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Notícia de Política
PERNAMBUCO Arraes já era vigiado antes do golpe

Por: José Almino de Alencar

Publicado em: 15/09/2019 10:43 Atualizado em: 15/09/2019 11:57

Foto: Divulgação
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Não acredito ser ocupação habitual de um filho passar uma tarde lendo o prontuário do pai, ficha policial onde estão registrados fatos da vida pregressa de criminosos e contraventores, suas condena- ções e prisões, assim como da vida carcerária do condenado. Ao percorrer aquela documentação, esbarro com esta “parte de serviço” de 27 de fevereiro de 1961 – escrita em estilo formal, embora tosco e com uma ortografiazinha hesitante – onde o investigador nº 150, Antônio Bernardo de Santana, lotado na Delegacia Auxiliar da Secretaria de Segurança de Pernambuco, presta conta de missão realizada na véspera: a de espionar o enterro de minha mãe. Celia, que morreu em 1961, foi a primeira mulher de Arraes. Eles tiveram 8 filhos.

Almino fez descoberta ao ler o prontuário do pai Secretaria da Segurança Pública – Pernambuco Ilmo Snr. Comissário Supervisor da Delegacia Auxiliar PARTE Levo ao conhecimento de V.S para os devidos fins que, de ordem do Exmo snr Cel. Secretário de Segurança Pública, e designado snr, Permanente desta Especializada, às 14 horas de hontem me derigi ao Aeroporto dos Guararapes acompanhado do investigador n° 174, em um Geep de placa n° 5005 a disposição desta Delegacia , com a finalidade de assistir ao desembarque do corpo da esposa do snr Prefeito desta Cidade, e fazer cobertura até o Cimiterio de Santo Amaro.

Sim, porque sou filho daquele “snr Prefeito desta cidade”; que aliás também desembarcava acompanhando o “corpo da esposa”, falecida na madrugada do dia 26, em São Paulo. Fui tocado pelo tratamento cerimonioso dispensado a meu pai. Talvez fora apenas a expressão de um reflexo hierárquico, estimulado pela natureza oficial do documento. Porém, não é improvável que ao distingui-lo assim, o investigador Santana tivesse em mente as peculiaridades da política local e as intricadas relações de parentesco que permeavam as suas elites.

Vale lembrar que o Sr. prefeito era concunhado do Sr. governador, sob cuja autoridade ele, Santana, agia em última instância. É bem verdade que os dois eram adversários, mas não é menos verdade – o que talvez possa ter provocado a sua prudência instintiva de subalterno – que ele havia sido designado para acompanhar e “dar parte” do enterro da irmã da esposa do governador.

Cinquenta e oito anos após, a imagem de minha mãe pegou-me de surpresa, logo no final do primeiro parágrafo, reificada naquela expressão, “o desembarque do corpo”: a visão de um caixão inclinado ao descer as escadas do avião, carregado por quem? Já não recordo.

Naquele 26 de fevereiro, percorremos juntos, eu e o investigador n° 150 o mesmo caminho, dos Guararapes a Santo Amaro. Ele escreveu sua parte. Agora, escrevo a minha. No meu caso, o estado de alerta fora dado no sábado, dia 25, quando recebi a notícia que minha mãe estava prestes a morrer e vejo-me andando na Rua Sabino Pinho, dobrando a José Osório, no Zumbi, acompanhado de meu primo Joca. Decidimos sair, ou melhor, ele decidiu por mim, e escapar da agitação e do desespero instalados na casa de minha avó materna, onde começava a se agrupar uma massa de parentes e amigos da família. Convocou-me, dizendo: - “Isso não vai ser bom pra você”. Tínhamos 14 anos e por uma espécie de mimetismo espontâneo adotávamos assim uma gravidade no diálogo que supúnhamos ser marca dos mais velhos para aquela circunstância. Sob o sol a pino de fevereiro, ladeando um canal aberto e fedorento em uma rua sem calçamento – tudo diverso do que deveria ser uma “caminhada para espairecer” – Joca ainda acrescentou este clichê da sabedoria adulta que acolhi como muito apropriado: - “Esta vida é uma merda”. Por volta do fim da tarde, tio Caio, seu pai e irmão de minha mãe, nos levou para dormir na sua casa.

Atravessar a noite foi como esperar a execução de uma pena sem hora exata. Mas, não me recordo de vigília alguma. Dormi no mesmo quarto dos primos em um colchão sobre o chão, como era bem de hábito nessas hospedagens. Dou este detalhe porque acordei com a voz alta de meu tio ao telefone, o meu rosto bem rente ao assoalho.

