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Notícia de Local

DIA NACIONAL DA ADOÇÃO

Adoção: a construção da família com o DNA do afeto

Publicado em: 25/05/2021 09:30 | Atualizado em: 25/05/2021 09:44

 (Foto: Arnaldo Sette/ DP.)
Foto: Arnaldo Sette/ DP.
“A adoção é um caminho fantástico para a filiação. Mas é preciso entender que tem que haver o investimento no amor incondicional. É aquele amor sem condição, é preciso persistir nesse amor incondicional, apesar das dificuldades que surgirão. É preciso insistir sempre nesse amor. E não desistir jamais. Filhos não se devolvem. Nós não desistimos de filhos. Filhos se acolhem”. A fala é da mestre em psicologia clínica e psicoterapeuta, Suzana Moeller Schettini, e retrata a complexidade de quem decide acolher uma criança ou adolescente em sua vida, garantindo o direito à família e atribuindo um novo significado ao sentido de amar. 

É por esse sentimento que nesta terça-feira, Dia Nacional da Adoção, diversas famílias aproveitam a data para desmistificar, incentivar a adoção e promover a naturalização do tema. Segundo dados divulgados pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o estado possui hoje 970 pretendentes inscritos para a adoção e 148 crianças e adolescentes inseridos no cadastro. No Brasil, são 33.309 pretendentes à adoção e 4.976 crianças e adolescentes inscritos, que podem ser adotados. 

Entre esses pretendentes está a fisioterapeuta e advogada Karla Neves, 49 anos, que conta que o desejo de ampliar a sua família pelo processo de adoção surgiu após tentativas de gestação biológica que não ocorreram. “Estávamos em 2015, quando decidimos entrar para o cadastro de adoção. Isso porque eu já vinha de tentativas de gestação. Eu já sou mãe biológica, e tenho uma filha. Na época ela estava com nove anos. A gente já estava tentando engravidar novamente e não conseguia. Foi quando nos despertou o desejo da adoção”. Karla também é filha adotiva, e vive em Olinda, na Região Metropolitana, com o marido Adilson Oliveira, 53 anos, e a filha Bianka Neves, 15 anos.

Há seis anos no processo de adoção, e com uma experiência de maternidade biológica, Karla relata sua vivência como pretende ser a mãe adotiva. “A adoção não é, pelo fato de sabermos que há muitas crianças que estão nas Casas de Acolhimento e de idades diversas, um processo fácil e rápido. Existe uma situação que a gente precisa ter muita atenção, que é o lado da criança. Óbvio que o pretendente tem o desejo, a vontade de ser pai e mãe, e que isso aconteça. Quando a mulher engravida, ela sabe aquele prazo exato de quando a criança vai estar em seu colo. E quando a gente entra no processo de adoção, isso não acontece. Então não há uma exatidão de quando vai acontecer. Mas pelo fato do sentimento gestacionado, pelo sentimento que já foi nascido, então esperamos”. De acordo com o CNJ, das 4.236 crianças em processo de adoção em todo o País, 39 são de Pernambuco. 

Sobre o afeto, como relatado por Karla, a psicóloga Suzana Schettini explica que é essencialmente a base da construção das famílias. “Eu não consigo entender nenhuma família se não tiver adoção envolvida no seu contexto. Pessoas que geram crianças são genitores, não necessariamente são pais. Os pais só se tornaram pais se realmente adotarem afetivamente seus filhos. Adoção é afeto. A filiação por adoção significa que o elo de ligação entre pais e filhos é essencialmente o afeto. E em qualquer filiação, não pode prescindir o afeto”, explica a psicóloga, que atende crianças, adolescentes e adultos, com ênfase em famílias adotivas.


A família

A superação dos desafios diante de não conseguir uma segunda gestação biológica fez Karla desenvolver um sentimento conjunto, com o marido e filha, de ampliar a família. A fisioterapeuta conta que a sua filha mais velha foi a primeira a desejar uma companhia.

