Perda Morre de infarto o advogado criminalista Gilberto Marques

Publicado em: 20/09/2019 11:20 Atualizado em: 20/09/2019 15:46


Em um dos últimos casos de repercussão que atuou, o advogado Gilberto Marques fez a defesa de Edvan Luiz, suspeito de matar a fisioterapeuta Tássia Mirella Sena. Crédito: Tarcísio Augusto Esp DP
Em um dos últimos casos de repercussão que atuou, o advogado Gilberto Marques fez a defesa de Edvan Luiz, suspeito de matar a fisioterapeuta Tássia Mirella Sena. Crédito: Tarcísio Augusto Esp DP

O advogado criminalista Gilberto Marques, 64 anos, faleceu nesta sexta-feira (20), no Recife, vítima de um infarto. De acordo com a família, ele passou mal por volta das 8h e foi socorrido para o Hospital Português, onde chegou com uma parada cardíaca e faleceu. O velório será das 17h às 18h no Cemitério Morada da Paz, em Paulista e em seguida haverá a cerimônia de cremação. Gilberto Marques deixou cinco filhos. Ele era divorciado e morava sozinho na Avenida Boa Viagem.
 
O advogado criminalista Gilberto Marques atuou em vários casos de repercussão, a exemplo do Escândalo da Mandioca, como ficou conhecido o assassinato do procurador Pedro Jorge de Melo e Silva. Também atuou no Caso Serrambi, cujo assassinato das adolescentes Tarsila Gusmão e Maria Eduarda, em 2003, ganhou repercussão nacional; e na Chacina de Salgueiro. Em um dos seus últimos casos, fez a defesa de Edvan Luiz, suspeito de matar a fisioterapeuta Tássia Mirella Sena, em 2017. Também participou da Comissão da Memória e Verdade Dom Hélder Câmara, que investigou crimes cometidos no estado durante a ditadura militar.  

Mas foi o Escândalo da Mandioca o caso que mais marcou a vida dele. Em outubro de 2017, chegou a escrever um artigo no Diario com o título: Pedro Jorge não morreu.Em alguns dos trechos escreveu:

"O processo teve grande espaço na mídia. A repercussão, surpreendente, correu o mundo. O martírio de Pedro Jorge, até hoje, sensibiliza e convoca enorme contingente de pessoas. Ficou claro na exibição do documentário dirigido por Ana Cláudia Dolores e Cláudia Holder. O MPF da 5ª Região e a Universidade Católica ressuscitaram o tema. A estreia, em 27 de março, lotou o cinema São Luiz. Cerca de mil pessoas, a maioria jovem, aplaudiu a película de pé. No dia 12 de outubro, completaram-se 34 anos da condenação. “Pedro Jorge não morreu. Ele se dividiu em milhares de pedaços. De cada pedaço, há de nascer um Pedro inteiro para continuar sua luta pela justiça”. Justiça sem mártir, sem herói".
 
Repercussão 
 
Em nota, o governador Paulo Câmara, lamentou a morte do advogado. 
 
"Pernambuco perdeu hoje um dos seus mais brilhantes advogados, o criminalista Gilberto Marques. Ele deixou para Pernambuco um precioso legado na área dos Direitos Humanos, como integrante da Comissão da Memória e Verdade Dom Hélder Câmara, que investigou crimes cometidos no estado durante a ditadura militar. Quero, neste momento, externar o meu profundo pesar e minha solidariedade aos seus familiares, amigos e colegas". 
 
Em nota, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PE) apresentou votos de profundo pesar pelo falecimento do advogado criminalista Gilberto Marques: "Importante referência da advocacia no estado. À família e aos amigos de Gilberto, os sentimentos de todos que fazem a direção do conselho da Ordem."
 
O advogado Paulo César Porto conhecia Gilberto há mais de 30 anos. "Foi meu pai profissional. Um ícone da advocacia. Exemplo de advogado, de elevada técnica e ética irreparável. Desde a ditadura lutou as grandes lutas por democracia, justiça e direitos humanos. Seu trabalho ia além do processo. Era uma batalha constante pela garantia da ampla defesa e do devido processo legal", revelou. 
 
 
O presidente da OAB-PE, Bruno Baptista, com o advogado Gilberto Marques. Crédito: Reprodução Facebook.
O presidente da OAB-PE, Bruno Baptista, com o advogado Gilberto Marques. Crédito: Reprodução Facebook.
 
O presidente da OAB-PE, Bruno Baptista, lamentou a morte do amigo nas redes sociais. Em um texto em homenagem a Gilberto Marques, postou uma foto dos dois juntos feita há duas semanas. 
 
"Tiramos essa foto há duas semana. Um encontro casual na militância, como tantos outros. Encontros como os dos almoços no restaurante do Senac ou no escritório dele, no Edifício São Cristóvão. Papo agradável, histórias saborosas, conselhos preciosos. Como sempre. Hoje recebo a triste notícia do falecimento do amigo Gilberto Marques. Advogado criminalista militante, corajoso, preparado. Ao mesmo tempo humilde e amigo. Uma referência. Especialmente nessa quadra histórica do país fará muita falta. Parafraseando o próprio Gilberto Marques, em antológico encerramento das alegações finais como assistente de acusação do júri dos assassinos de Pedro Jorge. "Gilberto Marques não morreu. Ele se dividiu em milhares de pedaços. De cada pedaço, há de nascer um Gilberto inteiro para continuar sua luta pela justila. Justiça sem mártir, sem herói", postou Bruno Baptista.


Escândalo da Mandioca  
 
Considerado o maior crime financeiro já ocorrido em Pernambuco, o Escândalo da Mandioca chegou ao conhecimento do grande público em julho de 1981. No entanto, desde o ano anterior, políticos, fazendeiros, comerciantes e personalidades do município de Floresta, distante 433 quilômetros do Recife, já estavam envolvidos no esquema que desviou Cr$ 1,5 bilhão do governo federal, por meio do Banco do Brasil. Em valores atuais, o prejuízo à União seria de R$ 34 milhões. O golpe consistia na obtenção de documentos falsos para conseguir créditos agrícolas para o plantio de mandioca utilizando cadastros frios, propriedades fictícias e agricultores fantasmas.
 
Condenações, fuga e recaptura

Um dia após o assassinato de Pedro Jorge, a Polícia Federal abriu um inquérito para investigar quem eram os responsáveis pelo crime. A suspeita de que a morte estivesse ligada à investigação do Escândalo da Mandioca logo foi levada em consideração. Ao final do inquérito, sete pessoas foram indiciadas pelo homicídio. Segundo a Justiça Federal, os acusados foram o então major José Ferreira dos Anjos, o sargento José Lopes de Almeida, o fazendeiro Irineu Gregório Ferraz, o agente da Polícia Civil Euclides de Souza Filho, o funcionário do Detran Jorge Gomes Ferraz, o topógrafo Heronides Cavalcanti Ribeiro e o motorista Elias Nunes Nogueira.

“Depois da fase de instrução, o juiz mandou soltar os sete réus. Foi então que recorremos ao Tribunal Federal de Recursos pedindo que todos voltassem à prisão. O recurso foi feito pelo procurador da República Aristides Junqueira. Quando chegou a data do júri popular, seis deles estavam presos novamente e foram condenados no dia 12 de outubro de 1983. Irineu Ferraz foi julgado depois e acabou absolvido”, destacou o advogado Gilberto Marques.




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