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PÁSCOA

Histórias de recomeço em meio à vacinação, esperança e renascimento

Publicado em: 03/04/2021 11:00 | Atualizado em: 03/04/2021 12:32

Vinícius Cavalcanti é estudante de direito e protestante (Foto: Hesíodo Góes/Esp.DP)
Vinícius Cavalcanti é estudante de direito e protestante (Foto: Hesíodo Góes/Esp.DP)
Há pouco mais de um ano, seria difícil imaginar que mudanças tão bruscas aconteceriam no mundo de forma tão rápida. Quase do dia para a noite, a pandemia da Covid-19 dominou a rotina dos pernambucanos, que, pelo segundo ano consecutivo, vão comemorar a Páscoa de forma diferente. Embora ainda estejamos longe da volta à normalidade, o início da vacinação também injeta uma sensação de renascimento e esperança por dias melhores, que condizem com o significado desta época.

"A chegada da pandemia ao Brasil foi também próximo a um período de Páscoa. Passou-se um ano, e agora estamos tendo a oportunidade de ter a vacina", relembra o estudante de direito, Vinícius Cavalcanti, 23. Ainda quando criança, o jovem foi adepto do candomblé, herança deixada pelos bisavós, que frequentavam o Terreiro Xambá, mas na adolescência ingressou no protestantismo e passou a participar do grupo musical da igreja, sendo o primeiro da família a tocar um instrumento. 

Foi através do contato com a guitarra que ele, junto a outros amigos, criou uma banda de rock gospel. Os ensaios, contudo, tiveram de ser interrompidos por causa da pandemia. A sensação de estranheza sobre a novo cotidiano ficou ainda mais evidente quando o jovem perdeu a avó paterna há pouco mais de um ano, vítima da Covid-19. 

"Às vezes, nós achamos que a doença é brincadeira, mas quando ela atinge um ente da família a gente passa a ter uma comoção e um cuidado maior. Fomos ao enterro no cemitério, mas não pudemos ir perto do caixão nem jogar flores. Foi algo bem suprimido de emoções, não tivemos o direito de enterrar um ente querido”, lamentou. 

Em meio à difícil perda, a esperança de que dias melhores virão chegou através da vacinação. Por residir em área adjacente ao Quilombo Portão do Gelo, que entrou no plano de imunização da Prefeitura de Olinda, o estudante recebeu a primeira dose da vacina contra a Covid-19 no último dia 26 de março.

"Muitas pessoas lutaram ao longo da história, de várias pandemias e epidemias, e a vacina se tornou um método milenar. A vacina é um símbolo de esperança para a gente nesta Páscoa, é um exemplo de como Cristo venceu a morte na cruz, e a gente pode vencer a morte também, através da vacina, dos cuidados e amando o próximo", pontuou o estudante, que acrescentou. 

"Temos que ter fé de que Deus está colocando pessoas aptas para trabalhar mutuamente, cientistas, médicos para trazer uma imunização muito grande para nós. Temos que pensar no bem coletivo, que é o que prevalece acima do bem individual". No contexto em que Pernambuco já contabilizou mais de 350 mil casos de pessoas contaminadas com o novo coronavírus e mais de 12 mil óbitos, pensar em formas de amenizar a dor e construir recomeços se torna essencial.
 
"Que esse recomeço possa vir junto à pandemia, de uma virada da população. A gente não pode, em um ano, achar que tudo acabou. É o momento de se apegar às vibrações boas e tocar a vida com os devidos cuidados". 

Praticar o bem no dia a dia

A rua sempre foi a segunda casa de Vera Prado. O contato com as pessoas no trajeto até o consultório onde atuava como psicóloga clínica terapeuta lhe renderam boas conversas, posteriormente, transformadas em histórias. A pandemia interrompeu temporariamente o cordão umbilical entre a aposentada e as vias públicas, que hoje são foco de exposição ao vírus. 

Vera Prado já tomou as duas doses da vacina contra a Covid-19 (Foto: Hesíodo Góes/Esp.DP)
Vera Prado já tomou as duas doses da vacina contra a Covid-19 (Foto: Hesíodo Góes/Esp.DP)
Para a moradora do bairro das Graças, na Zona Norte da Capital pernambucana, os tempos são quase distópicos. "Às vezes chego na janela e penso: não vejo uma cabeça nessas varandas. Por onde andam as pessoas desses prédios?", questiona, ainda buscando respostas difíceis de serem respondidas. 

Ainda assim, aos 77 anos, a psicóloga aposentada recebeu as duas doses da vacina e, junto a isso, veio o alívio, ainda que mantenha os cuidados contra a doença através do isolamento social com a família. "A imunização é de alta utilidade. É importante que as pessoas reconheçam isso, sejam vacinadas e executem no dia a dia o bem. É um ato de amor consciente para consigo", opina. 

Desde os seis anos de idade, Vera é adepta do espiritismo kardecista, religião que, diferentemente do catolicismo e do protestantismo, não celebra a Páscoa. Mas ela enxerga o período como uma oportunidade de refletir e renascer todos os dias. "É acreditar que eu posso ser bondosa e ajudar as pessoas. É também uma renovação para que possamos construir o bem e o amor. Precisamos viver com esse sentimento do bem, de amar, de acolher. Não tenho dinheiro, mas tenho amor e só o amor pode construir". 