"No início ela queria ter uma irmã. E ela dizia que queria que eu engravidasse de uma menina, para brincar. Ela era criança ainda e a cabecinha era de uma companhia para brincar. Hoje, ela está com 15 anos, e amadureceu bastante com essa relação. Porém, ela vê isso de uma forma muito positiva. Eu sempre contei a minha história. Então, ela amadureceu e com o passar do tempo passou a perceber que é algo que vai ser muito importante na vida da família", conta Karla.

Sobre o marido, Karla é precisa: "Adilson, é pai babão", brinca. "Foi um desejo conjunto, ele sempre apoiou e esteve muito junto, sendo muito parceiro. E a gente está nessa desde o início, com essa ideia de adoção, de forma muito positiva e muito boa. Ele diz que 'aqui em casa só mandam as mulheres’”.

Para Karla, o desejo de expandir o amor na família já nasceu com ela, desde 1972, ano em que também foi adotada por seus pais. “Um detalhe importante é que eu sou filha adotiva. Eu cheguei a minha família com oito dias de nascida. No meu caso, por exemplo, minha mãe biológica não tinha condições de me criar. Através da minha madrinha, chegou a informação aos meus pais, que ela queria me entregar para a adoção”.

As diferenças entre filhos biológicos e adotados, ressalta Karla, não existem. “As pessoas que pretendem ser pais, e vale tanto para o homem e para mulher, e que por algum motivo não conseguiram de forma natural, que aceitem a adoção. É também uma forma de amar. Não existe essa coisa de que o amor de filho adotivo e do biológico são diferentes. Não são. Eu sou prova viva disso. Os meus pais sempre me amaram como filha biológica, assim como meus irmãos e toda minha família”, relembra. 

“Hoje esse processo se torna mais legalizado. Porque as crianças não correm riscos de serem maltratadas ou de serem devolvidas, porque quando se entra no cadastro, passamos a conhecer o que é a adoção. E esse sentimento de ser pai e mãe é amadurecido. O que também é muito importante, quando entramos no processo de adoção, é fazermos parte dos grupos de apoio a adoção”.


Grupos de apoio

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que é o responsável por regular a adoção no País, prevê o direito da convivência familiar e comunitária com dignidade. Todo o processo de adoção é realizado na justiça e acontece com intermediação da Vara da Infância e Juventude. Apesar da demora e da burocracia existente na formação de novas famílias, a participação dos pretendentes a pais em grupos de apoio é imprescindível, conforme apontam os especialistas.

“Há alguns anos existe o Sistema Nacional de Adoção (SNA), que é para adotar um filho, seja criança ou adolescente, onde é preciso estar habilitado previamente neste sistema. Essa habilitação requer, muitas vezes, uma preparação. A responsabilidade disso, pela Lei do Estatuto da Criança e do Adolescente, é do Tribunal de Justiça, mas aqui em Pernambuco, diferente até de outros tribunais do país, os Grupos de Apoio são parceiros do Tribunal. Muitas vezes, nesses cursos de preparação, eles nos convocam para fazer depoimentos, falar dos principais desafios. Porque aí quando a criança, os filhos, os adolescentes, chegam, esses pais e mães, estarão de uma certa forma, melhor preparados”, explicita o presidente da Associação Pernambucana de Grupos de Apoio à Adoção (Apega), Charles Leite.

“Os grupos de apoio são espaços gestacionais, no tempo que se está aguardando e se preparando, tanto para os pais adotivos quanto para os pretendentes. Na adoção, o filho não vem do corpo, ele é incorporado, no psicológico, na alma, no DNA afetivo. E essa incorporação leva um tempinho. Então, os grupos de apoio a adoção são espaços gestacionais e são também espaços onde se pode receber apoio, suporte, orientação ativa, consolo nas horas de dificuldade, nas horas do pós-adoção, na chegada desse filho em casa, quando realmente a história desse filho começa”, reforça a psicóloga Suzana Schettini, que também é diretora técnica da Apega.

