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/Foto: Guilherme Bergamini/Divulgação
Lideranças políticas se posicionaram contra a declaração do governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), dada ao jornal O Estado de S. Paulo, no último domingo (6), quando propôs uma frente em defesa dos interesses econômicos dos estados do Sul e do Sudeste. Zema alegou que as duas regiões com maior desenvolvimento econômico do país estariam perdendo espaço para o Nordeste e o Norte em votações no Congresso Nacional, e sugeriu uma articulação, no Senado, para reverter eventuais quedas na arrecadação a partir da reforma tributária, a ser debatida na Casa Alta nos próximos meses.
A proposta foi apoiada por Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul e presidente nacional do PSDB, e provocou diversas reações de repúdio por parte de dirigentes partidários. Confira algumas das reações:
"Zema e Leite são exemplos de um fascismo mal disfarçado, que trocou os coturnos pelo sapatênis, mas está sempre procurando desculpas para destilar seus preconceitos. A ditadura teve os seus filhotes, o bolsonarismo também tem. A democracia vai vencê-los de novo." - Marília Arraes, vice-presidente nacional do Solidariedade.
"Só mesmo o bolsonarista Zema para propor uma união Sul-Sudeste contra o Nordeste. Preconceituoso e atrasado. Eu sou do Sul e essa fala é inadmissível. Temos orgulho do Nordeste, do povo nordestino. Queremos a união do povo brasileiro por um país justo, solidário, livre de discriminação." - Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT.
"Acredito que devemos evitar esse clima de 'nós contra eles' que estão tentando manter no país. O tempo da separação passou. Devemos trabalhar para desenvolver agendas propositivas e que beneficiem o povo brasileiro em todas as suas regiões, afinal, nosso desejo é mesmo: construir uma nação que enxergue as potencialidades das diversas áreas e populações que habitam o nosso Brasil. Discordo totalmente do que o governador de Minas Gerais falou. Acredito na construção de um país mais justo através do diálogo e da inclusão e respeito de todas as suas pessoas." - Isabella de Roldão, presidente do PDT no Recife.
"O governador Zema, de Minas Gerais, foi infeliz nas declarações que estimulam uma cisão entre os estados do Sul e Sudeste contra os do Nordeste. Nossa região é a segunda mais populosa do país e representa parte fundamental da riqueza econômica e cultural do país." - Felipe Carreras, líder do PSB na Câmara Federal.
"Formado por mais de 54 milhões de pessoas, o Nordeste tem significado histórico para a cultura e construção brasileira, além de grande contribuição econômica, sendo responsável por 13,6% do PIB brasileiro de acordo com o último IBGE. Palavras como as de Zema contribuem para um aparthaide cultural, político e econômico num Brasil já fragilizado pelos últimos quatros anos de governo fascista bolsonarista que aprofundou as contradições de uma sociedade construída nas bases do racismo estrutural e xenofobia. Toda a indignação e repúdio a estas declarações que não são dignas de um governador de um estado tão importante quanto Minas Gerais." - Tiago Paraíba, presidente do PSol em Pernambuco.
"Entendo que em qualquer reforma devemos respeitar o pacto federativo, assim como fizemos na reforma previdenciária. Temos que cobrar dos estados exportadores nosso imposto de importação, o ICMS, e deixar que mantenhamos nosso direito de incentivar e subsidiar as empresas que se instalarem no Nordeste ou em qualquer parte do país. A 'guerra fiscal' é salutar para os estados consumidores." - Luciano Bivar, presidente nacional do União Brasil.
"Lamento muito que o governador Zema não conheça o Nordeste. Como brasileiro, nordestino e pernambucano, fico impressionado com as declarações de um governante de um estado tão importante, que veio a público criticar a mobilização dos estados do Nordeste e querer transformar isso em um cavalo de batalha. O país é um só. O futuro do Brasil passa, hoje mais do que nunca, pelas regiões Norte e Nordeste, pela sua diversidade e capacidade de geração de energias renováveis. O mais grave é que a declaração do governador mineiro é irresponsável ao mostrar-se preconceituosa. Nossa gente está em todo Brasil trabalhando e impulsionando a economia e merece respeito" - Anderson Ferreira, presidente do PL em Pernambuco.
"Infeliz uma declaração para querer dividir Sul, Sudeste e Nordeste. Uma notável falta de conhecimento e sensibilidade com o nosso país. O povo brasileiro é um só, e todas as regiões merecem respeito, oportunidade e dignidade." - Eduardo da Fonte, presidente do PP em Pernambuco.
Histórico
Ainda na noite do domingo, o governador mineiro, via redes sociais, mudou o tom do discurso. Em uma publicação no Twitter, Zema alegou “distorção dos fatos” e disse que “a força do Brasil está no trabalho em união”. “A união do Sul e Sudeste jamais será para diminuir outras regiões. Não é ser contra ninguém, e sim a favor de somar esforços. Diálogo e gestão são fundamentais para o país ter mais oportunidades.”
Mas essa não é primeira vez que o pretenso candidato do Novo à Presidência da República em 2026 concede declarações polêmicas a respeito do Nordeste. Há cerca de dois meses, durante um encontro do Cossud, em Belo Horizonte, Zema precisou se retratar após ter dito que os estados do Sul e Sudeste "concentram mais trabalhadores que no restante do Brasil". "São estados onde, diferentemente da grande maioria, há uma proporção muito maior de pessoas trabalhando do que vivendo de auxílio emergencial."
Após a repercussão negativa, Zema disse que não teria se expressado da melhor forma e que foi mal interpretado. "Por uma questão talvez de não usar as palavras mais adequadas, acabei sendo mal interpretado. Porque quem conhece o brasileiro sabe que o que ele quer é um trabalho digno. Ele recebe o auxílio porque não está tendo opção, e nós, governadores do Sul e Sudeste, valorizamos a geração de empregos", afirmou.
Após a repercussão negativa, Eduardo Leite voltou atrás em seu apoio a Zema. "A gente nunca achou até hoje que os estados do Norte e do Nordeste haviam se unido contra os demais estados do país. Pelo contrário, a união desses estados em torno da pauta que é de interesse comum deles serviu de inspiração para que a gente possa, finalmente, fazer o mesmo. Não tem nada a ver com frente de estados contra estados ou região contra região. Trata-se de nos unirmos em torno do que é pauta comum e importante para os estados do Sul e do Sudeste."