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Pesquisa mostra que deixar de usar chapinha é uma atitude mais que estética, é um ato político-social

A socióloga Anita Maria Pequeno Soares analisou que, ao largarem as chapinhas e alisamentos, as mulheres negras atuam além de sua autoestima e identidade

Publicado em: 13/12/2018 11:54 | Atualizado em: 13/12/2018 12:21

Imagem: Divulgação

Cabelos crespos e cacheados nem sempre foram sinônimo de beleza na sociedade, mas processos como o de transição capilar na contemporaneidade ressignificam não só o cabelo, como, também, a estética negra. A partir, principalmente, deste marco, em que cabelos com texturas mais crespas passam a ser assumidos e valorizados, a socióloga Anita Maria Pequeno Soares analisa que, ao largarem as chapinhas e alisamentos, as mulheres negras atuam além de sua autoestima e identidade, e conclui: “Por se tratar de uma expressão, a atitude não pode ser dissociada do seu caráter social e político, uma vez que o cabelo crespo contempla uma forte dimensão simbólica, como sinal de inferioridade em uma sociedade racista”.

Na dissertação “Cabelo importa: os significados do cabelo crespo/cacheado para mulheres negras que passaram pela transição capilar”, defendida no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE (PPGS) e orientada pela professora Liana Lewis, Anita Soares identifica essa relação − cabelo-autoestima-identidade − não só como a valorização de uma negritude ou da descendência africana, mas como uma rejeição direta de beleza feminina, majoritariamente branca. “A negação da beleza negra alude o período da escravidão. E o cabelo foi e continua sendo, juntamente à cor da pele, sinais que destacam a negritude; não acidentalmente, o cabelo surge como uma questão desde a infância para as meninas negras de cabelo crespo, tendo como única alternativa o alisamento”, explica.

A dissertação aponta as razões que tornam o cabelo importante na vida das mulheres negras de cabelo crespo. “Os significados do cabelo perpassam a negociação de identidades políticas complexas marcadas pela interseccionalidade entre raça e gênero”. Segundo a autora, a autoestima estava condicionada ao cabelo liso e a assunções de branquitude, que exigiam um grande esforço de manipulação estética. Na pesquisa, Anita relata que a consequência dessa lógica excludente é “interiorizada e marca profundamente a autoestima delas (mulheres negras), pois suas características corporais são subjugadas à condição de menor prestígio e valor estético”.

Para entender melhor a dinâmica que coloca o cabelo crespo num status de “ruim” e o significado disso na subjetividade das mulheres negras, Anita faz uma cronologia da história da estética negra desde a colonização até o processo da transição capilar; passando por questões que se relacionam ao movimento “black is beautiful”, o “black power” e também o feminismo negro brasileiro. Segundo a autora, “a escolha de trabalhar sobre um tema contemporâneo e fortemente significativo para a vida de milhares de mulheres negras busca mostrar uma realidade tão negligenciada além de alargar a compreensão e a importância do feminismo negro”.

METODOLOGIA - A metodologia utilizada neste trabalho foi a entrevista, norteadas por um tópico-guia e pela pergunta “Quais são as suas primeiras lembranças sobre quando começou a alisar o cabelo?”, a fim de compreender o significado do cabelo crespo/cacheado para essas mulheres. A partir desse levantamento, a autora analisou o discurso das entrevistadas buscando compreender também “os efeitos sociais do discurso do racismo na vida das minhas entrevistas”. Baseada nisso, Anita percebeu que o cabelo crespo torna-se uma questão na vida das meninas negras muito cedo, pois a maioria das entrevistadas lembra de alisar os cabelos ainda na infância. Os danos causados por esse 'ritual de beleza', como corte no couro cabeludo, feridas e afins, também são comentados pela socióloga.

Os sujeitos da pesquisa foram mulheres negras, com média de 25 anos, com exceção de uma entrevistada, que tinha 48 anos e vivenciou outro contexto, que passaram pela transição capilar, em certa medida. De acordo com a pesquisa, escolher apenas mulheres que passaram pela transição direciona o discurso e, segundo um dos autores utilizados para embasar o estudo, “as mulheres que alisam o cabelo tendem a discordar mais do ‘self-hatred’, ideia segundo a qual o alisamento seria reflexo de uma autoestima baixa das mulheres negras e do consequente ‘ódio a si mesmas’; enquanto as mulheres que usam o cabelo ‘natural’ tendem mais a concordar com essa ideia”.

Já nos casos de transição capilar, Anita define a transformação como “um processo rumo ao conhecimento de uma parte desconhecida”, pois a maioria das mulheres entrevistadas passaram pelo processo de alisamento sem antes conhecer o cabelo natural. Por fim, a mestranda analisa a importância do “big chop” para essa mulheres. O ato de cortar o cabelo muito curto “significou uma mudança muito além do cabelo”, é uma luta política por reconhecimento.
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