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ENTREVISTA

Karenna Gore participa de evento inter-religioso sobre o clima no Recife

Publicado em: 08/11/2019 07:02

Para Karenna, humanos precisam abandonar ilusão de que vivem em uma bolha (Bruna Costa / Esp. DP FOTO)
Para Karenna, humanos precisam abandonar ilusão de que vivem em uma bolha (Bruna Costa / Esp. DP FOTO)
Reverter degradações ambientais em escalas planetárias, conter o aquecimento global e eliminar imensas desigualdades são desafios do século 21 que exigem o máximo de sabedoria humana na política, economia, cultura e espiritualidade. Quando falta imaginação e espírito elevado nos processos pragmáticos, a religiosidade pode ser fonte de inspiração para unir forças e abrir novos caminhos. Nesta sexta (8), no contexto da Conferência Brasileira de Mudança do Clima, um encontro histórico vai unir líderes católicos, evangélicos, judeus, afro-brasileiros e indígenas, em evento inter-religioso, em defesa do meio ambiente na Sinagoga mais antiga das Américas - Kahal Zur Israel (14h) no Hub Sins-Pire (16h), no Recife Antigo.

O evento Fé no Clima reunirá o rabino Nilton Bonder; o padre Fábio Santos, coordenador de Ecumenismo da Igreja Católica; o pastor Paulo César Pereira, presidente da Aliança de Batistas do Brasil; Mãe Beth de Oxum, ialorixá do Terreiro Ilê Axé Oxum Karê e Jaqueline Xukuru, da comunidade indígena Xukuru (Serra do Ororubá, em Pesqueira, no Agreste).

A programação, mediada pelo ambientalista Alfredo Sirkis, contará com a participação de Karenna Gore, diretora do Center for Earth Ethics, filha do ex-vice presidente dos Estados Unidos, Al Gore, quetem intenso ativismo ambiental internacional. Karenna trabalha com a mobilização ecumênica em defesa do equilíbrio climático e nestamentrevista exclusiva, sintetiza a importância de conectar dimensões materiais e imateriais na busca de soluções consistentes para os grandes problemas da humanidade.

“Confunde-se riqueza monetária com virtude”

O planeta Terra tem uma ética natural que pode ser percebida, aprendida e praticada pela humanidade na construção de uma civilização justa e sustentável?
Sim. A ética é um campo de valores fundamentais. Torna- -se especialmente importante quando leis e normas sociais estão fora de sincronia com questões de consciência moral. Por exemplo, isso aconteceu em relação ao fim da horrível instituição da escravidão. Mais e mais pessoas influentes começaram a pensar sobre isso através de uma lente ética ou moral, em vez de uma lente econômica puramente utilitária. No caso do planeta Terra, as atividades que estão degradando e destruindo a biosfera são legais e alinhadas às normas sociais. No entanto, cada vez mais pessoas percebem que esse sistema entrou em conf lito com as preocupações éticas sobre os povos mais vulneráveis entre nós - e também em conflito com as leis da natureza. Podemos perceber, aprender e praticar a ética natural observando e nos alinhando às leis da natureza, quer as concebamos como ciência ou como a criação sagrada de Deus, ou ambas. Se queremos construir uma civilização justa e sustentável, devemos medir os impactos das grandes decisões sobre três grupos sem voz na tomada de decisões: povos pobres e marginalizados, gerações futuras e vida não humana. Se prestarmos atenção a essas categorias, a saúde melhorará para todos nós.

O primeiro desafio para evitar as mudanças climáticas é convencer pessoas, empresas e governos a mudar percepções e atitudes em relação ao meio ambiente. Como o Center for Earth Ethics trabalha nesse contexto?
O Center for Earth Ethics une os mundos da academia, religião, política e cultura. Acreditamos que os dados científicos são importantes, mas também sabemos que essa crise climática é sobre percepção de valor, obrigações morais com os outros e coragem para mudar. Se lógica e razão fossem suficientes, não estaríamos nessa terrível emergência. Muitas pessoas foram educadas a acreditar que os humanos são separados e superiores ao resto do mundo natural e, portanto, a sociedade pode vomitar tanta poluição no ar quanto quisermos, sem nenhum efeito. Mas a verdade é mais bonita e interessante do que isso - estamos conectados a toda a rede da vida. Nossos corpos são criados a partir da Terra - ar, água, ferro e muito mais. Assinamos em massa um esquema contábil insano que não reconhece os custos reais da economia de extração de combustíveis fósseis. O Center for Earth Ethics quer ajudar a olhar para a realidade mais profunda de valor a longo prazo, muito além do atual panorama de preços. Por isso, trabalhamos com educação, oferecendo workshops sobre tópicos como: Religião e Mudanças Climáticas; Além do PIB; Como medir uma sociedade bem-sucedida; Vozes indígenas sobre colonização, ecologia e espiritualidade; Direitos da natureza...

