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Vida Urbana
50 anos da RCC no mundo

Música é a vitrine da renovação carismática católica

Padre Marcelo Rossi foi um dos primeiros a levar a música para além do contexto dos grupos de oração. Fenômeno ainda hoje segue forte, com nomes como Thiago Brado e Anjos de Resgate.

Publicado: 09/04/2017 às 14:00

O paranaense de Cianorte Thiago Brado tem cinco anos de carreiras e acumula milhões de visualizações no Youtube. Moi de Foto/Divulgação/Moi de Foto/Divulgação

O paranaense de Cianorte Thiago Brado tem cinco anos de carreiras e acumula milhões de visualizações no Youtube. Moi de Foto/Divulgação/Moi de Foto/Divulgação

Banda Anjos de Resgate foi a primeira da história da música católica a receber DVD de ouro. Credito: Pedro Hummel/DivulgaçãoUma fonte de muitos córregos, de muitos braços. Talvez essa seja das representações imaginadas da Renovação Carismática Católica (RCC) a que mais se proxima de como se difunde o movimento no Brasil. A braços silenciosos, pessoas de renome eclesial e com afinidade no mundo da música se juntaram. Os padres-cantores constituem o mais midiático desses braços. E que teve o fenômeno Marcelo Rossi, cujos CDs venderam mais de oito milhões de cópias, como primeiro grande sucesso e hoje vê se repetir nacionalmente com Fábio de Melo Reginaldo Manzotti e regionalmente com Damião Silva. A essas vozes ligadas à Renovação, somam-se bandas arrasta-fiéis, Anjos de Resgate e Rosa de Saron, e  pregadores, Monsenhor Jonas Abib, fundador da Canção Nova, em especial. Bandas e padres-cantores procuram evangelizar pela música. Pela pregação e alcance das rádios e canais de televisão da comunidade, Abib amplia o abrangência das mensagens.

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Em Pernambuco, padre Damião Silva, 45 anos, apareceria em qualquer lista dos maiores difusores da espiritualide carismática. Administrador paroquial de Nossa Senhora do Rosário, em Jaboatão dos Guararapes, o sacerdote divide a agenda entre o cuidar da paróquia, programas de rádios, missas e shows. Já se apresentou interior afora,  em Pernambuco, Paraíba, onde nasceu, e Sergipe. Fora do Nordeste, esteve em Goiás. E o que mais lhe possibilita as andaças é a música. “A música é a expressão da alma. Às vezes, passo vinte minutos pregando e não alcanço com as palavras o que consigo com uma música”, confessa.

Música e RCC andam juntas, em louvores, missas, shows. Desde o princípio, na gênese da célula primeira do movimento, os grupos de oração. “A música está presente em uma quantidade enorme de tempo nos encontros. Nos grupos de oração, a função dela é auxiliar a pessoa na comunicação com Deus”, explica a mestre em etnomusicologia pela Universidade Federal da Paraíba(UFPB) Maria Clara Tavares, responsável pela dissertação de mestrado “A música da Renovação Carismática Católica em grupos de oração na Região Metropolitana do Recife”.

Não é do movimento o mérito por unir música e religião. Porém, é completamente dele a competência de transformar a evangelização católica por meio de canções. “O fato de usar um ritmo que as pessoas conhecem facilita o acesso ao conteúdo que quer ser transmitido”, lembra o professor de música da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Carlos Sandroni.

O Padre Marcelo Rossi parecia dominar esse conhecimento quando extrapolou a música dos grupos de oração para o contexto das missas. Era o começo de um caminho sem volta. A Igreja Católica passou a incorporar a música da renovação nas missas. A renovação passou a compor para as celebrações tradicionais.  “A música feita por compositores carismáticos tem uma instrumentação, uma sonoridade diferente daquela de missa. Para as pessoas, foi uma novidade”, acrescenta Maria Clara Tavares.
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As canções possibilitam tocar em um dos pontos centrais da espiritualidade carismática, a redescoberta das emoções na relação com o sagrado. Na concepção  dos carismáticos, também abre portas para a experiência com o Espírito Santo. “A Renovação leva a gente a conhecer Jesus Cristo pela leitura diária da Bíblica, a se lançar na leitura orante da palavra de Deus”, diz padre Damião. Para a leitura orante a música contribui. Isso porque “a leitura orante vai além do intelecto”.