Essas ações, quando colocadas em prática no dia a dia, beneficiam a sociedade e se fazem fidedignas à reflexão deixada pelas celebrações do mês de abril. "Esse período deve servir para tomarmos responsabilidades sobre os cuidados que devemos ter conosco e com os outros. Todos os dias precisamos estar conscientes de que somos membros ativos da sociedade. Amar ao próximo e respeitar é cuidar bem". 

"Ele gostaria que eu tocasse a minha vida"

As feridas abertas ao longo da pandemia modificaram o roteiro da vida de milhões de pessoas no mundo. A jornalista e articuladora cultural, Marileide Alves, 54, continua sentindo na pela os efeitos de uma despedida precoce e inesperada. Em fevereiro deste ano, o esposo e companheiro, Guitinho da Xambá - vocalista e articulador do grupo musical Bongar - faleceu em decorrência de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Ele estava internado para fazer uma cirurgia em decorrência da Síndrome de Cushing - doença rara, provocada por concentrações elevadas de cortisol.

A jornalista Marileide Alves acredita que o período pascoal serve de reflexão (Foto: Arnaldo Sette/Esp.DP)
A jornalista Marileide Alves acredita que o período pascoal serve de reflexão (Foto: Arnaldo Sette/Esp.DP)
Também vacinada com a primeira dose da vacina, por integrar o Terreiro Xambá, ela confia que as coisas vão melhorar. "Vamos voltar a ter uma vida normal, talvez não como antes, de início, mas ela é a esperança de que a gente vai voltar a se abraçar". 

Marileide e Guitinho compartilhavam de uma rotina intensa, com muitas programações voltadas à produção do grupo musical, além das atividades executadas no Centro Cultural Grupo Bongar - Nação Xambá, voltada à atenção e acolhimento cultural de crianças e adolescentes. Em 2018, as atenções foram divididas com a abertura da cafeteria Xêro Café e Arte. 

Em 2020, ano em que a pandemia se instalou no estado, somente as atividades administrativas continuaram em funcionamento no Centro Cultural. A renda do casal também foi afetada, uma vez que a presença do novo coronavírus impactou a continuidade dos shows e das demais atividades do setor cultural, assim como o funcionamento da cafeteria, que precisou ser fechada temporariamente por decreto estadual. A saída foi se reinventar através da realização de shows virtuais para continuar pagando as despesas essenciais, como médico, até o falecimento de Guitinho. 

"A gente conseguiu passar por 2020, mas em 2021, eu tive uma perda gigante que foi ele. Ainda sinto muito, choro. Dói, porque eu não pude beijar meu marido antes de ele ir embora”. Entretanto, o pensamento de manter viva a memória de Guitinho tem sido a força motriz para, aos poucos, Marileide retornar às atividades que ambos desempenhavam juntos. A jornalista deu uma pausa nos negócios envolvendo a cafeteria e retornou às demais frentes de atuação depois de um mês encarando o luto. 

"Ele era uma pessoa que gostaria que eu tocasse a vida. A gente vem de duas religiões que mostram que a vida não termina com a morte, que a verdadeira vida é a espiritual. Tenho certeza que ele não gostaria que eu ficasse triste eternamente. Que eu lembre dele com saudade, mas que toque a vida em frente. Ele sempre dizia que a cafeteira iria dar certo e que Bongar iria correr o mundo. Guitinho queria que a gente continuasse tocando tudo isso e é o que estou fazendo, agora também me reinventando sem ele ao meu lado fisicamente". 

Marileide conta que o companheiro mantinha afetividade pela cafeteria, localizada na rua Coronel João Ribeiro, em Bairro Novo, Olinda. Foi ele, inclusive, quem fez o show de abertura do estabelecimento junto ao Bongar. "Ele adorava receber os amigos na cafeteria e comer o que não podia. Reclamava que eu fazia comidas gostosas e não queria que ele comesse", diz Marileide, sorrindo em tom saudoso. 

Aos poucos, a jornalista vai encontrando conforto. "Deus foi misericordioso demais conosco para não deixá-lo sofrendo, porque ele sofreria. A gente é muito egoísta, eu pedia tanto para ele reagir, mas depois pensei: se ele reagir, ficará sem ser ele. Teremos nosso encontro no mundo espiritual depois, e isso vai me confortando”. Assim como foi Guitinho, ela também é adepta do Candomblé, além de manter influência do espiritismo kardecista, através de onde conheceu o esposo, em 2004. 

No candomblé existe o Ritual das Bolsas, período em que o terreiro é fechado por uma semana, e reaberto no domingo de Páscoa. "O candomblé e outras religiões carregam algo do catolicismo, porque foram muitos anos tendo que esconder seus deuses e orixás no formato dos santos e rituais católicos. Mas independentemente da religião, a Páscoa é um momento de reflexão sobre o momento que a gente está vivendo, sobre o que queremos para a nossa vida e para o mundo; a sociedade que queremos construir. Essa era a minha luta e a de Guitinho, juntos, de uma sociedade sem racismo, sem intolerância religiosa”. 



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