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O dia em que Thallyson passou a existir no mundo

Publicado em: 19/10/2019 14:58 | Atualizado em: 19/10/2019 15:10

A emoção de Thallyson ao lado do juiz Clicério Bezerra e da mãe - Foto: Tarciso Augusto/Esp.DP
Parecia ansioso. Mexia a vista rapidamente e pegava na mão da mãe com frequência numa sala na 1ª Vara de Família do Recife, no Fórum Joana Bezerra. O juiz titular, Clicério Bezerra e Silva, saudou o menino com festa e entregou a Thallyson Rogério da Silva Lima um envelope pardo. Thallyson o recebeu com certa formalidade. Abriu, sacou um papel timbrado, passou o dedo sobre as letras que formavam o nome dele e estampou no rosto um sorriso. Aos 7 anos, Thallyson ganhou a certidão de nascimento por qual tanto esperou. Nunca mais vai ouvir alguém dizer “esse menino não existe para o mundo”. Por fim, não resistiu e deu um abraço no juiz - como se curtisse o momento, fechando os olhos por alguns segundos.

Com documento na mão, ele agora quer aprender a ler - Foto: Tarciso Augusto/Esp.DP
Sem a certidão de nascimento, emperrada em virtude de uma pendência bucocrática no nome da mãe quando ele nasceu, Thallyson nunca estudou. “Eu fico triste em casa, brinco sozinho e vejo todo mundo indo para a escola”, conta. Mora com a mãe, duas irmãs menores de 6 e 2 anos, na comunidade do Pocotó, área pobre situada nas proximidades do túnel de Boa Viagem e do Shopping Recife. “Quero estudar também”, diz ele, esperançoso.

Em matéria sobre a situação da criança no Nordeste publicada no Diario no final de semana passado com base em estudo da Fundação Abrinq/SP, a mãe de Thallyson, Taciana do Carmo Lima, contava o quanto era triste ver o filho sendo chamado de “burro” pelos amigos e sem contar com direitos básicos. “Estou muito feliz com tudo isso”, desafabou a mãe, na quinta-feira passada, quando o documento do filho foi liberado. “Só falta ele conseguir uma vaga para a escola”, dizia.

O juiz Clicério Bezerra explicou que é comum chegar crianças com pedido de registro de nascimento tardio, mas o problema costuma ser resolvido administrativamente de maneira mais rápida. O caso de Thallyson, segundo ele, teve uma

peculiaridade. Na declaração de nascido vivo dada pela maternidade, o nome da mãe do garoto foi grafado errado e o equívoco exigiu um processo judicial para sair a certidão.

Na entrega do documento, Bezerra lembrou a Thallyson que, a partir daquele momento, ele “está começando o exercício da cidadania, começando a ter direitos e deveres”. Quando ouviu a mãe relatar que o pai de Thallyson pretende reconhecer a paternidade dele, o juiz fez questão de contar a sua história pessoal e dar incentivo ao menino. “Vou dar um conselho usando como exemplo a minha vida pessoal. Também tive dificuldades na infância e adolescência porque não fui criado com a figura paterna. Até os 20 anos era considerado filho de mãe solteira. Graças a Deus, meu pai já reconheceu (ele é falecido) e isso não influenciou na minha vida”, pontuou. “Eu consegui êxito profissional e pessoal porque hoje tenho minha família constituída”. Antes de apertar a mão do garoto, o juiz desejou, com os olhos marejados, “que seja este o destino de Thallyson”.
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