A música que auxilia padre Damião a evangelizar e a difundir o modo de ser da Renovação é o veículo que também move Anjos de Resgate, banda estreitamente ligada ao movimento carismático. “Quando o grupo começou, a maioria dos integrantes já participava da Renovação”, contou Eraldo Mattos, baixista, violonista e vocalistas da banda desde a fundação, em 2000.  A relação do Anjos de Resgate com o movimento se refletiu no lançamento do primeiro CD, também em 2000.

Aconteceu em um congresso da Renovação e trazia a participação do Monsenhor Jonas Abib, referência carismática dentro e fora do país. E os laços continuam até hoje, quando a banda contabiliza mais de um milhão de CDs vendidos e mais de 600 cidades percorridas. “A base das músicas do Anjos de Resgate são muito católicas; A gente prima por preservar a doutrina. E as músicas tem um histórico dentro da Renovação”, reconhece Erasto.

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Banda Anjos de Resgate foi a primeira da história da música católica a receber DVD de ouro. Credito: Pedro Hummel/Divulgação

ENTREVISTA
Monsenhor Jonas Abib, 80 anos, fundador da Comunidade Canção Nova

Como e quando se deu o primeiro contato do senhor com a RCC?
Em novembro de 1971 tivemos um encontro com o padre Haroldo Rahm no Centro Salesiano de Lorena (SP). Ele falou do que era a Renovação Carismática Católica, do batismo no Espírito Santo e o que estava acontecendo no mundo. Eu recebia tudo aquilo com avidez. A respeito dos carismas, por exemplo, eu sabia pela Bíblia, pela Teologia, mas padre Haroldo falou de maneira nova. O testemunho que ele trouxe de pessoas que foram renovadas, transformadas, foi um espetáculo! Ao fim, padre Haroldo impôs as mãos sobre nós sacerdotes e orou. Eu não sabia o que era aquilo, mas desejei do fundo do meu coração. Naquela noite, sozinho, nos pátios do colégio, comecei a orar como nunca tinha feito na minha vida. A oração fluía de dentro de mim, e o mais lindo, a partir daí, nos dias seguintes, eu já não era mais o mesmo, mas uma pessoa totalmente nova.

Em que a RCC mudou a vida do senhor?

Eu sou resultado dessa graça, do batismo no Espírito Santo. Tudo na minha vida começou a mudar e ainda continua, graças a Deus. Até mesmo o arrependimento dos meus pecados do dia a dia, os “pecadinhos” que carregamos conosco. O poder do Espírito Santo, leva à conversão, à transformação que ninguém consegue fazer, somente Deus. Eu levei muito a sério essa graça em minha vida. Percorri o Brasil todo para propagar a experiência de oração no Espírito Santo. A Comunidade Canção Nova, que vai completar 40 anos no próximo ano, nasceu dessa ação do Espírito entre nós.

Qual a importância da RCC para a Igreja Católica no Brasil?

Acredito na Renovação Carismática Católica, que ela é necessária para a Igreja. O Espírito Santo renovou e está renovando a Sua Igreja. Nessa comemoração, é preciso pedir que o Espírito se derrame como uma cachoeira de água sobre o Brasil, as Américas e o mundo, que precisa tanto. Como pede o Papa Francisco: que o novo Pentecostes aconteça no jubileu da Renovação Carismática Católica no mundo.

E quais os principais desafios enfrentados pela RCC no seus 50 anos?
O uso dos dons precisa ser reaprendido! A RCC chega aos 50 anos, à sua plenitude e maturidade e precisa ter e cultivar os carismas, ser carismática, invocar o Espírito Santo para que Ele nos dê os seus dons. Nós, membros da Renovação,  não podemos deixar isso cair no chão.

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