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PROTEÇÃO

Comunidade do Pilar: uma guerra contra o vírus e a pobreza

Publicado em: 01/04/2020 08:37 | Atualizado em: 02/04/2020 19:56

 (Foto: Hesíodo Goes/Esp DP)
Foto: Hesíodo Goes/Esp DP
O isolamento imposto pela crise do coronavírus revela ainda mais a desigualdade social que atinge comunidades como o Pilar, no Bairro do Recife. Da Rua Primavera, transversal à Rua do Brum, é possível ver a sede da prefeitura. A via divide a antiga fábrica da Pilar, que inspirou o nome do local*, e um conjunto residencial construído no coração da comunidade, abrigando alguns antigos ocupantes de barracos a localidade. No momento em que a equipe do Diario chegou, crianças brincavam descalças na rua e adultos conversavam sentados nas calçadas. Poucos circulam usando máscaras.

Do alto de um corredor no primeiro andar, em um dos blocos, Maria Lúcia Gomes, 62 anos, aposentada, observa de máscara o movimento na rua e a entrada do seu prédio.  “Eu tenho varizes e feridas nas pernas, aí não posso andar muito”, disse. Ela mora sozinha em um apartamento com um quarto, sala, cozinha e banheiro.

“Quando eu quero alguma coisa eu ligo para uns parentes que vêm trazer comida, álcool em gel e remédio”, relatou a idosa. Moradora do Pilar há 30 anos, Maria Lúcia sentiu o início do isolamento social na pele quando foi abordada pela polícia. “Semana passada eu fui à pracinha, aí o carro da polícia passou e me mandou voltar”, disse.

A aposentada afirma que está se cuidando como pode contra o coronavírus, mas que ficar o tempo todo no apartamento incomoda. “É um calor danado dentro de casa, aí às vezes eu venho aqui no corredor tomar um vento”, conta. A companhia são um garoto de 17 anos e uma jovem de 16, seus vizinhos. “Eles vêm aqui conversar comigo. São como se fossem meus netos”, diz.

Leandra Patrícia, 40, trabalha como ambulante e faz bicos como manicure. Ela destaca o trabalho das ONGs e empresas junto à comunidade. “O pessoal da Ponte entregou algumas cestas na semana passada. O Porto Digital também”, afirmou. Na última sexta-feira (27), a ONG Visão Mundial fez uma ação junto à Pilar distribuindo kits com material de prevenção contra a contaminação, como álcool em gel, desinfetante e álcool para limpeza. A organização também distribuiu cestas básicas.

Jairo Walterlan da Silva, 28, não tem emprego fixo. Ele conta que a falta de trabalho formal é um problema crônico da comunidade. “Boa parte das pessoas daqui está desempregada. O pessoal trabalha com comércio, vendendo bebida. Com essa situação toda, todo mundo está sem ter de onde tirar o sustento”, relatou. Segundo ele, seus vizinhos estão procurando se cuidar na medida do possível. “A gente busca lavar as mãos e zela para os mais velhos não irem muito à rua”, contou.

Rosineide Santana, 59, tem artrose e faz terapia no posto de saúde da localidade. Ela teve que parar o tratamento por conta da pandemia. “Não estou podendo mais ir desde que essa situação começou”, disse. Auxiliar de serviços gerais, está desempregada e recebe Bolsa Família. Mora com um filho adulto e dorme na sala de casa, juntando cadeiras numa cama improvisada.

“Vendo picolé a R$ 1 para conseguir alguma coisa a mais”, disse, mostrando um pote de plástico com o fruto do trabalho: R$ 4. Durante o isolamento, ela fica na porta de casa vendendo os picolés para quem passa na rua. “Essa doença nova aí dá um pouquinho de medo, mas Deus é grande e não vai acontecer nada de mais com a gente”, acredita. Ao saber da história de Rosineide, uma recifense que preferiu não se identificar decidiu presenteá-la com uma cama.
 
NOTA: o leitor Flavio Schuler, guia turístico, nos enviou a informação de que o nome Pilar é proveniente da Igreja de Nossa Senhora do Pilar, templo construído sobre o Forte de São Jorge, em 1680. A fortificação existia naquela área hoje ocupada pela comunidade.
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