Quais as relações entre crise ambiental e espiritualidade?
Uma causa raiz da crise ambiental é a ilusão de que os seres humanos são separados da natureza e podem tratar todos os elementos e outros seres vivos como objetos, recursos ou propriedades. Um teólogo que eu gosto, Thomas Berry, ensinou que devemos ver que “o universo é uma comunhão de sujeitos, não uma coleção de objetos”. Esse senso de comunhão é espiritual.

A natureza (céu, água, florestas, animais, terra, humanos) é a face visível dos Deuses de diversas religiões. Logo, poluir e degradar ecossistemas é desrespeitar e atacar deuses. Por que grande parte das pessoas adoram e respeitam deuses mas não cuidam e nem respeitam a natureza?
Há alguma história de definição de religiões monoteístas contra tradições animistas - ou “pagãs” - que veem a natureza como tendo personalidade e divindade. Acho que em algumas partes do mundo, incluindo as Américas, um medo e um desprezo históricos por tradições animistas são responsáveis por uma parte da incapacidade de traduzir a religiosidade em um cuidado verdadeiramente respeitoso pela natureza. Isso também foi explorado por aqueles que empreendem guerras culturais por razões políticas. Há esperança, porém, especialmente por causa de quão inato e natural é para as crianças amarem a natureza de maneira genuína.

Para reverter o aquecimento global e atenuar as mudanças climáticas é fundamental inovação. Como as religiões tradicionais podem impulsionar mudanças criativas na política, economia e tecnologia?
As religiões tradicionais e o diálogo inter-religioso podem ajudar a promover a criatividade e a inovação que precisamos para fazer mudanças e resolver a crise climática. Há rico conhecimento cultural e memória histórica nas comunidades religiosas. Eles foram forjados em um tempo anterior à dependência arraigada de combustíveis fósseis e podem nos ajudar a lembrar valores mais profundos e estilos de vida mais sustentáveis. Também podem servir como uma força contrária a algumas mensagens predominantes da sociedade contemporânea, que confundem riqueza monetária com virtude.

A urgência para reverter o aquecimento global requer ações imediatas e em larga escala, em todos os continentes. O diálogo inter-religioso é uma estratégia eficaz para acelerar a mobilização da humanidade?
A diversidade sempre incentiva a criatividade e a diversidade espiritual no Brasil é uma força enorme. O diálogo inter- -religioso pode ajudar a discernir valores comuns essenciais e revelar quantas maneiras coloridas diferentes podem ser expressas. Alguns desses valores comuns são cuidar dos pobres e vulneráveis; a importância da comunidade em detrimento do individualismo competitivo; o respeito pelos antepassados e pelas gerações futuras, e um senso do sagrado que deve ser protegido da venda e da corrupção. Na realidade, nem todos os líderes ou instituições religiosas cumprem esses valores, mas o diálogo inter-religioso pode ajudar a discernir uma expressão mais pura deles, além de celebrar as aspirações que temos em comum. A mobilização vem da inspiração e também da necessidade. Algumas pessoas ainda negam a urgência e a gravidade da crise climática, mas há algo que as tocará ou as moverá ambientalmente. Precisamos de toda a sabedoria antiga que conseguirmos para enfrentar esse desafio.

Diante de fake news e negação da ciência climática, como o diálogo inter-religioso pode nos aproximar da verdade e inspirar ações em defesa da paz e da vida?
O diálogo inter-religioso pode mostrar que a moralidade não é simplesmente uma questão de seguir uma doutrina ou líder espiritual, mas é uma convicção mais profunda.

