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Tradição dos azulejos está desaparecendo
A cobertura da fachada das casas com azulejos era sinal de prosperidade com um valor agregado para os imóveis
Publicado: 11/02/2017 às 10:01
A arquiteta Sylvia Tigre tem disposição e memória de sobra para atualizar o inventário azulejar do estado. Foto: Julio Jacobina/DP/A arquiteta Sylvia Tigre tem disposição e memória de sobra para atualizar o inventário azulejar do estado. Foto: Julio Jacobina/DP
Foi no século 19 que os azulejos migraram dos interiores para a fachada das casas. O grande mestre da azulejaria luso-brasileira, João Miguel dos Santos Simões, chegou a declarar que Pernambuco nacionalizou o azulejo. O primeiro inventário do acervo azulejar no Recife foi feito em 1950 por Olímpio Costa Júnior. Em 1982, o português Antônio Menezes Cruz atualizou o documento revelando as perdas já ocorridas em três décadas. E em 2002, a arquiteta Sylvia Tigre revisitou o trabalho deixado por Cruz e ampliou a pesquisa para 11 cidades, incluindo a Região Metropolitana, Mata e Agreste.
Quinze anos após o último levantamento, o estado ainda não dispõe de uma legislação para preservar a riqueza dos desenhos que embelezaram as cidades nos últimos dois séculos. “Em São Luiz, no Maranhão, a Polícia Federal chegou a fazer a segurança dos azulejos, que são um patrimômio das cidades, mas aqui só são preservados nos imóveis tombados ou quando há interesse do proprietário”.
Aos 73 anos, a arquiteta Sylvia Tigre ainda tem disposição e memória de sobra para atualizar o inventário azulejar do estado. “Tendo financiamento, eu faço tudo novamente”, afirmou. Em um passeio com a equipe do Diario ela nos guiou a três lugares onde a fachada em azulejo foi registrada no seu livro O azulejo na arquitetura civil de Pernambuco no século XX, resultante do inventário. A primeira parada foi na Rua dos Coelhos, onde há duas casas conjugadas em frente ao Hospital Dom Pedro II. Em 2002, as duas fachadas guardavam um desenho de um padrão raro, o mesmo que ela estampou na blusa que posou para as fotos. “É uma pena, pois uma das fachadas foi coberta por tinta e quem fez isso não tem ideia do valor arquitetônico. E a outra, embora preservada, necessita de restauro em razão das colagens que foram feitas sobre os azulejos”, explicou a arquiteta.
Na Rua Velha, a decepção foi maior. Praticamente todas as fachadas perderam a cobertura azulejar. A casa de nº 186, pintada de amarelo e pichada, já guardou um dos mais belos desenhos vistos hoje apenas no livro dela. “É muito triste assistir tudo isso desaparecer sem nenhum tipo de cuidado com a tradição secular dos azulejos na fachada das casas”, lamentou Sylvia. Segundo ela, o Recife foi a cidade que mais perdeu o acervo entre as cidades que visitou. “Olinda, como cidade patrimônio, preservou melhor as fachadas, o que não aconteceu no Recife”, revelou. Segundo ela, no interior, a cidade que mantinha melhor preservado o acervo em 2002 era Brejo da Madre de Deus, no Agreste. “As cidades antigamente tinham um encanto com a identidade visual. Hoje são todas iguais e com cerâmicas nas fachadas”, afirmou.
DESENHOS
Os azulejos que passaram a embelezar a fachada das casas a partir do século 19 eram fabricados em Portugal. Nos padrões dos desenhos, 65% portugueses e 35% franceses. “Quando o Brasil começou a importar azulejos de Portugal foi bom para os fabricantes de lá que enfrentavam uma crise na época. E nós nunca conseguimos produzir azulejo de fachada, no máximo para interiores e depois vieram as cerâmicas”, contou a arquiteta. No levantamento, ela não chegou a quantificar o número de padrões encontrados nos desenhos. “Alguns se repetiam, mas outros eram mais raros”, contou.
Saiba Mais
Azulejaria nas fachadas das casas no estado
Séc 19 início da cobertura das fachadas com azulejos
65% dos desenhos eram portugueses
35% dos desenhos eram franceses
Inventário de 2002 visitou 11 cidades
Recife
Olinda
Igarassu
Goiana
Ipojuca
Sirinhaém
Paudalho
Vicência
Vitória de Santo Antão
Bom Jardim
Brejo da Madre de Deus
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