia Municipal de Luta contra a Gordofobia no Recife em 10 de setembro.

“É muito complexo ter um corpo e não ter o corpo aceito. A sociedade capitalista constrói modelos para navegar nos seus sonhos de consumo. A mesma sociedade capitalista que cria comidas que não são saudáveis cria modelos de ‘magritude’ que levam jovens à depressão ou tristeza (...) Eu acho que a gente tem que cunhar a expressão de um mundo magronormativo. Tem que aprender um pouco com outras lutas e trazer para essa”, disse a vereadora.

Karla Rezende, ativista do Coletivo Mundo Plus, colocou em xeque o conceito de beleza baseada na magreza e falou sobre a importância do empoderamento das pessoas gordas, para que com a auto-estima e amor próprio elevados, tenham condições de lutar por respeito. 

“Não quero que você goste de mim porque sou gorda, mas porque eu tenho carisma, inteligencia, algo a somar. A gente não consegue entender porque as pessoas não nos veem como pessoas normais (...) Quando a gente se olha e se respeita pelo que a gente é, fica mais fácil essa luta”, afirmou. 

Para o ativista Marco Magoga, a realização da audiência representa um marco histórico na luta contra a gordofobia, uma vez que o tema, em relação a outras lutas sociais, tem um debate mais recente e pouco institucionalizado em termos de políticas públicas. Ele também ressaltou a importância de criar políticas públicas de inclusão que atendam com dignidade as pessoas gordas, uma vez que o Estado não tem a atenção adequada para lidar com o problema. 

“Pessoas gordas recebem tratamento hostil em toda a vida. Desde uma grávida gorda que não tem uma maca adequada, uma máquina de exame que caiba a pessoa, na escola temos pessoas quebrando cadeiras, mesas inadequadas, cadeiras que machucam. Quando se compra mobiliário para equipamento público não é costume pensar ‘será que a cadeira com braço vai incomodar?’. Uma pessoa que está fazendo uma licitação pode pensar ‘será que estou tendo a melhor visão para atender o maior número de pessoas possível?’. O quanto uma pessoa gorda enfrenta de hostilidade em sua visa por questões que partem do poder público. Vai muito além da aceitação. É sobre o estado manter visão de planejamento capaz de incluir o maior número de pessoas possível, a gente chega a políticas públicas quase absurdas porque não se tem uma visão adequada sobre o que é gordofobia”, explicou ele.

Aline Sales, que faz parte do Coletivo Bonita de Corpo, falou sobre a associação entre a gordofobia e o racismo, que, juntos, aumentam a opressão sofrida pelas pessoas negras, em especial no atendimento de saúde.  

“Quando a gente fala de gordofobia para uma mulher negra, a gente tá falando de uma opressão maior. Corpos gordos estão de maneira minuciosa ocupando determinados lugares mas eu fico sempre questionando lugares que se dizem inclusivos que corpos gordos estão inseridos, em geral são corpos brancos padronizados. Qualquer problema que você vá ao hospital, o seu problema é porque você é gorda. Tenho passado adoecimento emocional devido a racismo e homofobia, que me coloca numa condição de inferioridade, como se eu fosse preguiçosa, não tivesse expertise para minhas funções, várias opressões e você se vê adoecida por toda essa carga”, disse ela.

Beatriz Klimeck é doutoranda em saúde coletiva e explica que apesar de ser magra, se debruçou sobre a gordofobia na medicina “ao entender que pessoas não tinham acesso a um diagnóstico psiquiátrico por causa de seus corpos”. 

Ela destaca que pessoas gordas, especialmente mulheres, sofrem com tentativas frustradas de tratamento médico e assistência à saúde em que a estrutura hospitalar e também os profissionais de saúde não estão preparados para prestar um atendimento com dignidade. “Qual corpo é detentor de direitos na sociedade? O corpo branco, masculino e capaz é o detentor de direitos. Além desse corpo masculino branco e capaz, precisa ser magro. Todas as pessoas têm direito à saúde, e não só como ausência de doença, mas estado de bem-estar. Essa ideia de que as pessoas devem às outras saúde é absurda. É obrigação do estado tratar a pessoa sem margem para dizer ‘não, essa pessoa a gente não vai tratar’ e também abordar a questão de que nem todo gordo é doente”. 

Ela ainda destaca problemas como a maior prevalência de doenças em pessoas gordas devido à falta de acesso a exames negados pelos médicos e, assim, deixam de possibilitar diagnóstico e tratamento precoce. “Costumo mencionar um caso de dado de que gordas têm mais câncer de colo de útero, ficou se procurando motivo fisiológico, mas as pesquisas mostraram que não era consequência fisiológica, mas porque faziam menos exames, os médicos se recusavam”, explicou. 

O tema também foi pautado sob a ótica da educação, com a participação da pedagoga e coordenadora do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Katarina Gonçalves, cujos estudos são focados no bullying.

Katarina explica que o bullying não é um preconceito, mas pode ser motivado por diversas formas de discriminação, levando à conduta violenta e reiterada entre pessoas que estão no mesmo nível hierárquico, levando, como consequência, a prejuízos na formação da identidade e auto-estima da pessoa que é alvo do bullying. 

“Quando falamos de discriminação, falamos de práticas nefastas à construção da identidade. Mulheres sofrem imposição de beleza do corpo magro mais que o homem, então essas meninas gordas vão construindo uma imagem de si. Se o tempo inteiro dizem que precisa emagrecer, tem rostinho bonito podia ficar magra, que não cuida da saúde, relaxada, descuidada, tem uma responsabilização do sujeito. É como se o alvo começasse a se ver como merecedor. Porque a gente repudia o corpo gordo, o diferente? A escola é e precisa ser espaço de construção de comunidade e vínculos. Escola não é só muro, é espaço de convivência da diferença. É na escola que vou me confrontar com essas pessoas tão diferentes”, afirmou a professora.

Carol Stadler cursa design e tem na moda sua área preferida. Ela, que é gorda desde bebê, relatou diversas situações de violência sofridas em seus tempos de escola por causa de seu peso e tiveram reflexos na vida adulta, dificultando o andamento de sua graduação. 

“Na faculdade, sentia que eu estava com dificuldade de me formar, que era culpa minha por empurrar com a barriga, que estava protelando e não entendia porquê. Na terapia entendi que não queria entrar numa sala em que eu não conhecesse alguém, tivesse suporte. Era um terror fazer trabalho em grupo. Depois que compreendi que vinha do bullying de anos atrás, consegui começar a combater isso”, contou a estudante. 

A jovem também falou sobre as dificuldades que pessoas gordas enfrentam para conseguir se vestir e ficar “apresentáveis”, o que traz diversos problemas à vida em sociedade, como dificuldade para conseguir emprego, por exemplo. “Pessoas gordas sofrem com dificuldade para se vestir. A gente pode falar em classe, raça, porque com mais renda temos acesso a muitas outras coisas, mas muitas vezes a única opção é a loja de varejo que não se interessa na diversidade de tamanhos”.

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