Na era das redes digitais como o jornalismo pode tornar as verdades mais atraentes e mais convenientes?
Na era digital, os jornalistas podem levantar vozes de pessoas que estão sofrendo os impactos da poluição, desmatamento e mudança climática. Além disso, podem mostrar soluções, especialmente aquelas para viver em equilíbrio com a natureza, demonstrando o caminho a seguir.

A construção de uma civilização sustentável, pacífica, culturalmente diversa e sem pobreza depende de evoluções materiais e imateriais. O seu pai, Al Gore, se notabilizou articulando soluções políticas, econômicas e tecnológicas para reverter o aquecimento global. Você se dedica ao diálogo inter-religioso e ao desenvolvimento da espiritualidade. É possível integrar o material e o imaterial criando uma nova economia biocêntrica, colaborativa e espiritualizada?
A relação entre matéria e espírito é uma investigação atemporal e fascinante. Mesmo depois de tanto tempo e de tantas abordagens, parece que ainda não resolvemos isso! É claro que o mistério faz parte da beleza. O legado do pensamento dualista, que sustenta que a matéria e o espírito são separados está muito presente na mentalidade de negação do clima. A esse respeito, acredito que haja algum poder de cura nas tradições sincréticas que misturaram as tradições indígenas de maneira artística e graciosa e as religiões dominantes do mundo, como o cristianismo. Há também um novo tipo de negação, baseado na idéia de que não precisamos nos preocupar com essa crise, porque a tecnologia nos salvará de alguma forma. É claro que está relacionado ao que o papa Francisco chamou de paradigma tecnocrático em nossa sociedade. Acredito que precisamos questionar esse paradigma e investir mais tempo e energia para nos reconectarmos à natureza. Um benefício disso é que é melhor para a saúde humana, porque, afinal, somos natureza e nossa espécie evoluiu em condições que estavam mais sincronizadas com ritmos e ciclos naturais. As epidemias de ansiedade e depressão podem estar relacionadas à desconexão da natureza em vários níveis. Certamente os distúrbios climáticos do planeta estão relacionados ao fato de que as sociedades humanas estão em guerra com as leis da natureza. Ao mesmo tempo, precisamos de tecnologias inovadoras. Se estivermos conectados ao sentido mais profundo de nós mesmos e ao significado último da vida, as mudanças poderão ser duradouras e ter integridade. O material e o imaterial estão relacionados e podem se apoiar mutuamente se nos reconectarmos.

O presidente Trump anunciou esta semana a saída formal do Acordo de Paris. 25 governadores americanos, da US Climate Alliance, fazem movimento contrário, similar à iniciativa “Governadores Pelo Clima” no Brasil, que tem a participação do governador Paulo Câmara. Com a capacidade inovadora que dispõe, os EUA ganhariam muito mais liderando a transição para a nova economia de baixo carbono. Como convencer o presidente Trump a mudar de ideia?
O movimento “Ainda estamos em” é muito importante nos EUA. Há ação e impulso de muitos atores subnacionais e também de movimentos comunitários. Não podemos nos distrair com as forças do absurdo, não importa quão altamente colocadas elas estejam temporariamente em nosso próprio governo.

Liderar movimentos ecológicos exige dar exemplos e mostrar que é possível mudar comportamentos e consumos. Quais exemplos materiais e imateriais do seu cotidiano podem ser inspiradores para outras pessoas que desejam contribuir com a sustentabilidade climática?
Uma tática dos que querem nos impedir de mudar e evitar destruição ecológica em massa, é criticar os mensageiros. Focam nos seres humanos individuais, que são imperfeitos, e não tratam da crise. A mudança precisa ocorrer em vários níveis ao mesmo tempo - mudança individual, comunitária e em larga escala. O último é o mais importante, mas os indivíduos podem dar exemplos. Eu aprecio como Greta Thunberg fez isso e, é claro, os líderes indígenas tradicionais que vivem estilos de vida de baixo impacto há milênios. São líderes importantes da justiça ecológica e climática. Da minha parte, tenho pouco para me gabar - raramente como carne, tento voar menos, sou consciente como consumidora, tento não desperdiçar energia - uso fontes renováveis em minha casa e no trabalho - e assim por diante. Mas sei que faço parte de um setor de alto consumo da sociedade humana, com responsabilidade por essa crise. Então, acho que a coisa mais importante que posso fazer é elevar as vozes das pessoas na linha de frente e advogar por mudanças sistêmicas. 
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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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