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Vida Urbana
Moradia

Comunidade que vive sob risco de queda em canal espera habitacional há 6 anos

Moradores da "Escorregou tá Dentro" aguardam desde 2009, quando foi assinado o contrato de obras, a mudança para o bairro do Cordeiro

Publicado: 03/12/2015 às 12:15

Noventa e seis famílias da comunidade, que vive na beira do Canal do ABC há mais de 30 anos, esperam pela entrega do habitacional na Avenida Maurício de Nassau, no Cordeiro. Foto: Brenda Alcantara/Esp. DP/

Noventa e seis famílias da comunidade, que vive na beira do Canal do ABC há mais de 30 anos, esperam pela entrega do habitacional na Avenida Maurício de Nassau, no Cordeiro. Foto: Brenda Alcantara/Esp. DP/

Noventa e seis famílias da comunidade, que vive na beira do Canal do ABC há mais de 30 anos, esperam pela entrega do habitacional na Avenida Maurício de Nassau, no Cordeiro. Foto: Brenda Alcantara/Esp. DP

Entre postos de gasolina, fluxo de trânsito intenso e pontos de venda de automóveis está a comunidade Escorregou tá Dentro. Lá, às margens do sujo Canal do ABC que entrecorta a Rua Cosme Viana, em Afogados, Zona Oeste do Recife, foram levantados barracos de madeira há cerca de 30 anos. Hoje o tijolo é o material de fundação das casas, mas a minúscula calçada, divisória entre residências e o canal, continua perigosa – é relatado que a última pessoa caiu na água insalubre em setembro. Apesar da condição extrema da moradia, desde 2009 os moradores esperam pela entrega do habitacional para onde 96 famílias já deveriam ter sido transferidas. A obra, que extrapolou todos os prazos anteriores, ainda não está finalizada.

Marcos Antônio da Silva, morador da comunidade desde o seu começo, não demonstra nenhuma animação quanto a mudança de endereço. “A gente tá aqui faz muito tempo....”. É na Avenida Maurício de Nassau, no Cordeiro, onde os prometidos seis blocos que abrigam apartamentos de 41m² – divididos em dois quartos, área de serviço, sala, cozinha e banheiro – se encontram fechados aos futuros moradores. A obra foi assinada pelo Governo do Estado e a Caixa Econômica Federal, através do Fundo Nacional de Habitação e Interesse Social (FNHIS), e a empresa realizadora é a Trópicos Engenharia. Consta no Diário Oficial da União que em 21 de junho de 2012 a empresa firmou contrato de R$6 milhões e 958 mil para executar em seis meses a obra. Os 180 dias para o fim também constam na placa em frente do habitacional inacabado, mas o dia de início não.

Moradores têm que caminhar por uma minúscula calçada e não são raras as quedas no canal. Há ainda grande proliferação de mosquitos e insetos. Foto: Brenda Alcantara/Esp. DP Soraia Leite morava na Mustardinha, numa casa "boa, bonita", até seu marido, vendedor ambulante, morrer atropelado enquanto se locomovia de bicicleta. Sem poder se manter no local, também fez parte da fundação da Escorregou tá Dentro. “Cheguei aqui com menino de braço e hoje ele já tem três filhos, e ainda estou aqui. Faz muito tempo que esperamos.” Ela reclama que políticas públicas são lentas e ineficientes para o local. “A gente mora dentro do canal e é cobrado taxa de esgoto, você acredita? Não melhoraram nada em água ou energia, não botaram fiação, tudo a gente fez. Mas cobram”, comenta, com uma conta mensal em mãos. “Mas sou privilegiada: moro também na beira da avenida e minha casa não inunda quando a maré sobe.” As casas mais longe da via – segundo ela, há 30 famílias de um lado da Cosme Viana e 175 de outro - enchem de água do canal quando há chuva ou maré alta. Atualmente líder comunitária, Soraia mostra um documento de agosto em que Associação de Moradores solicita ao superintendente regional Paulo Nery, da Caixa Econômica Federal, uma reunião entre a empresa, a Companhia Estadual de Habitação e Obras (Cehab) e a Trópicos Engenharia para esclarecer as razões para o atraso. Não obteve resposta.

