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Covid-19

Finados: O doloroso luto pelas mortes sem direito a despedida na pandemia

Publicado em: 02/11/2020 12:01 | Atualizado em: 02/11/2020 12:06

 (Foto: Peu Ricardo/Arquivo DP)
Foto: Peu Ricardo/Arquivo DP
Finitude tem origem na palavra finito que significa aquilo que tem um fim, que é efêmero. Todos nós somos seres e sabemos disso, mas nem sempre conseguimos lidar com o fim da vida de um ente querido. Mesmo sabendo que nós não somos eternos é difícil lidar com o fim. Para passar por esse processo, usamos o luto como uma forma de viver e superar momentos tão difíceis. Mas esse processo de entendimento e aceitação da perda foi diretamente afetado com a pandemia da Covid-19.

A psicóloga Janaína Gerônimo esclarece que o luto é um processo natural relativo ao rompimento de um vínculo. Ela explica ainda que esse momento de perda tem algumas fases. “Ele tem a fase da negação, raiva, depressão e, por fim, a aceitação. Uma pessoa em luto precisa e deve vivenciar sua dor, mas cada um possui o seu tempo. Esse andamento se faz necessário para que, quando todas essas fases passarem, ficará somente as boas lembranças daquela pessoa que se foi”.

A chegada da pandemia da Covid-19 virou de cabeça para baixo o que era conhecido como processo do luto. Velórios e sepultamentos a toque de caixa e com presença de parentes limitada fizeram com que vivenciar o luto e todo o processo que envolve a perda, só seja possível reinventando a forma de dizer adeus. “Sobre o luto na pandemia, a sensação é ainda maior devido à falta da despedida, pois é nela que a etapa do enfrentamento da perda se dá”, ressalta a psicóloga.

Os familiares de Emanuel Carlos, 57, vítima da Covid-19, contam que o servidor da Fundarpe apresentou, em princípio, sintomas de uma forte gripe e teve uma piora repentina, desmaiando em sua casa. “Zola [como era chamado pela família] faleceu no dia 5 de junho e minha sogra, irmã dele, fazia aniversário no dia seguinte. Ninguém esperava porque ele era um cara muito forte. Foi tudo muito sofrido porque nós moramos nos Estados Unidos e não podíamos estar presentes. Meu marido quis voltar para o Brasil e poder ficar com a mãe que estava muito abalada. As pessoas acham que é fácil, mas não é”, desabafa Jéssica Tavares, familiar de Emanuel.

Luto é necessário para fechar ciclo

Por fazer parte da nossa cultura como outras formas de rituais e celebrações, é preciso que o ser humano passe pelo processo de luto, mesmo que de maneira reinventada para respeitar os protocolos sanitários e, dessa forma, conseguir fechar um ciclo da vida.

“O luto e os processos que estão envoltos fazem parte da vida como outras celebrações e ritos. Isto é, da mesma forma que celebramos nascimento, casamento e etc, a ‘celebração’ da morte, que vai envolver isso que a gente chama de luto, também vai ser presente para significar e dar sentido a esse momento”, explica Denilson Moraes, estudioso do Programa de Educação Tutorial (PET) de Ciências Sociais e do Observatório de Cultura, Religiosidades e Emoções (OCRE) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Esse momento no tempo em que vivemos teve o sentimento intensificado, tanto para as famílias que já estavam sem o contato presencial como também para os que estavam em contato direto, devido ao afastamento proporcionado pelo confinamento.

“Tradicionalmente, a morte por doença mobiliza a família para acompanhar a fase terminal e a Covid-19 também retirou esse momento. O que acontecia era que a morte era seguida por uma volta ao normal que envolvia ir para o trabalho, faculdade e entre outros momentos do cotidiano. Agora não mais. E isso talvez faça com que esse processo de luto se prolongue.”, explicou  Denilson.

Para a psiquiatra Kátia Petribú, muitos pacientes procuram atendimento após a perda de familiares, seja ou não por Covid-19, já com queixas de grande sofrimento psíquico.

“O grande problema do luto de quem perdeu parentes na pandemia é a quebra dos rituais. A Covid é uma doença grave, letal em muitos casos, e foi muito doloroso para muitas pessoas não verem o ciclo da morte se fechar olhando para o seu familiar e o enterrando em seguida”, observou Petribú.

Perdas pela Covid-19 ainda machucam

Oito meses após o desembarque da pandemia da Covid-19 em Pernambuco, as sequelas emocionais ainda assombram profissionais de saúde que atuam na linha de frente. Perda de colegas de trabalho, amigos, familiares e pacientes trouxe um significado diferente para aqueles que enfrentam a batalha contra a doença todos os dias.

Nem toda a preparação da profissão foi capaz de prever tal estado de calamidade sanitária que o mundo enfrentou. Por trás dos equipamentos de proteção, existiam frustrações, perdas, pressão e muito, mas muito cansaço físico e emocional. É o que diz o técnico em enfermagem Eduardo Quintas, que perdeu o ex-sogro, colegas de trabalho e amigos próximos após contraírem o coronavírus.

