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Rafael Ruiz reflete sobre o ladrão que devolveu o dinheiro roubado de um advogado

O que nos transforma interiormente é aquela ação que fazemos porque queremos fazê-la

Publicado: 19/01/2016 às 07:08

Por Rafael Ruiz
Professor associado de história da América da Unifesp

No Natal, chegou-me às mãos, de forma mais ou menos inesperada, um livrinho da autora italiana Susanna Tamaro, editado recentemente pela Rocco, De volta à Casa. Inesperada porque pensei que era um romance, mas não. Trata-se de coleção de duas conferências e uma entrevista, em que, de forma mais ou menos autobiográfica, Tamaro tece algumas considerações sobre este mundo nosso que nos tocou viver.

E logo na primeira conferência, aponta para a incapacidade de maravilhar-nos perante as coisas da vida, desde as mais simples até as mais extraordinárias e comenta que dá a impressão de todos estarmos sofrendo processo de anestesia: uma incapacidade profunda de não nos surpreendermos mais perante as maravilhas que nos rodeiam.

Susanna Tamaro atribui essa anestesia ao fato de vivermos num mundo onde todas as questões já têm uma resposta certa, um mundo onde cada coisa está explicada segundo leis precisas de causa e efeito e onde cada ação provoca uma reação e a reação, por sua vez, provoca uma nova ação. Num mundo assim, que parece ser o nosso, concluía a autora italiana, não há mais espaço nem para o mistério nem para a surpresa.

Lendo os seus argumentos, pensei na infinita série de manuais, tutoriais, códigos de conduta e tantos outros receituários sobre como proceder, que podemos encontrar com apenas um clique na internet. Dá a impressão de que já está tudo pronto e respondido e que, se você ainda não sabe como fazer algo, é porque ,ou você ainda não leu ou, se leu, então é porque você é pouco inteligente, “porque está tudo lá. Basta você seguir o que está escrito e pronto”.

Parece-me que é precisamente aí onde radica o problema dessa anestesia que Tamaro lamentava. O homem moderno acabou dominando enorme número de técnicas. Não há nada praticamente que não esteja reduzido a colocar em prática uma série de técnicas infalíveis. Desde como fazer um bolo, que todos vão adorar, até como convencer alguém, mesmo sem ter razão, passando por como se comportar num primeiro encontro com outra pessoa, sem ser chato ou inconveniente, ou como se apresentar em público. Tudo já está previsto detalhadamente, passo a passo, mesmo antes da ação. Com isso, o que conseguimos é ter um homem perito em técnicas e analfabeto em virtudes. Somos excessivamente técnicos e minimamente virtuosos.

Aristóteles dizia que era a ação que transformava o homem. Mas não qualquer ação. Fazer por fazer, fazer porque é assim que está previsto, fazer porque, se não fizer, vai dar problema, não nos transforma por dentro. O que nos transforma interiormente é aquela ação que fazemos porque queremos fazê-la, porque, apesar das possíveis dificuldades - talvez porque fosse mais fácil e sossegado fazer o contrário - decidimos voluntariamente - mesmo que, às vezes, dolorosamente - fazer aquilo. Se for bom, transformar-nos-emos em pessoas melhores e, se for ruim, seremos pouco piores. É a mesma diferença que percebemos entre um pianista, que toca tecnicamente bem o piano, e alguém que é um virtuose. O virtuose tem a música entranhada nos mais íntimo de si. É realmente um bom pianista.

Pensava em tudo isso depois de ter ouvido notícia acontecida durante o réveillon, em Copacabana. Furtaram a carteira de um advogado, com documentos, cartões e R$ 1.500. Dois dias depois, ligaram da Delegacia de Polícia para ele dizendo que a carteira tinha aparecido, mas sem o dinheiro. Já foi bom. Pelo menos, pensei, o homem recuperou os documentos e os cartões sem terem sido usados. Mas dois dias depois, quando chegou ao seu escritório, encontrou um envelope, com uma carta dentro e R$ 1.450. A carta estava assinada - Fábio era seu nome - e pedia perdão pelo que tinha feito, porque, dizia, fazia quatro dias que não conseguia dormir. E acrescentava que faltavam R$ 50, porque, na passagem de ano, comprou uma garrafa de champanha para a mãe. Ao ouvir a notícia, fiquei surpreso. Surpreso e maravilhado. Pensei, parafraseando Primo Levi, é isso um homem? E disse para mim mesmo com alegria e esperança: sim, é isso que é um homem. E o seu nome é Fábio.
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