POPULISMO Professor alemão fala sobre populismo e crise da democracia no Recife

Por: Patrícia Monteiro

Publicado em: 22/08/2019 20:16 Atualizado em: 23/08/2019 09:10

Christoph Horn esteve presente no Fórum de Democracia Europa-Brasil. Foto: Léo Santana / DP
Christoph Horn esteve presente no Fórum de Democracia Europa-Brasil. Foto: Léo Santana / DP
De Juan Domingo Perón a Donald Trump, passando por Sílvio Berlusconi. De acordo com Christoph Horn, professor de Teoria Política Contemporânea da Universidade de Bonn, na Alemanha, típicos representantes do populismo. Rol de figuras no qual o acadêmico também cogita incluir, embora de forma menos incisiva confessando ausência de conhecimentos suficientes para tal, o presidente Jair Bolsonaro. Políticos e símbolos de um fenômeno cuja consequência ele afirma ser algo de escala global: a crise da democracia. Situação que, entretanto, ainda segundo ele, não representa de forma imediata ou irreversível uma mudança de regime, mas, sim, uma ameaça aos padrões morais democráticos. 

Estes foram alguns dos temas que o professor abordou em sua palestra “Sobre Crise de Democracia em Tempos de Populismo” realizada nesta quinta (22), durante o Fórum de Democracia Europa-Brasil, realizado pela Embaixada na Alemanha em Brasília e Consulado Geral da Alemanha no Recife, no auditório do ESMAPE, no Recife. Ele examinou os desafios do populismo contemporâneo, levando em consideração aspectos da situação do mundo na atualidade. Em conversa com a reportagem do Diario de Pernambuco, falou ainda sobre como as democracias ingressaram nesta crise, exemplos de líderes representantes do populismo e a situação do Brasil neste sentido, além da maneira como vislumbra perspectivas de futuro. A entrevista, completa, está no site do Diario de Pernambuco - 

Christoph Horn falou sobre a forma como atuam os líderes populistas, utilizando-se de reivindicações que dizem representarem a vontade do povo, embora não a favoreça, na verdade. “Estes movimentos têm personalidades, lideranças carismáticas que abordam questões a exemplo de temas socioeconômicos, migração, etc, e afirmam que as resolverão. São assuntos que realmente tocam a essência do ser humano, suas emoções, paixões, raivas e insatisfações. Utilizam-se disso com maestria”, afirma. Exemplificando, citou o líder da maior potência mundial, Donald Trump, afirmando que o presidente dos Estados Unidos aproveitou-se de uma sensação de insatisfação daqueles que perderam status social, economicamente, com a globalização. “Ele canaliza estes sentimentos, manipula-os, trabalha com mentiras descaradas, difamação e desinformação por meio das fake news. Cria um clima que, ao fim, só faz ampliar seu poder”, avalia. Quanto ao presidente brasileiro, afirmou não conhecê-lo tão bem, mas que vem recebendo informações a respeito. “Quando me falam dos cortes orçamentários das universidades.. quando olho para a Amazônia em chamas, fico meio espantado. Me contaram que ele questiona a orientação ou identidade social das pessoas, assim como os afrodescendentes. Então, temo de que muito do que falo hoje, se formos traçar o seu perfil, encaixe-se em relação a ele”, avalia.

Quanto ao futuro deste panorama, acredita que está muito relacionado à disponibilidade de informações mais qualitativas. “A tomada de decisão não está mais baseada nos fatos, nas ciências. Trump, por exemplo, nega a mudança do clima ou diz que desmatamento não faz mal. A gente sabe que é um absurdo, as pessoas também sabem, mas ele diz mesmo assim. Acredito também que se houvesse mais controle do conteúdo divulgado teríamos uma perspectiva melhor. No momento, há, inclusive, uma discussão interessante na ciência política a nível global sobre como dar, novamente, mais peso e lugar para os especialistas no debate, discussão e tomada de decisão”, acredita. Não enxerga, entretanto, o fenômeno do populismo como combustível para o fim da democracia. “Não vejo a possibilidade de substituição do regime pelo totalitarismo ou fascismo, por exemplo. O perigo real é a perda das nossas referências quanto aos padrões morais da democracia”, conclui.

Além do estudioso alemão, estiveram presentes representantes do meio acadêmico local. O professor Glauco Salomão Leite, da Unicap, presente no painel intitulado “Populismo, Poder Judiciário e Direitos Fundamentais”, falou sobre a identificação de movimento populista autoritário que – embora tenha respaldo eleitoral – vem adotando medidas para enfraquecer ou desmantelar as instituições de controle. Algo que envolve, principalmente, o poder judiciário. “Na medida em que ele é atingido, cooptado politicamente, sua independência é enfraquecida. Consequentemente, direitos fundamentais também são vulnerados. Por isso a preocupação” afirmou.

O vice-presidente do Diario de Pernambuco, Maurício Rands, também esteve no encontro. Ele classificou o momento político do Brasil como a ascensão do populismo de extrema direita, mas afirmou acreditar que não se trata de um fato exclusivamente brasileiro. “Acontece em maior ou menor grau em países de democracia consolidada como o caso de Trump, na América do Norte, ou de líderes europeus como Viktor Orban (Hungria), além de caso recente da Alemanha. Por isso, o professor Horn veio discutir científica e profundamente este fenômeno. Colocar luzes no que está acontecendo vai ajudar a superar o momento difícil pelo qual passa a democracia no mundo”, revelou.


