Evento Universidade de Pernambuco cita ameaças e cancela palestra de ativista judeu

Por: FolhaPress - FolhaPress

Por: Igor Gielow - FolhaPress

Publicado em: 21/08/2019 20:39 Atualizado em: 22/08/2019 11:02

Foto: Marlon Diego/Esp.DP (Foto: Marlon Diego/Esp.DP)
Foto: Marlon Diego/Esp.DP
A Universidade de Pernambuco (UPE) cancelou palestra que ocorreria nesta quinta (22) sobre o processo de paz entre palestinos e israelenses sob alegação de ter recebido ameaças de um grupo pró-árabes.

O palestrante seria o cientista político André Lajst, um ex-soldado das Forças de Defesa de Israel e diretor-executivo de uma ONG que defende o sionismo.

"Tive de cancelar o evento por motivo de segurança. Desde as 8h a Associação Pró-Palestina e Muçulmana de Recife (nem sabia que isso existia) me telefonou de forma dura e grosseira, ameaçando a mim, ao palestrante e a universidade", escreveu Karl Schurster, assistente internacional da universidade estadual e moderador do debate.

Ele enviou a mensagem a um grupo de professores da UPE. A reportagem tentou falar com Schurster, sem sucesso.

Aqui começa uma guerra de versões. A palestra de Lajst havia sido criticada por uma entidade de apoio aos palestinos em Recife, a Aliança Palestina - Pernambuco.

Em postagem na terça (20) em sua página no Facebook, o grupo havia criticado o que considerava falta de isonomia da universidade em convocar um debate sobre o tema sem trazer também um representante ligado aos palestinos.

Também na rede social, Lajst retrucou no mesmo dia com um vídeo no qual acusava a Aliança de boicotá-lo e convidava seus membros a participar do debate.

"De acordo com eles, eu sou radical ou extremista. Nunca defendi crime contra quem quer que seja. Se quiserem participar do diálogo, debater comigo, espero vocês lá", afirmou. Em nenhum momento o nome da Associação Pró-Palestina e Muçulmana de Recife surgiu, talvez porque ela não exista.

"Conhecemos vários grupos, nunca ouvimos falar desse. Não queremos boicotar a palestra, ao contrário, queremos participar", afirma Pedro Valença, um dos nove membros da Aliança que controla a página na internet.

Ao longo da terça, houve trocas de acusações nos comentários ao vídeo de Lajst, que nesta quarta (21) enfim postou um informe lamentando o cancelamento e acusando a Aliança por ele.

"Não temos nada a ver com essa justificativa para cancelar o evento", diz Valença, que é administrador de empresas na capital pernambucana.

Em 2016, a Aliança realizou um simpósio em conjunto com o Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco sobre direitos humanos na Palestina, ao qual participou um professor de origem judaica como contraponto à majoritária presença de ativistas pró-palestinos.

Valença acusa a UPE de abrigar um evento custeado pelo "poder financeiro do movimento sionista". Lasjt, neto de um sobrevivente do Holocausto, afirma ter feito mais de 500 palestras pelo Brasil com apoio da ONG StandWithUs Brasil, que ele dirige. 

Ele se diz um sionista, ou seja, um defensor do estabelecimento de um Estado judeu nas terras da Palestina, tal e qual ocorreu em 1948, após os horrores do nazismo na Europa.

Por ter servido no Exército israelense, suas posturas costumam ser alvo de protestos. Em agosto do ano passado, ele teve uma palestra na Universidade Federal do Amazonas interrompida por um grupo de ativistas que o chamaram de genocida.

Seguiu-se uma altercação, e ele acabou expulsando os ativistas do evento, sendo na sequência acusado de agressão por um deles, que tivera seu cartaz de protesto arrancado da mão.

"Infelizmente, não é a primeira vez que palestras minhas são canceladas 'por motivos de força maior', que hoje faço questão de denunciar", escreveu o palestrante.

Confira na íntegra a carta aberta do palestrante sobre a situação:

Meu nome é André Lajst, neto de Chaim Lajst, sobrevivente do Holocausto. Meus bisavós, tio-avós e outros parentes foram assassinados pelo maior genocídio da história da humanidade. 

Sou cientista político, doutorando na história do processo de paz e no conflito palestino israelense pela universidade de Córdoba, na Espanha e já palestrei sobre esse tema mais de 500 vezes em diversos estados brasileiros. 

Milhares de alunos universitários e do ensino médio,público e privado, assistiram minhas aulas sobre temas relacionados ao Oriente Médio. Jamais fui acusado de racismo, preconceito, radicalização ou apologia ao crime ou ações contra civis. Ao contrário, sou uma pessoa que, pela minha formação e histórico familiar, acredita na ciência da política, da diplomacia e das negociações para atingir a paz, no Oriente Médio e em qualquer lugar do mundo. 

Frequentemente eu e os outros membros da StandWithUs Brasil enfrentamos uma enorme dificuldade em articular palestras e seminários em universidades estaduais e federais no Brasil. Diferentemente das universidades privadas, que buscam ativamente por nosso conteúdo, as Universidades públicas possuem um muro de resistência. 

Em alguns casos, por ignorância dos tomadores de decisão. Eles têm medo da militância extremista de alguns estudantes dentro da universidade, que tudo podem e tudo fazem para impedir a liberdade de expressão e a pluralidade de ideias. Em outro casos, é antissemitismo ou judeofobia traduzida como preconceito contra Israel, o movimento nacional judaico, o sionismo, este, frequentemente deturpado em algo que não é, afim de deslegitima-lo. 