De imediato, entendi do que se tratava: ele insistia com alguém de que as rádios “teriam de noticiar”. Não era um anúncio fúnebre formal. O enterro seria naquela tarde mesmo. Tratava-se da “mulher do prefeito”, insistia. Salvo engano, a palavra “esposa” não era usada na minha família materna. Ao desligar, fez vários comentários mal-humorados, com a sua verve irônica habitual sobre a estupidez humana.

Fechei os olhos prolongando uma ignorância fingida até quando o que fora inevitável me seria comunicado. À porta, meu tio, embaraçado, disse: - “O pior aconteceu. Você já tem idade...”

Voltei à Rua Sabino Pinho e agora revejo minhas avós, Carmem e Benigna sentadas lado a lado em cadeiras de balanço. O choro manso das duas, quase um embalo, transmuda-se em um soluço sincopado e ouço uma delas dizer: - “Sua mãe... tão boa”. Sou levado ao aeroporto em um Volvo azul dirigido por um primo de meu pai. Será que chegamos juntamente com o investigador Santana e seu companheiro? Em todo caso, às 17h, “chegou ali o referido corpo”.

Comunico a V.S. que somente às 17 horas chegou ali o referido Corpo. Encontrando-se a espera altas autoridades do Estado, e grande massa popular de todas as camadas sociais, entre elas estavam também elementos filiados ao partido Comunista, como sejam o Vereador Carlos José Duarte, esposa Nize Duarte, Adrovani Marques, Burra Céga, Paulo Cavalcanti, Ramiro Justino, Eduardo Lima, Sobreira, Clóvis Mélo, e vários outros que não tenho conhecimento do nome mais que realmente são atuante ativo no partido.

Eu obviamente também pude me dar conta da presença de uma “grande massa popular de todas as camadas sociais”, mas não prestei atenção nas “altas autoridades do Estado”, nem tampouco nos “elementos filiados ao partido Comunista”. Não é difícil adivinhar: por causa deles os investigadores nº 150 e nº 174 se deslocaram em missão naquele domingo. Indiretamente eram movidos por força longínqua, a Guerra Fria, que tomava forma entre os nossos embates nacionais e se arrumava ultimamente na política local.

A esquerda vinha ganhando amplitude inédita, desde a eleição de Pelópidas Silveira, em outubro de 1955, com o apoio da Frente do Recife, movimento popular que agrupava trabalhistas, socialistas e comunistas. A eleição de Miguel Arraes como seu sucessor abria perspectivas para a conquista do governo do estado nas eleições de 1962. Os comunistas apoiavam meu pai. Seria normal que estivessem representados naquele momento. Alguns eram amigos pessoais: Carlos Duarte foi o mais próximo entre eles. Curiosamente não está enquadrado entre as “autoridades” na “parte de serviço” do nº 150, embora fosse o presidente da Câmara Municipal do Recife. A qualidade de comunista deve ter prevalecido, quando a sua presença fora anotada. Tinha uma inteligência vivaz, um senso de humor ferino, imaginoso até a maledicência. Sou-lhe eternamente grato porque, suprema consideração da parte de um adulto, me tratava como igual.

Em Paulo Cavalcanti, espantou-me ver um torcedor do Santa Cruz, doutor de paletó e gravata. Para mim, o Santa era o time de uma multidão de gente de pele escura e pobre que via os jogos da “Geral”. Conheci-o, eu tinha 10 anos de idade (cursava o Admissão no Colégio Estadual) com meu pai, no saguão da Assembleia Legislativa. Brincou comigo, quando soube que eu era do Náutico, o mais burguês dos times, dizendo que eu deveria ser solidário com “o povo”.

Sobreira era do Juazeiro, conhecia a nossa família do Cariri. Mulato, esguio, o cabelo inteiramente branco, falava lentamente, largo sorriso de to- dos os dentes. Roupa de brim, impecavelmente limpa. Tinha pouca escolaridade, mas era lido. Educara-se, por assim dizer, com o Partido Comunista. Representava a Editora e Distribuidora de Livros Vitória, pertencente ao PC, que vivia em semilegalidade desde a presidência de Kubitschek. Não dava tratamento de doutor a meu pai, chamava-o de Arraes. Eu gostava daquilo. Em uma sociedade tão agressivamente injusta, era como se tivesse adquirido a dignidade de ser igual. Obviamente, nenhuma das virtudes enumeradas desses personagens seria matéria relevante para a “Parte de Serviço”, cujo interesse principal era provavelmente o de documentar o grau de proximidade entre os comunistas e o futuro candidato da oposição ao governo do estado.

