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Ato inter-religioso cobra mais tolerância e compromisso com a natureza

Publicado em: 08/11/2019 21:52

Representantes de diversas religiões se uniram em ato pelo meio ambiente nesta sexta-feira (8). (Foto: Diogo Cavalcante/DP.)
Representantes de diversas religiões se uniram em ato pelo meio ambiente nesta sexta-feira (8). (Foto: Diogo Cavalcante/DP.)
“Neste momento, temos uma previsão de aumento da temperatura média do planeta em 4,5º C. E isso é simplesmente o inferno na terra”. A afirmação do ambientalista Alfredo Sirkis deu o tom do Fé no Clima, evento inter-religioso realizado na tarde desta sexta-feira (8), no Recife Antigo. O ato foi realizado na sinagoga Kahal Zur Israel e no espaço Sinspire, com a presença da ativista americana Karenna Gore e de representantes de cinco crenças distintas - catolicismo, protestantismo, judaísmo, candomblé e indígena. Todos foram unânimes ao defender mais tolerância, diálogo e compromisso com o meio ambiente.

Para Alfredo, os prognósticos sobre o clima no mundo são “extremamente preocupantes”, mas oferecem uma “janela de oportunidades”, para que todos possam se unir de fato na defesa da terra. “Há um retrocesso político muito grande. Homens autoritários, que negam a existência de mudanças climáticas, se afirmam no poder em diferentes países. E a única força que nos resta é a fé, das diferentes religiões, que se irmanam na defesa da natureza”, defendeu.

Karenna Gore deu exemplos práticos das mudanças climáticas: “Tempestades cada vez mais fortes, aumento do nível do mar, extinção de espécies animais. Isso tudo está interconectado. E nós sabemos quais são as causas disso, como o uso de combustíveis fósseis”. Para a ativista, é preciso acordar da ilusão de que o problema está distante. “A crise climática é uma questão moral”, afirmou.

O pastor Paulo César Pereira foi mais incisivo em seu ponto de vista. “Somos capazes de socorrer vítimas de catástrofes, mas somos incapazes de levantar o dedo contra as empresas que promovem essas situações. É preciso se fazer um trabalho de conscientização de nossas lideranças, para que sejam capazes de defender a casa do criador, que é a terra que vivemos”, disse.

Karenna Gore, ativista ambiental. (Foto: Leandro de Santana/Esp. DP.)
Karenna Gore, ativista ambiental. (Foto: Leandro de Santana/Esp. DP.)

Representando o povo indígena, Jaqueline Xururu, da comunidade Xukuru, também seguiu uma linha crítica. “É comprovado pela ciência que as maiores áreas de preservação ambiental estão dentro de terras indígenas. Ninguém cuida tão bem da terra quanto nós. E mesmo assim, temos nosso sangue derramado para conseguir direito a terra”, lamentou. 

“Cada índio que tomba, cada árvore derrubada, para nós, é uma dor. E os impactos ambientais previstos pelos cientistas para os próximos dez, vinte anos, já sentimos na pele hoje. A gente não entende a terra como espaço de especulação financeira, e sim como corpo e espírito. A terra é nossa mãe”, acrescentou.

A ialorixá mãe Beth de Oxum, do Terreiro Ilê Axé Oxum Karê, destacou o quanto que o respeito ao meio ambiente é fundamental para o candomblé. “O sagrado se materializa na natureza. É da natureza que a gente se alimenta, se reconhece, obtém o axé. E por respeito a isso que a terra, a água, não podem virar produtos. Não existe vida sem isso”, comentou.

Em nome da Igreja Católica, o padre Fábio Silva, coordenador de ecumenismo, parafraseou os ensinamentos do Papa Francisco. “Ele convida todas as religiões para nós, juntos, em nossa pluralidade, possamos vencer o problema do clima. Tudo está conectado e, se a economia tem por objetivo o lucro, que tenha também como foco a dignidade à pessoa humana e respeito ecológico”, explicou.

Um desenvolvimento mais consciente também foi defendido pelo rabino Nilton Bonder. “Há uma frase que, na política e na religião, a certeza é inversamente proporcional ao conhecimento. Não pode ser assim. As certezas têm que caminhar junto ao conhecimento, e não com a ignorância. E as tradições estão aqui, para ajudar a criar um olhar mais verdadeiro neste mundo”, pontuou

Depois dos diálogos na sinagoga, o grupo foi para o espaço Sinspire, participar de um debate sobre o assunto. Todos concordaram que o diálogo inter-religioso deve ser permanente e de várias formas. O evento ecumênico realizado nesta sexta deu outro fruto: o Fórum da Diversidade Religiosa, previsto para o dia 12 de novembro, no mesmo espaço.
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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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