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Como descascar um abacaxi: uma análise econômica da Democracia Representativa

Nara Cysneiros
Advogada e Mestre em Direito pela FDR/UFPE, Este artigo se baseia na modelagem de G. Akerlof para Seleção Adversa em transações com Informação Assimétrica

Publicado em: 22/05/2024 03:00 Atualizado em: 21/05/2024 23:04

Quando você vota, faz uma escolha com menos informações que o candidato, que “se vende” com posturas ideológicas e políticas, com os projetos que apresenta em campanha. Embora ele saiba como vai se comportar, caso seja eleito; você só sabe a qualidade do político (não mais do candidato) quando ele está investido no cargo.

Alguns políticos são um abacaxi, não se prendem aos fundamentos políticos que discursaram para serem eleitos e isso só é possível aferir, com certeza, quando a eleição já passou e seu voto já foi dado. Outros políticos são uma cereja (especial e valorizada), agem no exercício do mandato conforme a filosofia política que discursaram antes de eleitos. Aqui, não estamos tratando de corrupção, de compra de votos, de lobby, apenas de interesses lícitos e incentivos de comportamento.

Em uma Democracia, quando há muitos políticos investidos no cargo que deliberadamente descumprem suas promessas de campanha, o eleitor presume que todo político é um abacaxi e que seu voto vale menos. Cada vez menos, até que imagine que sua escolha não importa.

No Brasil todo voto vale igual. O que varia não é quanto vale cada voto, ou quantos votos cada eleitor pode computar para seu candidato, mas o valor subjetivo que o próprio eleitor atribui ao voto de que dispõe. Não é o valor financeiro (por quanto dinheiro trocaria seu voto), mas o quanto de utilidade ele espera quando vota.

A utilidade é quanto cada eleitor confia que seu candidato, sendo eleito, vai lhe proporcionar – licitamente, pela prática de escolhas conforme a visão de mundo que declarou ter – em saúde, educação, transporte, em realização de bons contratos públicos, na escolha de prioridades para o orçamento público, em políticas econômicas, em mais ou menos intervenção nas liberdades individuais, em mais ou menos garantias sociais, em mais ou menos tributação, em sobre quais riquezas e em que medida deve recair essa tributação, em cuidado com a coisa pública. Enfim, em colocar em prática aquelas ideias segundo as quais o eleitor escolheu o candidato em quem votou.

Quanto mais políticos Abacaxi são eleitos, menor é o valor médio de utilidade atribuído ao voto e, nesse caso, mais políticos Abacaxi serão eleitos, desencorajando os políticos coerentes de disputar eleições – porque o eleitor que não valoriza o próprio voto não dá preferência ao candidato coerente.

Assim, os abacaxis expulsam as Cerejas dos processos eleitorais, criando um círculo vicioso em que, quanto mais abacaxis forem eleitos, menos utilidade a média dos eleitores vai esperar de seus votos, o que elege mais abacaxis e estabelece uma crise de representatividade democrática, que nasce do pouco valor atribuído ao voto por cada eleitor que tem a sensação de que “todo político é igual”, “todo político é ladrão”, “todo político é corrupto”, “todo político é desonesto”.

Se o problema deriva da assimetria informacional entre eleitores e candidatos, a distribuição em massa de informações falsas só o agrava. Quem distribui fakenews sabe disso e conta com a sua desilusão no mecanismo democrático.

Descascar esse abacaxi é função de todo eleitor: Valorizar o próprio voto, conferir a veracidade das informações que recebe – especialmente das redes sociais – e encontrar uma cereja em quem votar.

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