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COMPORTAMENTO

Com casos no Recife, maus-tratos de animais podem revelar indícios de psicopatia

Publicado em: 18/02/2021 18:50 | Atualizado em: 18/02/2021 20:50

 (Foto: Rômulo Chico/Esp. DP)
Foto: Rômulo Chico/Esp. DP

Pernambuco registra a marca de cerca de 100 casos por mês de maus-tratos a animais. O número triste, ainda subnotificado, é um apanhado de denúncias feito pela Delegacia de Polícia do Meio Ambiente (Depoma). Cinco meses após ser sancionada, a Lei 1.095, que assinalou medidas mais severas, ainda não conseguiu frear esta realidade criminosa. Culturalmente, segue vista como algo de menor potencial ofensivo, esbarrando na omissão e dificuldade para a identificação dos suspeitos. No Recife, nesta sexta-feira (19), a expectativa é pelo depoimento do jovem estudante de direito, suspeito da morte, com notória crueldade, de cinco gatos, em uma via movimentada da Capital. Para além da necessária punição, entender a mente de quem se propõe a atos assim ainda é objeto de estudo para especialistas.

“São homens e mulheres das mais diversas classes sociais, com diferentes cores de pele, profissões e idades. Hoje nós encontramos indivíduos que, aparentemente, se despuseram a adquirir, adotar ou acolher um animal. Mas que em determinado momento se colocam para torturar, espancar, mutilar e até matar os próprios bichos. E acabam fazendo isso também com animais de rua ou aqueles que eles nem sabem a origem”, explica a delegada Patrícia Porpino, à frente da Depoma. “As penas saltaram, dos três meses iniciais para até cinco anos de reclusão, além de multa. E hoje já prevemos um flagrante delito, sem arbitrar fiança. Instrumentos nós temos, o que falta é a adesão da sociedade”, afirma.

A aposentada Eunice, dedica parte da vida à paixão pelos animais (Foto: Rômulo Chico/Esp. DP)
A aposentada Eunice, dedica parte da vida à paixão pelos animais (Foto: Rômulo Chico/Esp. DP)


A delegada reconhece avanços na repressão a este tipo de prática, o que atribui a facilitação do acesso dos cidadãos comuns aos canais de denúncia. “Atualmente, além do caminho de apenas comparecer a uma unidade policial , é possível repassar informações a polícia de diversas formas, seja pelo whatsapp, pelo computador ou pelo telefone, tendo a garantia do anonimato. A repressão se tornou maior, mas faltam medidas de conscientização desde as crianças e jovens, entendendo que os animais também são seres vivos como nós”, afirma.

Na contramão da ilicitude e do desrespeito aos gatos, cachorros, cavalos, jumentos e todo tipo de animais encontrados nas ruas, diversos grupos da Região Metropolitana seguem reunindo forças para acolher e dar um pouco de dignidade aos amigos de quatro patas. Na tradicional Avenida Beira Rio, cortando bairros como a Madalena e Torre, na Zona Norte do Recife, o encontro no coreto ou a caminhada na pista de cooper divide espaço com cerca de 50 gatos. Por lá, reduto conhecido como abrigo há anos, cerca de 10 voluntários se revezam para evitar que os felinos, a maioria vítima do crime de abandono por seus donos, venham a morrer.

É a missão da aposentada, Maria Eunice Pereira, de 62 anos, uma das mais engajadas. Diariamente, ela deixa o seu lar, no bairro da Benfica, e se coloca, por horas, à disposição dos animais. “Nós organizamos os abrigos, cobrimos da chuva, limpamos os dejetos e preparamos uma comida gostosa e balanceada para que fiquem bem fortes”, conta, demonstrando satisfação. “Apesar de estarem bem cuidados, aqui é um ambiente de rua e o nosso propósito seria mesmo de poder dar a cada um deles um lar”, ressalta. O time do bem também conta com a corretora de imóveis, Gilvani Viana, 50, que reside no Parnamirim e divide o tempo com as atividades do trabalho e a convivência com os filhos. Para ela, as ações precisam ir além. “Além de consultas com veterinários, nos mobilizamos, juntos, para conseguir a castração, evitando esta superpopulação. As pessoas precisam entender que o nosso interesse aqui é de ajudar, assumindo um papel que deveria ser do poder público”, lembra.

Milena usa o alcance da internet para mobilizar adoções para os gatos (Foto: Rômulo Chico/Esp. DP)
Milena usa o alcance da internet para mobilizar adoções para os gatos (Foto: Rômulo Chico/Esp. DP)


O psiquiatra forense, José Brasileiro, estuda os transtornos de personalidade, sendo acostumado a lidar com casos que vão da pura maldade a patologias mais severas. Para ele, que também é médico do Hospital das Clínicas da UFPE, casos de maus-tratos gratuitos com animais podem sim ser traduzidos como psicopatia, mas é preciso analisar cada caso. “Em alguns diagnósticos, a maldade está associada ao caráter, sem necessariamente existir um registro de trauma anterior, seja em adultos, ou mesmo em adolescentes ou crianças. Os quadros psicóticos acometem pessoas que se relacionam normalmente no ambiente de casa, estudo ou trabalho, mas tendem a sentir prazer em atos ilícitos, podendo partir de animais para depois praticarem atos mais severos com seres humanos”, explica.

Conforme o psiquiatra, cerca de 40% dos indivíduos com transtorno de conduta conseguem melhorar quando recebem um devido acompanhamento clínico. “Em alguns quadros de esquizofrenia ou bipolaridade, por exemplo, é possível minimizar comportamentos agressivos. Mas, vale lembrar que indivíduos antissociais tendem a ser assim por toda a vida, já que não apresentam indícios de remorso ou qualquer arrependimento” destaca Brasileiro, que continua. “Precisamos separar bem o que é maldade e o transtorno de personalidade. O primeiro é formado por várias alterações genéticas, já descritas na literatura médica. Enquanto, as maldades humanas se evidenciam por rompantes relacionadas ao momento da vida do indivíduo”.

Investigação
A titular da Delegacia de Polícia do Meio Ambiente (Depoma), Isabela Porpino, deve ouvir, nas próximas horas, o estudante de direito, suspeito da morte cruel de gatos, na Zona Norte do Recife. O depoimento está previsto para ocorrer na sede da unidade, localizada no bairro de Tejipió. O jovem, alvo de inúmeras denúncias por meio das redes sociais, foi flagrado por câmeras do circuito de vigilância da Avenida Beira Rio, no momento em que praticava atos de tortura. Nas imagens, por volta das 3h, ele chega até o local em um veículo branco e, logo após estacionar, já se aproxima dos animais iniciando um roteiro de chutes, pisadas e até esmagamentos a mão. A ação durou cerca de uma hora, vitimando um adulto e quatro filhotes, sem ser interrompida por transeuntes ou qualquer força de segurança.

Apoio
Perfis de projetos voluntários, como o @adotavai e @gatinhosurbanos, podem ser encontrados no Instagram, concentrando centenas de seguidores. Além da divulgação da causa animal, o objetivo é alimentar, dar o máximo de cuidado possível a eles na rua e conseguir adoção.

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