Habitacional na Avenida Maurício de Nassau está inacabado. Contrato foi assinado em 2009 e em 2012 foi publicado no Diário Oficial da União prazo de seis meses para finalização. Foto: Brenda Alcantara/Esp. DP
 
Por dentro, as casas da comunidade são bastante quentes e estreitas. Do lado de fora, não há espaço para mais de uma pessoa na calçada – os moradores se encostam nos muros ou entram nas casas para dar preferência a quem vai passar. Por conta disso, muitas crianças da Escorregou já caíram no canal. Maria José Ribeiro, que divide a casa com uma filha, também. “Estava tirando as roupas do varal e uma pessoa não quis esperar, aí ela caiu e eu fui junto. Tem muita história de criança que caiu, e sempre tem que alguém pular pra salvar a pessoa. Teve também uma senhora ali de trás que caiu e quebrou um braço.” Em situações urgentes o cenário é ainda mais difícil: uma moradora chamada Noêmia, por exemplo, teve um aneurisma cerebral. Para socorrê-la, foi preciso colocá-la em um lençol, e cada ponta do tecido foi levada por uma pessoa que conseguiu equilibrar a senhora em estado de urgência até a calçada da Cosme Viana.

Maria José é moradora antiga da comunidade, onde comprou um barraco. Teve sete filhos, hoje adultos, e espera a finalização do conjunto. Foto: Brenda Alcantara/Esp. DP A inadequação à moradia é tamanha, que, para lazer, há crianças que brincam de nadar no canal cheio. “O lixo fica escondido e pode até parecer que tá limpo, mas a gente sabe que não tá”, conta Maria José. Já ela, que diz conhecer todo mundo da área, gosta de ir até a feira para se divertir. Questionada sobre a vontade de mudança para o habitacional, ela diz: “a gente é acostumado a morar aqui. Quando chegar lá, acostuma também”. Para a líder comunitária Soraia – que, em comemoração à mudança da estrutura de madeira para tijolos, plantou ao lado da casa uma árvore – um outro problema que afeta a comunidade é certa “discriminação de quem não conhece” o local. “Muita gente passa aqui e fecha os vidros, dirige mais rápido, fica com medo da gente”. O distanciamento dos carros de janelas fechadas parece não adiantar: continua forte a imagem das pessoas que, numa zona de tanto movimento, comércio e buzinas, precisam caminhar com tanta cautela na porta da própria casa.

Em dias de alta do canal, parte do lixo fica submerso e algumas crianças nadam no local. Na foto, Myllena Bianca, moradora da Escorregou Tá Dentro. Foto: Brenda Alcantara/Esp. DP
Previsão de entrega é para 2016
Em nota, a Caixa informou que o ente tomador – no caso, a Companhia Estadual de Habitação e Obras (Cehab)– é a responsável pelos projetos, execução e fiscalização das obras. Para a Caixa fica a responsabilidade de “análise e aprovação dos projetos, aferição do percentual de obras executadas e desbloqueio dos recursos ao ente tomador, proporcional ao percentual executado, limitado aos valores liberados pelo ministério gestor do programa”. Já foi liberado pelo ministério gestor R$2,92 milhões, que representa 29% do valor total do repasse. A Caixa desbloqueou R$2,34 milhões paro o Estado.
 
O Governo de Pernambuco, por sua vez, afirmou que o atraso ocorreu pois “foi necessária uma adequação no projeto inicial do habitacional, parte estrutural e de fundação”. Atualmente, a revisão do projeto tramita e aguarda aprovação da Caixa Econômica Federal e demais órgãos. O habitacional, que deve beneficiar 480 pessoas e custa R$ 6,9 milhões, tem, agora, previsão de entrega para o primeiro semestre de 2016.

Mas não são todas as famílias da Escorregou tá Dentro que irão para o Cordeiro. As outras famílias, além das 96 que devem ser beneficiadas pela obra serão transferidas para Nova Descoberta. À reportagem a Cehab declarou que o terreno, localizado na Rua Chagas Freitas, já foi desapropriado e que o projeto está na fase de contratação da empresa que realizará a terraplanagem para o posterior início das obras. Informou, ainda, que serão entregues 446 unidades habitacionais. 
Uma cerca elétrica separa a comunidade de um pátio de estacionamento de carros. Há grandes terrenos usados como estacionamentos de veículos próximo à área onde cerca de 200 famílias habitam precariamente. Foto: Brenda Alcantara/Esp. DP
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