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Para garantir o sustento, moradores de Brasília Teimosa ignoram quarentena

Publicado em: 26/03/2020 09:49 | Atualizado em: 26/03/2020 18:41

Idosas tentam se proteger com máscaras na comunidade (Foto: Bruna Costa / Esp. DP)
Idosas tentam se proteger com máscaras na comunidade (Foto: Bruna Costa / Esp. DP)

 
O Governo de Pernambuco decretou o fechamento compulsório do comércio em meio à crise do coronavírus. A medida, iniciada na última segunda-feira (23), seria para intensificar o distanciamento social, precaução necessária. Porém, em Brasília Teimosa, Zona Sul do Recife, a população não tem ficado dentro de casa. Na tarde da quarta-feira (25), na Rua Arabaiana, uma das principais do comércio local, algumas lojas abriram, aproveitando o fluxo de pessoas. 

Anderson Moraes, 36 anos, é dono de uma pequena gráfica no local, que funciona em um espaço de poucos metros quadrados. Ele diz estar preocupado com o avanço do coronavírus, mas que os estabelecimentos na rua onde trabalha têm funcionado. “De manhã estão abrindo normal, de tarde que tem uma diminuição. À noite é que estão fechando tudo, não fica ninguém aqui”, relatou.

Moraes demonstrou preocupação com os idosos, que estão no grupo de maior risco de complicações pelo novo coronavírus. “Nós temos que proteger nossos pais, avós, mas o jovem, infelizmente, tem que trabalhar”, disse. O relojoeiro Antônio José, 60 anos, trabalha na mesma rua e está na faixa etária de maior perigo da Covid-19, mas sua maior preocupação é com o sustento da família no período de isolamento. “Eu quero perguntar ao governador Paulo Câmara como é que a gente fica em casa? Eu tenho oito filhos, preciso levar comida para a mesa. É muito fácil pedir para não sair, mas a gente vai ter ajuda?”, questionou.  

Durante a reportagem, Antônio Santos, 45 anos, desviava dos muitos pedestres na Rua Arabaiana, pedalando uma bicicleta de som. Ele tocava um informe da Prefeitura do Recife pedindo para a população ficar dentro de suas casas. “O pessoal, você tá vendo aí, não quer ajudar”, lamentou.

Ele, que é dono de uma pequena galeria no fim da mesma rua, também está sofrendo o impacto econômico causado pela quarentena. “Não posso cobrar aluguel nem da loja de moda praia, nem dessa de sandália, nem da ótica, nem da peixaria. Só a de açaí tá aberta, fazendo entrega”, relatou Santos.

O pequeno empresário também contou que uma moradora da comunidade chegou a ser ameaçada de morte por ter voltado de viagem com sintomas de gripe. “Ela teve que sair daqui porque o povo queria matar. Mas ninguém tem culpa de ficar doente, né?”, disse Antônio Santos. A reportagem tentou contato com a mulher que teria sido ameaçada, mas não obteve resposta. A identidade dela, que não foi confirmada como portadora do novo coronavírus, será preservada.

Rosimere Gomes, 35 anos, moradora da Avenida Brasília Formosa, na beira mar. Ela passava a tarde lado da mãe e irmãos,  sentados em cadeiras de plástico na porta de casa. Gomes contou que no dia 21, quando o governo decretou o fechamento, ela colocou a sua banca na calçada em frente à sua residência, mas a polícia ordenou para que recolhesse o material.

“Passou aqui e mandou fechar. Aí não posso trabalhar, estou esperando alguma providência. A gente que vive do comércio fica prejudicado nessa situação”, reclamou. Quanto ao perigo do coronavírus, ela disse que está tomando os cuidados recomendados pela Ministério da Saúde, lavando as mãos e evitando aglomerações. “Acho que depois do carnaval que isso espalhou, né? Mas se eu ficar doente, não vou me isolar. Me perdoe”, disse.

Jaldenite da Silva, 67 anos, tem uma barraca na praia do Buraco da Velha, principal ponto turístico do bairro. O ponto dela não está funcionando, por conta da proibição do comércio de praia. A vendedora diz estar assustada com o que alega ser “falta de informação” por parte do governo. “Não passou ninguém falando nada, orientando nada”, contou. Seu Pipa, 62, companheiro dela, vende mochilas em um quiosque no centro do Recife. “O governo federal disse que ia dar R$ 200 por mês para a gente comer. Minha família tem muita gente, esse dinheiro é só o que eu gasto por dia comprando bolsa para vender”, relatou.

Na Avenida Brasília Formosa, na praia, um grupo de homens jogava futebol normalmente. “Esse jogo é apostando, a gente tem que garantir algum. Sem trabalhar tem que fazer isso para passar o tempo”, falou, em tom de brincadeira, o autônomo Iran Rodrigo, 43 anos. Ele também reclamou da falta de informação sobre a quarentena. “Não passa ninguém aqui falando o que a gente deve fazer, só a polícia revistando”, disse.
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