Com a chegada às 17 horas, rumou para o Cemitério de Santo Amaro, onde chegou às 18h20, procedendo-se logo o enterro, que terminou às 18h55. No cemitério, além dos elementos que vieram acompanhando o féretro, havia grande massa esperando o cadáver, e pudemos ainda notar a presença do líder vermelho Gregório Bezerra, que, no decorrer do tempo de duração do enterro, manteve-se só, saindo logo que terminou.

Foi uma longa espera. O corpo seria exposto na capela do cemitério, se houvesse tempo suficiente: a noite cai bruscamente no Recife e o sepultamento teria de ser feito à luz do dia, antes das 18 horas. Não há como descrever o pavor e a angústia que se instalaram em mim com a força de uma condenação sem apelo: eu não queria ver o cadáver de minha mãe. E muito menos tocá-lo, se por acaso fosse obrigado a fazê-lo, empurrado por algum familiar que julgasse assim ser o meu dever filial. Desejei então um atraso perfeito: suficientemente longo para que a exposição do corpo não se fizesse, mas nem tanto que tornasse impossível o sepultamento naquele mesmo dia. A cronologia horária do nº 150 parece ser bastante precisa: às 17 horas, quando chegou o corpo, a passagem pela capela tornara-se impraticável. Fui levado até o interior do avião. Haviam retirado algumas poltronas para que o caixão fosse acomodado no corredor, entre os assentos. De repente, meu pai de terno, surpreendentemente sem gravata, me abraçou, irrompeu em um choro alto, aos soluços, o seu peito martelando e esmagando o meu, descontrolado. Não sei como saí dali. Vejo-me novamente sentado no banco de trás do Volvo azul, aliviado: eu não veria o cadáver de minha mãe. Em seguida, já no Cemitério de Santo Amaro: a imagem crepuscular da capela fechada. Sou amparado em meio a uma multidão até o jazigo. Pela primeira vez, vejo o trabalho de fechamento de um túmulo, o barulho das pás no trabalho de cimentar os tijolos que se empilhavam. À diferença do investigador Antonio Bernardo não pude “ainda notar a presença do líder vermelho Gregório Bezerra que no decorrer do tempo de duração do enterro, manteve-se só, saindo logo que terminou”.

O “líder vermelho” fora o principal responsável no Recife pela insurreição militar de 1935. Preso e torturado, ficou na cadeia por quase dez anos, até a anistia que precedeu a redemocratização. Deputado Federal pelo Partido Comunista Brasileiro em 1947, teve o mandato cassado em janeiro de 1948, quando o PCB é declarado ilegal. Poucos tempo depois ocorreu em João Pessoa um incêndio do 15º Regimento, que lhe foi atribuído, como um ato de represália comunista. Gregório foi preso, responsabilizado e conduzido à Paraíba. Dois anos depois foi absolvido por falta de provas. Ainda assim viveu na clandestinidade até 1960.

Naquele dia, portanto, estava ainda praticamente nos inícios da retomada da sua vida na legalidade. Comportava-se em função disso com discrição e, provavelmente, mantivera- -se isolado, evitando o contato com os presentes para preservá-los e não comprometê-los.

O mais, tudo foi normalmente sem perturbação.

Foi o que se me ofereceu para observação. / Subscrevo-me atenciosamente. / Recife, 27 de Fevereiro de 1961, / Antonio Bernardo de Santana. / investigador no. 150.

Após o enterro voltamos para a nossa casa. Muita gente. Lembro-me um momento encostado na mesa de jantar, a sala cheia. Aproxima-se um amigo de meu pai, bate no meu ombro e diz: - “Coragem, Zé.” Acho que eu era o único filho presente. Os outros sete haviam sido distribuídos entre as casas dos tios. Já deitado, percebo com espanto que meu pai preparava-se para dormir no mesmo quarto.

Depois, não me lembro.

* JOSÉ ALMINO DE ALENCAR é doutor em Sociologia pela Universidade de Chicago, pesquisador titular da Fundação Casa de Rui Barbosa e escritor

Revelação

Um dos filhos do casal é o hoje escritor José Almino de Alencar (o filho maior na foto acima). Ao rememorar o funeral da mãe, Célia de Souza Leão Arraes de Alencar, Almino traz uma revelação: Arraes, na época prefeito do Recife, já era alvo da vigilância policial, conforme atesta o prontuário dele. Em 1961, porém, o Brasil estava sob uma democracia. O golpe que instalaria uma ditadura, resultando na deposição, cassação e prisão de adversários do novo regime, como Arraes, só aconteceria três anos depois.


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