entrevista 'O Compaz é, sobretudo, uma aposta nas pessoas', diz Geraldo Julio

Por: Diario de Pernambuco

Publicado em: 21/09/2019 12:34 Atualizado em: 21/09/2019 12:45

Bruna Costa/Esp.DP
Bruna Costa/Esp.DP
O projeto Compaz, da Prefeitura do Recife, foi reconhecido como a melhor iniciativa de redução de desigualdade social do país pela organização não-governamental Oxfam Brasil e pelo Programa Cidades Sustentáveis, no 3º Prêmio Cidades Sustentáveis, entregue nesta semana, em São Paulo.

Em entrevista exclusiva ao Diario de Pernambuco, o prefeito do Recife, Geraldo Julio, destaca as mudanças que as duas unidades em funcionamento estão gerando nas comunidades do entorno, além dos planos de expansão do projeto para outros cinco novos endereços.

Qual a importância da conquista deste prêmio para o Recife?
O prêmio é importante porque dá o devido reconhecimento a uma política pública ousada, que vai às comunidades mais carentes com uma estrutura física e serviços de alta qualidade para atender à camada mais vulnerável da população. O Compaz é, sobretudo, uma aposta nas pessoas. Uma aposta na capacidade do recifense de, com uma oportunidade na mão, mudar o rumo da sua vida. E o prêmio reconhece que isso pode ser política pública de inclusão, de combate à desigualdade social e, por fim, de te à desigualdade social e, por fim, de enfrentamento à violência, por meio da prevenção. A gente fica feliz também porque esse reconhecimento veio de uma instituição como a Oxfam, referência mundial no combate à desigualdade. Nos mostra que aquilo que sonhamos lá atrás, quando concebemos o equipamento, se tornou política pública acertada e referendada por quem entende do assunto.

Quantos recifenses já foram beneficiados pelas atividades do Compaz?
Os dois Compaz que já temos, o Governador Eduardo Campos, no Alto Santa Terezinha, e o Escritor Ariano Suassuna, no Cordeiro, têm um total de 33 mil pessoas inscritas nas atividades cotidianas e já realizaram mais de dois milhões de atendimentos. O mais interessante é que antes de inaugurar o Compaz a gente ouve a comunidade e, desde o projeto, ele integra atividades que já são características e interessantes para aquela população. No Alto Santa Terezinha temos o dojô de artes marciais, construído para abrigar um projeto que já acontecia lá no bairro e atendia a muita gente. Hoje é o irro e atendia a muita gente. Hoje é o maior centro de treinamento de artes marciais de Pernambuco e o maior do Brasil, ligado a um projeto social, com os meninos que treinam lá participando e saindo vitoriosos em competições no Brasil e no mundo. No Ariano Suassuna, temos o Ateliê Compaz, e as quadras de tênis, que eram muito características do local quando lá funcionava o Clube da Chesf. No Coque, onde estamos construindo o Compaz Dom Helder Camara, o projeto prevê estúdio de audiovisual com equipamentos de última geração para se apropriar de uma das mais fortes características da comunidade: a comunicação comunitária.

Qual é o impacto positivo na redução da violência?
Uma das coisas que mais nos alegraram com essa premiação é que ela dá dimensão à mudança real que os Compaz estão fazendo nas vidas das pessoas. “A melhor política pública de redução de desigualdade social do Brasil”, nos enche de orgulho, responsabilidade e coloca dimensão ao poder transformador desses equipamentos, que muitas vezes poderia ficar subjetivo à história de vida de cada pessoa atingida diretamente por essa capacidade. Porém, alguns dados indicam resultados concretos do equipamento na sua função essencial que é enfrentamento da violência urbana atacando preventivamente sua causa mais desumana: a desigualdade social. Segundo  dados da Secretaria de Defesa Social, o Compaz Ariano Suassuna propiciou queda de 40% de redução nos homicídios no seu entorno, enquanto o bairro do Alto Santa Terezinha, onde fica o Compaz Governador Eduardo Campos, não registrou nenhum homicídio em 2018.

A prefeitura pretende construir novas unidades ou ampliar as já existentes?
Sim, estamos em andamento com duas outras unidades. O Compaz Dom Helder Camara, no Coque, e o Governador Miguel Arraes, na Caxangá. Além disso, temos captação de recurso aberta junto ao governo federal para outras três unidades na Várzea, Pina e Ibura.

Quais histórias de vida emocionaramo senhor desde a criação do Compaz?
Olha, entre tantas histórias bonitas que chegam até a gente fica difícil escolher alguma em especial. Claro que um caso como o MC Bruninho, que ganha admiradores do Brasil inteiro pelo seu talento e era frequentador do Compaz chama muita atenção. O talento dele foi descoberto no Compaz. Mas uma das que mais me tocam é a história de Wandresson e Wermesson. Eles são irmãos gêmeos filhos de Dora, que é mãe de nove filhos, no Alto Santa Terezinha. O irmão mais velho deles, infelizmente, foi preso envolvido com o tráfico de drogas, antes da chegada do Compaz no bairro. Hoje, os gêmeos praticam artes marciais, aula de tecnologia e robótica, e estão trilhando um caminho diferente do irmão mais velho, vítima da falta de oportunidades. Dora conta que, se houvesse o Compaz na juventude do mais velho dela, talvez tivesse tido um futuro diferente. Se não pudemos chegar para ele, estamos dando a oportunidade a Wandresson, Wermesson e milhares de outros jovens escrever uma história diferente.

O modelo do Compaz pode ser expandido para outros estados e países?
A gente recebe o tempo todo pessoas de outras cidades do Brasil e do mundo interessadas em conhecer o equipamento. É claro que é uma política que tem potencial, sim, para ser adaptada a outros municípios, respeitando a singularidade de cada comunidade. Porque essa característica é fundamental. A filosofia do Compaz é inspirada nas bibliotecas ativas que mudaram a realidade
dos bairros mais pobres de grandes cidades da Colombia, como Medellín e Bogotá, e outras experiências de sucesso, de chegar com cidadania onde antes só se chegava com polícia e repressão. O que garantiu o sucesso do Compaz foi a capacidade de ouvir a comunidade, de ser construído junto, desde o primeiro tijolo à manutenção cotidiana, passando pela escolha das  atividades. Então essa adaptação é um conceito que deu certo em outros lugares do mundo, com a realidade das comunidades do Recife, contada pelas próprias pessoas que vivem esse dia a dia, é a fórmula de sucesso do Compaz.



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