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Infância As gaivotas da Rua Azul Crianças e adolescentes da Favela do Papelão, em São José, não têm espaços públicos de lazer. Saltar de uma altura de oito metros em direção ao Capibaribe é a única alternativa

Por: Marcionila Teixeira

Publicado em: 17/03/2017 22:43 Atualizado em: 17/03/2017 23:34

 (Peu Ricardo /DP)


Azul é o nome daquela rua. Fica no bairro de São José. Mais precisamente, na Favela do Papelão, como o lugar é mais conhecido. Azul, na verdade, é o nome da via principal da comunidade. Ao longo dela, os moradores arquitetaram vidas em labirínticos e estreitos becos, tomados por casas conjugadas, falta de saneamento básico e muito calor. Naquela semana, a tarde acaba em maré cheia. Os meninos e apenas uma menina adentram a comunidade com as poucas roupas e os cabelos molhados. Acabam de chegar dos saltos da passarela de ferro sob a Ponte Joaquim Cardoso. Buscavam a dimensão do Rio Capibaribe.

As águas sujas de tanto maltrato humano são a melhor companhia das crianças e adolescentes daquele perímetro esquecido pelos sucessivos governos. Entre a passarela e a correnteza, os saltos provocam um frio na barriga, disparam a adrenalina. Diante da falta de espaços públicos de lazer, são uma perigosa e emocionante alternativa de diversão para os meninos e meninas da Rua Azul.

O primeiro salto da passarela de Micael de França Pereira, 10 anos, foi estimulado pelos amigos. Calcula-se uma queda a uma altura de oito metros. A conta também envolve uma imensidão de coragem. Willames dos Santos, 13, salta desde os nove anos. Já alcançou o patamar do invejável salto mortal.

- E como você se sente?
- Me sinto um passarinho.

 (Peu Ricardo /DP)


O malabarismo entre o céu e o rio tem nomes. Folha seca, flecheiro, parkur, bomba, macaquinho, agulhinha… Cada um tem um nível de dificuldade. Denilson Bezerra de Andrade, 12 anos, pula das pedras às margens do rio. Não gosta da sensação de frio na barriga. A água do velho Capibaribe escorre pelo rosto, escapa entre os dedos. Deixa os corpos mais leves para boiar.

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“Essa é como se fosse nossa praia”, avalia Maria Eduarda Menezes da Silva, 15, a única menina do grupo naquele dia. Além de Eduarda, apenas a irmã dela também salta da passarela na comunidade. O mais difícil, diz, é encarar o discurso das outras meninas. “Elas têm frescura, dizem que a água é suja. Não ligo. Além disso, os meninos são como irmãos para mim”, destaca Maria Eduarda.

A Favela do Papelão não tem estrutura pública de lazer para crianças e adolescentes. “A gente brinca com o que tem. Sobe nas fruteiras, toma banho no rio”, conta Miriam Maria da Silva Santana, 15. A principal reivindicação dos meninos é um campinho de futebol. Hoje eles jogam bola no meio da Rua Azul e são obrigados a parar a partida durante a passagem dos veículos.

O campinho de futebol mais próximo fica perto da Academia da Cidade, no Coque. Mas nem sempre os meninos da Azul são bem recebidos por lá. Os jovens vivem em territórios divididos pelo tráfico de drogas. Em meio à carência de tudo, a Emlurb e a URB afirmam não ter qualquer projeto de campo de futebol ou de outra estrutura de lazer para os jovens do entorno da Rua Azul.

 (Peu Ricardo /DP)


A Polícia Militar costuma fazer rondas perto da passarela. Em dias de maré cheia e brincadeira, ordena a saída dos jovens da água. “Todo PM é orientado a cuidar da segurança do cidadão. Geralmente essas crianças estão em situação de vulnerabilidade, tomando banho no rio ou pegando carona em ônibus, por exemplo. Orientamos para os possíveis danos da brincadeira. Se verificamos que estão sós e sob efeito de drogas lícitas ou ilícitas, podemos encaminhar para o Conselho Tutelar”, explica o coronel Aílton Araújo, diretor integrado metropolitano. Não por acaso, a brincadeira é coibida principalmente no Marco Zero, no Bairro do Recife, um dos principais pontos turísticos da capital.

O mesmo estado “preocupado” com a proteção dos vulneráveis não oferta alternativas de lazer seguras. Os meninos e meninas da Rua Azul não estão nos planos da cidade. São invisíveis em seus anseios. A própria Prefeitura do Recife alega não ter cadastro com números de moradores e imóveis do lugar.

Humberto Miranda é professor, pesquisador e autor do livro História da Infância em Pernambuco. Olha com desconfiança para o discurso de segurança feito pela PM. “Os jovens que estão nas pontes tomando banho de rio ou nas praças se apropriam do espaço urbano do jeito deles. Não vivem necessariamente em situação de rua ou de abandono. A maioria tem suas casas e suas famílias nas comunidades do entorno. Essa é a forma que encontraram de viver a cidade onde moram. O sentido que eles dão para o rio é diferente do que nós adultos damos. Somos mais disciplinados, temos outras preocupações”, reflete.

Ao longo da história da infância no Brasil, diz Miranda, são muito comuns medidas cujo fim é a higienização do espaço urbano maquiadas pelo discurso da preocupação com a segurança. “A fala da segurança aparece em primeiro plano e a sociedade legitima porque ela também se sente segura com essa atuação policialesca e disciplinar. Acha que essa é a solução correta. Será que a segurança dos meninos realmente nos preocupa?”, questiona. Para o estudioso, faltam espaços apropriados de lazer nas comunidades. “É preciso ter cuidado com esse discurso que muitas vezes oprime em nome da segurança, nega o direito de ir e vir. Afinal, qual é o menino que está pulando no rio?”, pontua.

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