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Dia de Finados

Cemitério de Santo Amaro tem movimento menor que em anos anteriores

Publicado em: 02/11/2020 14:41 | Atualizado em: 02/11/2020 15:03

 (Arnaldo Sete/Especial DP)
Arnaldo Sete/Especial DP
Saudades, recordações e memórias de momentos especiais estão entre os principais motivos que levam milhares de pessoas para os cemitérios do estado, neste Dia de Finados, para prestarem homenagens aos que já se foram. Nesta segunda-feira (2), o Cemitério de Santo Amaro recebeu a visita de milhares de pessoas. Com novas regras sanitárias de segurança, este ano os visitantes precisam usar máscara, álcool em gel e respeitar o distanciamento social.

Para Maria da Conceição Alves, conhecida como Ceça, moradora do bairro Alto Santa Terezinha, no Recife, e que perdeu a mãe há 14 anos, ir ao cemitério é um gesto de carinho. “A gente se lembra todos os dias. A saudade é grande. Mãe é só uma. Se vai e não volta mais. A saudade é eterna. Aqui a gente relembra. Eu relembro todos os dias. É um gesto de carinho meu, como se eu estivesse visitando ela”.

Acompanhada de suas duas irmãs, que também compartilham do sentimento, como conta Josirene Alves da Silva, 58 anos. “Muita saudade, pois o que a gente perde não volta mais. Mas se eu pudesse eu estaria todos os dias aqui. Porque perder a mãe é uma coisa muito grande. Venho sempre que posso. Recordação a gente sempre tem, pois a gente não esquece. Mãe a gente não esquece”, diz. A irmã mais velha de dona Maria e dona Josirene, chamada Maria Anunciada Alves da Silva, 62 anos, conta que a sua ida ao cemitério se dá também pela perda da filha.

“Eu perdi minha filha quando ela tinha 22 anos. Foi uma gravidez de alto risco. Perdi meu neto também. A memoria dela está sempre viva, pois a gente só perde quando se vai também. Enquanto se está vivo têm as lembranças. Tem a saudade que é grande, principalmente nessa época de final de ano que aperta mais ainda”.  Dona Maria Anunciada conta que sua filha faleceu há 11 anos, quando estava gravida de sete meses. “Ela tinha anemia muito forte e veio a H1N1. A gravidez foi muito complicada. Era para o médico ter interrompido a gravidez, mas não interrompeu. Com Jesus na vida, a gente vai convivendo com a saudade e ausência”, relata.

Ausência é o que também sente a aposentada Cristina Ribeiro, de 70 anos, que foi abandonada pela mãe biológica com dois dias de vida. “Minha mãe me colocou numa caixa de sapato, na linha do trem, em Afogados. Faltavam dois minutos para o trem sair. Quem me tirou foi um senhor. Eu fui criada em orfanato, fui maltratada e sofri muito”, conta. A mulher, que fugiu do orfanato posteriormente, afirma que todas as bênçãos da sua vida se dão por conta da Menina Sem Nome.

A história desse caso está ligado a um assassinato ocorrido nos anos 1970, quando um corpo de uma criança do sexo feminino foi encontrado na Praia do Pina, no Recife, e não foi identificado. Os restos mortais da criança foram sepultados em 2 de junho daquele ano, e desde então ganhou reconhecimento mundial, com atribuições de milagres.  “A gente sabe que isso aqui é uma passagem. Nosso dia vai chegar, como o de todo mundo. Enquanto não chega, vamos lembrar. Quero que as pessoas confiem [na Menina Sem Nome], como eu tenho fé, tudo que eu quero eu consigo. Temos que ter fé. Lembrando de uma pessoa, ela está viva para você. Tem tanta gente que é esquecida, pois ninguém lembra. Mas a gente lembra”, acrescenta a aposentada.

Aos 28 anos de idade, com uma doença nos rins, Irma Costa Silva, que hoje tem 63 anos, relata ter sido abençoada pela Menina Sem Nome através de um pedido da sua mãe. “Eu estava para morrer e minha mãe fez um pedido a ela, e hoje em dia estou viva por causa da força dela. Recebi muito milagre, muito mesmo. Desde essa época eu sempre venho agradecer. Tudo isso depende da fé. Se não tiver fé não adianta não. Não adianta ascender vela se não tem fé. A fé vale tudo”, pontua. Na sepultara da Menina Sem Nome havia muitos brinquedos, presentes dados pelos visitantes e diversas demonstrações de fé. 

O maior cemitério do Recife também resguarda túmulos de ícones da sociedade pernambucana. Como é o caso do cantor Chico Science, precursor do Movimento Manguebeat, iniciado na década de 1990, que morreu num acidente de carro.

