Vida Urbana
Arqueologia
Técnicas de produção de vasilhames eram marcadores identitários e culturais dos Tupiguarani
Publicado: 26/11/2019 às 08:00
Foto: Giseli Costa/Acervo Pessoal./
Sob orientação e coorientação dos professores Viviane Maria Cavalcanti de Castro e Ricardo Pinto de Medeiros, a pesquisa intitulada “A iconografia cerâmica como marcador identitário dos grupos ceramistas Tupiguarani em Pernambuco” reuniu e analisou 191 fragmentos extraídos de 15 sítios arqueológicos, localizados no litoral, na Zona da Mata, no Agreste e no Sertão pernambucanos, para analisar as produções tecnológicas, morfológicas e decorativas, além dos motivos iconográficos por trás de cada peça, com o objetivo de reproduzi-las, resultando em uma amostra de imagens referentes aos sítios Tupiguarani no Estado. No entanto, apenas 57 das partes desses artefatos puderam ser analisadas e reproduzidas em razão dos desgastes localizados nas superfícies das peças.
O material coletado representa locais regionais distantes, com diferenças sociais e culturais, mas, mesmo assim, nota-se um padrão nos artefatos históricos. “Sobre a relação dos indivíduos com o universo das crenças, inferimos que, embora estivessem distantes regionalmente, eles compartilhavam das mesmas aptidões voltadas a utilizar a cultura material em atividades utilitárias e simbólicas”, afirma Giseli.
A pesquisa aponta que a matéria-prima utilizada em suma na produção cerâmica era a argila; já em relação à técnica manufatureira, observou-se dois tipos: a técnica roletada e modelada, sendo a primeira uma “sobreposição de roletes de argila que dão forma ao vaso” e a segunda, uma “sobreposição dos pedaços de argila”. No tratar da superfície, era preferível o aspecto alisado com o intuito de ser posteriormente decorado. A decoração dos pratos, a pintura e os desenhos realizados são a carga simbólica e identificatória que caracterizam a produção cerâmica dos Tupiguarani. A autora oberva que “os indivíduos conseguiram refletir na iconografia um domínio da técnica de confecção e decoração dos vasilhames que segue um mesmo rigor”.
O estudo revela, ainda, que na arte do preparo da superfície do vasilhame e da pintura, os motivos iconográficos “apresentam-se de forma organizada a ponto de perceber que não há sobreposições e sim delimitações de espaços específicos pra cada desenho”. Sendo assim, ao considerar “a iconografia como um estilo emblemático usado para identificar e transmitir mensagem, estamos querendo dizer que, a partir do momento em que o ceramista pintou os motivos nos vasos, ele agiu não apenas em função estética, mas buscou através dessa representação se apropriar, se diferenciar, passar a ideia de particularismo ao ser comparado com outros estilos culturais distintos ao seu”, afirma a autora.
Segundo a dissertação, independentemente do sítio arqueológico, as pinturas do fragmentos analisados eram realizadas com muita rigidez, em busca de uma perfeição, seguindo um ritmo simétrico, com base nos motivos iconográficos. E a explicação é que “em geral, os desenhos das cerâmicas dos Tupiguarani são organizados em diferentes maneiras de combinação de linhas-linhas e linhas-faixa, variando entre as cores vermelho, preto, marrom e branco. Os motivos caracterizam-se pelas linhas retas podendo ser verticais, horizontais e oblíquas, que podem cruzar ou não entre si, com faixas únicas, duplas, triplas ou mais”. Quanto ao estoque de materiais arqueológicos dos Tupiguarani no Estado, a autrora adianta: “Tenho a expectativa de dar continuidade à pesquisas desta temática porque Pernambuco é rico em sítios desses povos com cerâmica decorada que precisam ser estudadas.”
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