Vida Urbana
Superação
Livro 'Nas asas da liberdade' reúne poesias de cordel escritas por detentos
Publicado: 17/12/2019 às 08:02
/Foto: Cortesia.

Versos sobre liberdade abrem espaço para a esperança em presídios da Região Metropolitana do Recife (RMR). Através de oficinas de poesia ministradas pelo escritor Edgar Diniz, cerca de 140 reeducandos traduzem em palavras seus sentimentos sobre os dias de cárcere e os planos para quando forem libertos. O resultado de mais de um ano de trabalho em seis unidades prisionais está reproduzido nas 128 páginas do livro Nas asas da liberdade. A primeira tiragem foi distribuída em um lançamento interno nos presídios. No próximo ano, o projeto deve atender a novas turmas para a publicação de uma segunda edição.
Tornar os detentos protagonistas de suas próprias histórias de vida por meio da poesia é um dos objetivos de Edgar Diniz. A proposta nasceu após o convite da Secretaria Estadual de Educação para que o escritor levasse o projeto Educando em Cordel às colônias penais, já que há mais de dez anos o poeta trabalha a poesia popular nas escolas da rede estadual. No começo de 2018 começaram as primeiras aulas nos presídios. Durante esse período, os apenados aprenderam a construir versos em formato de cordel.
O livro Nas asas da liberdade é resultado desse trabalho e reúne poesias que falam sobre saudade, amor, liberdade, superação e esperança. “O que mais surpreende é que eles não se achavam capazes. Mas depois que conseguem ver o resultado, mesmo diante da dificuldade, eles encontram a beleza que existe na poesia. Esse projeto prova que mesmo sem liberdade eles podem ser escritores e até já têm seus nomes gravados em um livro. Isso significa que todos podem se tornar protagonistas mesmo diante da baixa autoestima. É possível acolher essa mudança interna”, comenta Edgar Diniz, professor ligado à Gerência Metropolitana Norte da Secretaria de Educação de Pernambuco.
Para Cínthia Thamires, de 27 anos, que cumpre pena na Colônia Prisional Feminina de Abreu e Lima (CPFAL) há sete anos por tráfico de drogas, ver seus versos de cordel publicados em um livro representa o recomeço. No livro, ela escreve sobre saudade: "Eu vivi em um jardim/Com árvores de saudade/Quando dele então saí/Procurei felicidade/Encontrei presente lindo/Tão sonhada liberdade".
No ano que vem, após progressão de pena, ela começa a cumprir o regime semiaberto e já traça planos. “Eu já me interessava por leitura e gostava de escrever. Durante as oficinas eu recebi o aprimoramento. Foi um período interessante porque consegui libertar as palavras da minha mente. Quando sair, pretendo trabalhar para mim mesma, talvez até escrevendo mesmo”, almeja.
Participando das oficinas, os detentos podem aplicar remissão pela leitura, direito previsto na Lei de Execução Penal que possibilita a redução da pena a partir da realização de atividade complementar. Após a produção das poesias, equipes da Secretaria Estadual de Educação, do Curso Fernanda Pessoa e do Porto Social, que apoiam o projeto, publicaram uma primeira tiragem em um lançamento interno.
As 24 unidades prisionais dos estados têm biblioteca e possibilidade de remissão, de acordo com a Secretaria de Ressocialização. “Os reeducandos têm possibilidade de ler livros, produzirem uma resenha, que será avaliada por professores da Secretaria Estadual de Educação e, dependendo da nota, podem ter a pena reduzida. Quem caminha no campo da literatura já não tem mais a mesma vida. Temos muita satisfação de oferecer essa oportunidade. A maioria da comunidade prisional não terminou nem o ensino fundamental e carece de incentivo à educação”, diz o secretário de Justiça e Direitos Humanos do estado, Pedro Eurico.
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