Processos

Para Karla, a demora do processo de adoção, apesar de dolorosa, é longa devido ao número reduzido de profissionais. “Vejo que é importante que as etapas sejam seguidas em virtude do benefício da criança. É um direito dessa criança poder voltar à convivência familiar quando lhe é permitido. O que acontece, infelizmente, é que o Poder Judiciário, é lento devido ao número muito reduzido de profissionais que possam dar conta do número de crianças que existem nas Casas de Acolhimento. Então, na verdade, o processo acaba sendo longo em virtude disso. O Judiciário, como não tem um número de servidores suficientes, então aqueles que ali estão, acabam se sobrecarregando”, considera.

Segundo dados divulgados pelo Conselho Nacional de Justiça, o estado de Pernambuco é hoje o sexto na classificação geral do que mais adotou. Do total de 2.402 crianças e adolescentes adotados no Brasil, no ano passado, por meio do Sistema Nacional de Adoção (SNA), 109 foram de Pernambuco. O estado ficou atrás apenas de São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Minas Gerais.

“Os desafios das pessoas, muitas vezes, são os de enfrentar as suas realidades. Muitos casos envolvem pessoas que antes de adotarem, tentaram filhos biologicamente e viveram a questão da infertilidade. Às vezes tem a não concepção, tem os abortamentos. Quando uma pessoa já sai de uma realidade de tentativa frustrada de geração natural, para adoção, sem estar devidamente trabalhada psicologicamente, geralmente é onde tem os casos de insucesso. Esses pais e essas mães colocam em seus filhos toda a pressão em cima das tentativas mal sucedidas. O Grupo de Apoio, ajuda a sociedade esclarecendo as etapas do que deve ser, as motivações nobres para se adotar os filhos”, explica Charles. A associação pode ser encontrada através do @apega.associacao, no Instagram.

Atualmente, Pernambuco possui 11 grupos de apoio, que atuam em dez comarcas, sendo: Olinda, Paulista, Moreno, Vitória, Gravatá, Caruaru, Garanhuns, Belo Jardim, Recife, e Jaboatão Dos Guararapes, com dois grupos.

Possibilidades

A psicóloga Suzana Schettini considera que a filiação é um processo que envolve impossibilidades transformadas em possibilidades. “A filiação por adoção do ponto de vista legal, ela é consolidada juridicamente. Mas ela é um fenômeno essencial psicológico. Tem muitos fatores que precisam ser considerados para que essa adoção tenha sucesso. É um caminho diferente que tem suas especificidades que precisam ser conhecidas pelos pretendentes de ação antes de iniciar o caminho. É um caminho onde os partícipes trazem dores. Muitas vezes as dores daqueles pais que não puderam gerar, são processos dolorosos. E, também aqueles filhos que não puderam permanecer em suas famílias naturais. É o encontro de duas impossibilidades. Filhos que não puderam permanecer nas suas famílias naturais e pessoas que não puderam gerar filhos. E com essas duas impossibilidades nasce a fantástica possibilidade da adoção”.

Atualmente, Karla, e sua família, estão em processo de aproximação com a filha. Ela recebeu a notícia de que a pequenina havia chegado em 19 de março deste ano, uma semana após perder o irmão para a Covid-19. “Hoje é isso que eu quero ter aqui na minha família: um amor conjunto, um amor coletivo, um amor único. Se essas pessoas querem ser pais, se elas querem dividir com alguém, com uma criança que seja pequena ou maior, que aceitem a adoção e que não desistam. O processo é longo? É! Mas que não desistam. Tudo acontece no momento que Deus determina para a gente. As coisas só acontecem no momento certo”. 

Neste estágio final do processo, a criança ainda continua vivendo na Casa de Acolhimento, como parte do processo de adaptação, mas todos os dias Karla e o marido buscam e levam a pequenina à escola, e já realizaram passeios para parques e praias. "A chegada dela foi e tem sido muito importante na vida da gente", finaliza.

O Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), orienta que as pessoas que decidirem adotar, devem acessar o endereço eletrônico (cnj.jus.br/sna) para fazer um pré-cadastramento. Na sequência é preciso entrar em contato com a Vara da região e se informar sobre os documentos necessários e a capacitação que precisa ser cumprida para protocolar um requerimento para adoção.
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