“No começo foi muito complicado porque acompanhamos toda a evolução da pandemia, ninguém sabia nada sobre o vírus, como se cuidava, qual medicação tomar ou indicar, além das dificuldades para conseguir equipamentos e testes. Nós não aguentamos ver o caos acontecendo”, contou.

Com a alta nos casos durante o pico da pandemia, e cada vez mais pessoas sendo vitimadas pelo vírus, Eduardo se viu abalado pela morte de amigos próximos e de pacientes. O hospital em que trabalha, o Agamenon Magalhães, se tornou referência no tratamento da doença.

“Sempre foi muito difícil essa missão de salvar vidas, mas uma das situações que mais perturbou foi o fato da gente não poder se despedir das pessoas, não ter um velório, nada. Era o caso de perder pessoas que nos importamos e ter que seguir em frente porque tínhamos outras vidas para salvar”, desabafou.

De acordo com a psicóloga do luto Simone Lira, o luto dos profissionais de saúde não é reconhecido socialmente.

“A sociedade acredita que a medicina é feita para curar, e se não há cura é tratado como se fosse um insucesso. Eles [os profissionais] estão ali, imersos na vulnerabilidade do medo e quando perdem alguém, algum paciente e não podem se expressar, vão guardando aquele sentimento, que pode resultar em um adoecimento mais à frente”, explica.

Ainda segundo Simone, o luto tem reações diferenciadas em cada pessoa, mas que durante a pandemia grupos foram criados para atender especialmente profissionais da área de saúde.

“O luto é um processo individual onde cada um vai vivenciar de uma forma diferente. Durante o isolamento, há uma impossibilidade de despedida. A morte repentina para as famílias que têm profissionais de saúde também pode causar um sentimento de culpa. Neste caso, é recomendado para o pessoal que trabalha na linha de frente tentar expressar e reconhecer que esse luto é válido, se autorizar a sentir essas dores e abrir esse espaço. Se não acharem um local comum para ser acolhido, eles podem recorrer aos grupos de pessoas enlutadas pela Covid com um acompanhamento profissional”, sugere.

Recife e Olinda sem missas nos cemitérios

A tradicional Santa Missa Pelos Fiéis Falecidos nos cemitérios do Recife não vai acontecer hoje. Atendendo a um comunicado da Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb), que apontou inviabilidade de celebrações nas necrópoles por conta da pandemia da Covid-19, a Arquidiocese de Olinda e Recife resolvou suspender as celebrações.

A visitação nos cemitérios públicos da Capital será das 7h às 18h. O uso de máscaras de proteção será obrigatório para todos que transitarem nos locais. A Prefeitura administra cinco cemitérios: Casa Amarela, Parque das Flores, Santo Amaro, Tejipió e Várzea.

As missas, no entanto, seguem normais nas três paróquias no Recife e uma em Camaragibe, na Região Metropolitana, celebradas pelo Arcebispo Dom Fernando Saburido e pelo Bispo Auxiliar, Dom Limacêdo Antônio.

Dom Fernando estará na Matriz de São Sebastião, na Avenida Norte, bairro de Santo Amaro, às 10h, e na Matriz de Santa Isabel, no Alto Santa Isabel, em Casa Amarela, às 16h.

Já Dom Limacêdo vai fazer a celebração na Matriz de São João Batista, no bairro do Sancho, na Zona Oeste, às 10h, e na Matriz de São Pio X, em Camaragibe, às 19h.

OLINDA

Nos dois cemitérios públicos - Guadalupe e Águas Compridas, a permissão é de acesso para até 100 pessoas por vez. Na entrada, receberão álcool em gel e o uso de máscara será obrigatório. O tempo de permanência no interior das necrópoles será de, no máximo, uma hora. Para tanto, a Prefeitura terá funcionários no interior dos locais orientando a população. A orientação é para as pessoas que fazem parte do grupo de risco evitem a visita. As missas estão suspensas.

Para os velórios serão montados toldos e não será permitida a presença de mais de dez pessoas por sepultamento. Os cemitérios vão funcionar das 8h às 17h e são esperadas mil pessoas em cada um no próximo dia 2.

JABOATÃO

Os cemitérios de Jaboatão funcionarão das 8h às 17 e quem for encontrará medidas de segurança. Nas entradas, saídas e pontos estratégicos, será disponibilizado álcool em gel 70% e será obrigatório o uso de máscaras para os visitantes. Funcionários também receberão protetores faciais tipo face shield.

Outra medida contra a disseminação da Covid-19 é a limpeza e desinfecção constante dos velórios, banheiros, equipamentos e superfícies com uso de água sanitária, álcool 70% ou outro desinfetante autorizado pelo Ministério da Saúde. Os bebedouros coletivos que dispensam água e que exigem aproximação da boca para ingestão estarão lacrados.

 


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