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Paulo Gustavo: A aventura é obrigatória

Se o fio da verdade claramente une as histórias como as contas de um colar, não é menos claro que esse colar, por sua forma literária, termina por deixar em segundo plano a própria verdade

Publicado: 19/10/2016 às 07:40

Por Paulo Gustavo
Escritor e mestre em Teoria da Literatura, membro da Academia Pernambucana de Letras

Tomo a Guimarães Rosa a frase acima como título deste artigo sobre o mais novo livro de José Paulo Cavalcanti: Somente a verdade, livro híbrido, anfíbio, entre as águas da ficção e a terra firme de histórias reais. Não houvesse a apresentação do próprio autor indicando a sua fonte, o leitor logo tomaria, com deleite, todas as suas concisas histórias como puras obras de ficção. Ocorre que José Paulo quis que fossem, num jogo de ilusionismo às avessas, somente a verdade, isto é, tributárias da realidade que as inspirou, o que mostra seu recorte tão ético quanto curiosamente irônico. Assim, são contos escritos a quatro mãos: as do autor e as da vida com seus inacreditáveis dramas, entre a pungência das dores e o triunfo do riso.

Em Somente a verdade, a aventura é obrigatória; e o narrador, aquele que apanha os fios de uma história real para tecer a dimensão literária. Como que inspirado por Italo Calvino em suas Seis propostas para o próximo milênio, José Paulo atrela leveza e rapidez à oralidade e, quase em cada frase, com grande economia de recursos, nos entrega os nervos febris da narrativa. Mesmo nos parágrafos iniciais, já nos põe, como um bom dramaturgo, diante do conflito que nos acicata a curiosidade e o encantamento.

Se o fio da verdade claramente une as histórias como as contas de um colar, não é menos claro que esse colar, por sua forma literária, termina por deixar em segundo plano a própria verdade para melhor nos seduzir. Nesse sentido, pouco importa se há uma personagem recorrente — a do advogado amigo, pois, no livro (diferentemente do contexto advocatício que o inspirou), a esfera jurídica é tão discreta quanto quase sempre impotente diante das surpresas e reviravoltas do destino. O que nos lembra Proust quando escreveu que “A realidade é a mais hábil das inimigas. Desfecha os seus ataques nos pontos de nosso coração onde não os esperávamos e onde não tínhamos preparado a defesa”.

A aventura é obrigatória, assim como o caráter ficcional da vida. O rasgo do anedótico em Somente a verdade vem iluminado pela empatia do narrador em terceira pessoa, mas uma empatia pontuada pela perplexidade e por uma visão que vai direto ao coração da vida. Ou ao que imaginamos ser esse coração. Uma coisa nos parece certa: o poeta e o historiador — como bem viu Joaquim Nabuco — vivem da vida dos outros. José Paulo, a seu modo, é o poeta que aproxima, não sem desenganado humor, a sua escrita de vidas tão comuns quanto singulares, e isso para flagrar o que chamou de “a gloriosa epifania da existência — mistérios, misérias, o inesperado, o insólito, o mundano, o trágico, o sublime, o espanto”. Somente, e já é muito. Agora é a realidade e os leitores que devem a José Paulo um livro que se lê de um fôlego, tão vivo e extraordinário quanto as vidas que o inspiraram.
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