“O cara levou a música pernambucana para o mundo. Eu sempre venho aqui. Eu já vinha desde a morte dele. É uma satisfação pessoal vir pra cá, e uma homenagem à cultura. Hastear a bandeira desse movimento que sou fã e presto essa homenagem a ele”, conta Pereira Junior, 39 anos que presta homenagem há 12 anos caraterizado com as roupas do cantor.

Quem também é fã do cantor é Ana Cristina da Rocha, 54 anos, que conta que ao ver a homenagem de Pereira Junior é como ver o próprio artista. “Ele é imortalizado. O galo da madrugada mesmo tem que tocar [Chico Science]. E quando toca é impossível ficar parada. Sempre que venho aqui vejo ele [Pereira Junior], e é como se a gente estivesse vendo mesmo o artista. Eu tenho várias familiares aqui e tenho essa cultura de rezar e prestar homenagem”, revela.

Ana Cristina já enterrou seis pessoas da sua família, entre pai, mãe, irmão e sobrinhos. “No meu intimo, eles esperam uma visita nossa aqui no dia de hoje. E se você não dá essa valorização, as almas entristecem. Talvez seja meio bobo, mas eu acho que aqui é território sagrado. Porque você ora pelos seus e por aqueles que já foram. A oração ilumina as almas. Ilumina o caminho das almas. Então temos que orar para que as almas consigam achar o caminho da salvação e aliviar o sofrimento da escuridão que muitos se encontram. O corpo é só um espaço que a alma ocupa. Quando ele se vai, a alma continua viva. Então a alma é eterna”, conta Ana Cristina.

O Dia de Finados é também uma oportunidade para ganhar dinheiro. Trabalhando há dois anos como limpador de sepulturas, Bruno Ítalo Gomes, 24 anos, fala do sentimento de ajudar as famílias que precisam de um alento. “É bom que a gente ajuda ao próximo e a gente mesmo. Recebe um dinheirinho para colocar comida na mesa. E também ajudar a quem precisa”, fala. Bruno conta com a ajuda do filho João Victor, de 11 anos, na limpeza das covas. “Eu limpo as covas para as pessoas e quem não tem dinheiro, pego apenas cinco reais pra limpar. Quando a gente morre tem que ter pelo menos um conforto, né? Não tem dinheiro que pague isso não”, acrescenta.

Dona Edleuza Lima da Silva, de 71 anos, foi homenagear seu marido e filho, que faleceram há dois anos. Ela aproveitou a oportunidade para passar no túmulo do político Miguel Arraes, que ajudou sua família. “Meu pai trabalhou com Miguel Arraes na Assembleia Legislativa. Todo ano eu venho aqui prestar essa homenagem, pois ele colocou muita comida em minha casa”, relata. “Meu pai trabalhava com ele. Não posso esquecer de quem era bom. E estou sempre vindo aqui prestar essa homenagem e espero que o espirito dele esteja acompanhado com Deus”, afirma dona Edleuza.

Nesta pandemia, muitas pessoas perderam seus familiares para a Covid-19. A doença que já ultrapassou mais de 160 mil óbitos, também acometeu a mãe do biomédico Arlindo Ratis, 59 anos. “É difícil esse período, até porque eu sou biomédico e trabalho dentro de hospital. Então foi difícil também quando ela estava viva, para lidar com isso [Covid-19]. O que a gente diz as pessoas no dia-a-dia, é para terem muito cuidado e muita atenção, pois é uma doença muito difícil. Às vezes ilude as pessoas. Até eu, que sou da área de saúde, muitas vezes ficava procurando um sinal ou algum sintoma em mamãe e eu não via. E de repente eu fui surpreendido”, revela.

“Ela já tinha outros doenças preexistentes, e essa doença complica ainda mais e potencializa. Minha mãe ficou sem imunidade e aí pegou outras doenças. Realmente foi uma coisa muito rápida e muito dolorida, porque você fica afastado. Com a Covid você fica numa UTI fechada, você quase não tem notícias. O próprio internamento, o próprio enterro, que não temos condições colocar nem uma rosa. Eu digo a todos que tenham muito cuidado, muita atenção, é uma doença que deixa marcas profundas na gente, até para aqueles que vão ficar curados. É difícil. Então as pessoas têm que ter muito cuidado, é isso que a gente deixa de lição para que as pessoas não se iludam, achando que já passou. Fiquem com a guarda sempre alta”, pontua o biomédico Arlindo Ratis.

Sobre as novas normas de segurança, o Diretor Administrativo Financeiro da Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb) Adriano Freitas, afirma que no Cemitério Santo Amaro há um movimento calmo. “O que percebemos que é no sábado e no domingo, houve um movimento pouco mais que o usual, se comparado na semana passada. Hoje está um pouco mais calmo, se comparado ao ano passado. A gente não percebe concentração, porque não tem missa. Como são três acessos, então há um fluxo de pessoas. Mas tudo está saindo como previsto. As pessoas vêm na tranquilidade, com máscara, tem álcool em gel, todos seguindo as regras”, afirma.


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