Entrevista Christoph Horn - professor de Teoria Política Contemporânea da Universidade de Bonn (Alemanha)

* De que forma, na sua opinião, atuam os líderes populistas ao qual o senhor relaciona à crise da democracia?

Os populistas utilizam-se de reivindicações que diz representarem a vontade do povo. E conseguem fazer isso com bastante sucesso. São personalidades, lideranças carismáticas que abordam questões que preocupam as pessoas, a exemplo de temas socioeconômicos, migração, etc, e afirmam que as resolverão. São assuntos que realmente tocam a essência do ser humano, suas emoções, paixões, raivas e insatisfações. Utilizam-se disso com maestria e podem até canalizar alguns destes temas de forma de algo positiva, mas, geralmente, não é o que acontece. O populismo é, na verdade, uma espécie de democracia deliberativa malograda, que se desvirtuou. O povo deseja uma participação mais forte nos processos políticos de decisão e isso é difícil em uma democracia liberal representativa. Nela, a vontade do povo manifesta-se de forma indireta porque há parlamentos, representantes políticos eleitos. Enfim, camadas intermediárias. Então, há uma reivindicação por mais participação direta e o populismo explora exatamente este aspecto. 

* Poderia citar exemplos de líderes mundiais que se encaixariam neste perfil? Como avalia o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro?

Pra ficar em um exemplo conhecido e neutro vamos pegar o Donald Trump, que incorpora exatamente isso. Ele diz expressar a vontade dos americanos mas, na verdade, aproveitou-se de uma sensação de insatisfação daqueles que perderam status social, economicamente, com a globalização. Ele canaliza estes sentimentos, manipula-os, trabalha com mentiras descaradas, difamação e desinformação por meio das fake news. Cria um clima que só faz ampliar seu poder. Quanto ao Bolsonaro, não o conheço tão bem, mas a gente vai recebendo as informações. Quando me falam dos cortes orçamentários na área social, nas universidades.. quando olho para a Amazônia em chamas, fico meio espantado. Me contaram que ele questiona a orientação ou identidade social das pessoas, os afrodescendentes. Então, temo de que muito do que falo hoje, se formos traçar o seu perfil, encaixe-se em relação a ele.

* O fato de o populismo ser característico da maior potência mundial é espelho do que acontece no resto do mundo?

Isto começou há algum tempo. Um dos melhores exemplos seria Berlusconi, na Itália das décadas de 90/2000. Um empresário do meio de comunicações que usou este poder midiático para entrar na política e conquistar cada vez mais poder com seu partido, a Força Itália. Com isso, foi aumentando o seu império nos meios de comunicação. Na América Latina, outro exemplo seria o Peronismo, da Argentina. O Trump seria o seguidor deste tipo de populismo, com império de mídia e que usa isso para conquistar instituições vulgarizando o discurso público. E concordo que isto ganha um destaque diferente por ser nos EUA.

* Esta questão do populismo é o aspecto de um momento, embora longo, ou podemos dizer que é característica de uma era? Qual, diante disso, seu vislumbre do futuro?

Temos que falar no plural quando citamos o populismo. Exemplos são o Movimento 5 estrelas, na Itália, ou os Coletes Amarelos, da França. Movimentos de pessoas muito engajadas, motivadas e que não usam mais os meios clássicos de comunicação (jornal/televisão) onde as notícias são checadas, verificadas. Informam-se por meio de Facebook, Whatsapp, Twitter. Vão atrás das informações, nem sempre fidedignas. E com isso as pessoas são manipuladas e repassam estas mesmas informações entre si, ficando em um círculo vicioso. Este tipo de populismo tem muito a ver com fenômenos da nossa época, da internet e novos meios de comunicação. Isto é novo em comparação ao populismo antigo. Quanto ao futuro, posso dizer que está muito atrelado à própria questão da internet. Com mais controle do conteúdo e possibilidade de filtrar os comentários de ódio, difamação, teríamos uma perspectiva melhor.

* O senhor prevê o declínio da democracia ou uma reversão do quadro?
 
As tomadas de decisão, atualmente, não estão mais baseada nos fatos, nas ciências. Trump, por exemplo, nega a mudança do clima ou diz que desmatamento não faz mal. A gente sabe que é um absurdo, as pessoas também sabem, mas ele diz mesmo assim. Acredito que se houvesse mais controle do conteúdo divulgado teríamos uma perspectiva melhor. No momento, há, inclusive, uma discussão interessante na ciência política a nível global sobre como dar, novamente, mais peso e lugar para os especialistas no debate, discussão e tomada de decisão. Não enxergo, entretanto, o fenômeno do populismo como combustível para o fim da democracia. Não vejo a possibilidade de substituição do regime pelo totalitarismo ou fascismo, por exemplo. O perigo real é a perda das nossas referências quanto aos padrões morais da democracia.


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