O cancelamento da minha palestra na Universidade de Pernambuco me assusta e me preocupa, pois, como brasileiro, desejo que a educação no meu país seja sempre a melhor possível. Após termos visto a nota de repúdio da Aliança Palestina - Recife, que não é uma organização formal e nem representa os palestinos no Brasil, segundo eles mesmo, fizemos o contrário que normalmente as organizações palestinas no Brasil fazem: abrimos o nosso evento acadêmico para a participação de uma entidade com visões antagônicas às nossas, mostrando nosso apreço pela pluralidade, respeito e valores republicanos e democráticos. Em vão! 

Mesmo com a nossa oferta, recebemos informações de que acadêmicos responsáveis pelo evento estavam recebendo ameaças de membros da Aliança Palestina - Recife e de grupos de estudantes, dizendo que haveria protestos, badernas, entre outros tipos de agitações dentro da universidade, caso nosso evento (há um mês agendado e divulgado) fosse realizado.  

Vejo sempre eventos sobre o tema palestino contendo apenas uma visão em universidades federais e estaduais. Curiosamente, seus organizadores não convidam organizações que possam explicar o lado de Israel ou a história da região de forma acadêmica sem viés ideológico. Nós, da StandWithUS Brasil, como entidade educacional, jamais nos posicionamos pelo boicote a qualquer desses eventos porém, na democratização dos mesmos, pois estes eventos apresentam sempre apenas uma visão, normalmente deturpada, do que ocorre no Oriente Médio. 

No caso específico da palestra marcada para amanhã, na UPE, fizemos o oposto de conclamar a um boicote, convidando o outro lado, propomos diminuir o tempo da minha fala como palestrante para abrir para um debate democrático e respeitoso e, mesmo assim, o evento foi cancelado pela reitoria, alegando “motivos de força maior”, sem ao menos dar uma justificativa adequada à comunidade acadêmica por terem cedido a chantagens. 

Friso aqui que em minha exposição, os alunos podem ver mapas, acordos, fronteiras, entender o processo de paz em Oslo, como funciona as decisões de Israel e da Autoridade Palestina bem como outras questões pertinentes à história da região, tal como a fundação de outros países e a questão da segurança. Nesta palestra não há apologia a nenhum crime. Existem, porém, aqueles que precisam pintar uma imagem de radical para conseguirem atingir seus objetivos. Isso é típico de militância: quando não há legitimidade em boicotar alguém, precisam deslegitimar esse alguém. Então a censura funciona. É exatamente isso que estão fazendo. 

Entendo que o livre pensar e a pluralidade de ideias precisa ser um bastião da academia. O reitor tem o papel de proteger esse bastião. Infelizmente, não é a primeira vez que palestras minhas são canceladas "por motivos de força maior", que hoje faço questão de denunciar. 

Não irei parar de palestrar. Continuarei lutando por mais educação sobre Oriente Médio no Brasil, mais conhecimento sobre Israel e os conflitos na região e seguirei os ensinamentos do meu avô paterno, que já nos deixou. Seguirei honrado de ser um judeu israelense/brasileiro, protegendo a democracia, a liberdade de expressão e a paz entre os povos. 

Respeitosamente, 
André Lajst

Nota de Esclarecimento da Aliança Palestina

A Aliança Palestina Recife vem a público esclarecer que em nenhum momento quaisquer de seus membros contactou a Reitoria da Universidade de Pernambuco ou a equipe organizadora da palestra unilateral sobre "dilemas no processo de paz no Oriente Médio " para solicitar o cancelamento do evento programado para a próxima quinta-feira, às 13:30 horas, conforme manifestação do palestrante em suas redes sociais.

Cumpre destacar também que a Aliança Palestina Recife jamais se esquivou ao debate e que, desde a sua criação,  prima pela denúncia dos crimes contra a humanidade cometidos pelo estado de Israel e pela construção do diálogo com os diversos atores do processo, sobretudo  com representantes da comunidade judaica que sempre participam dos eventos promovidos pela Aliança Palestina Recife em Pernambuco. 

Destaque-se, também,  que a Aliança Palestina Recife, ao contrário das acusações levianas proferidas contra o coletivo, quando organizou evento semelhante  em parceria com o Departamento de Educação da UFPE, optou pela realização de debate entre representantes dos dois países interessados, no encerramento do simpósio cuja temática foi a questão dos direitos humanos.

Registre-se, ainda, que a Aliança Palestina Recife rechaça toda tentativa de negacionismo ao holocausto da Segunda Guerra Mundial (seis milhões de vítimas judias, comunistas, ciganas, portadoras de necessidades especiais etc) bem como não aceita que se negue o holocausto do povo palestino, vítima da ocupação militar promovida pelo estado  sionista de Israel.

Ressalte -se, ademais, que redes sociais não devem servir de palco para incitação ao ódio racial, à  violência étnica e à  intolerância religiosa, tampouco espaço de difusão do antissemitismo, o qual repudiamos veementemente. 

Por último, para não restar quaisquer dúvidas sobre o cancelamento do evento, a Universidade de Pernambuco deveria se manifestar publicamente , através de sua assessoria de imprensa, indicando inclusive os nomes das pessoas que supostamente teriam ameaçado a realização do mesmo.

Salam aleikom ! Shalom ! Paz !


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